domingo, 30 de março de 2008

#6: a sala escura

... por que, o que os sentidos realmente acusam? sentir era simplesmente ver por outros lados do corpo (ouvido, nariz, fingertips. língua), mas tudo o remonte das formas e da luz sobre as formas. uma multiplicação do desejo por captura, uma obsessão insuportável pelo aprisionamento das casas, pessoas, da água e do ônibus.
o único sentido é o da cegueira.

o clube do coma [o turno da sala escura] humildemente apresenta a descolocação dos acontecimentos. sei que não é por raiva, sei que todos que subiram ali disseram a verdade - será que a mentira tem a ver com a possibilidade de morrer em breve? é uma bobagem isso, esses meus pensamentos, mas eles me acometem. será por que? a proximidade da morte atrai a verdade como irresistível e, assim não revido. as pessoas que sobem esse palco nos dizem a verdade, não as compreendam mal, não as tomem por excêntricos expostos, não os tomem assim porque alguns de nós acordam e acreditam que os próximos cinco minutos vão ser irremediavelmente engolidos pelo tempo e pelos relógios [até pelos astronômicos]. mas o que a move? essa pessoa.... a arte é essa ou isso? replicar no exterior as peles, as carnes, os órgãos. mais. o que passa no espírito, o que passa na nudez da reflexão, na nudez do passado, na nudez dos atos e fazer das histórias coisas que não são mais suas? é isso a arte? a confissão? a exposição? mas de quem? do que?

se eu subir no palco, e se eu contar? por que parece impossível guardar pra mim e só pra mim? por que os segredos ficam transparentes e saltam no pescoço das outras pessoas? eles vão explodindo em palavras, com poucas vírgulas, que nem sei que digo, e não consigo escrever nem fazer voltar atrás, vão inconsequentes... não tenho domínio no íntimo, nem pudores, nem sobre o corpo ou os sexuais. no sexo sou como uma cabra, não há partição ou diferença integral entre o meu corpo e todos os outros objetos inventados ou naturalmente feitos (não importa o material que compõe); pelos simples movimentos de tornar externo, concreto, visível, existente, o sentido da cegueira.

mais descrição
com uma rápida referência da mão, as folhas começaram a cair bem no pátio ou corredor do quintal. ele chamava isso de limpeza e ela ficava do lado, e ela ria. ela geralmente ria. sacudiram o tronco [da árvore] assim... é como se fosse uma tentativa de invocar o outono ou outra estação que faz cair por força. o pátio não tem piso, é feito só de concreto e não é muito largo também. na parede do fundo há um tanque plástico e, do lado, um varal desses que puxam e recolhem, desses sanfonados, dos lados são muros e depois dos muros são outras casas. a casa fica dentro de uma vila e o musgo verde cobre uns pedaços de tudo bastante húmidos. é isso. a alegria de um casal se preenche pela falta de descrição, pela falta de móveis. é tão estreito que mal dá pra raiz das árvores. ela roda, começa a rodar, e isso não nos desinteressa e o que compõe essa existência para a qual não fomos convidados.

tenho chamado esse homem de cão, é por falta de uma qualidade melhor; ele sempre a espera, sempre a agrada, usa violências, a extrai de si o que a assusta; nessas ocasiões ela vomita longamente porque nunca foi fácil a exposição forçada, mesmo partilhar um segredo. acho esse pátio sufocante, mesmo tendo brisa, vento. certa vez eles vão se mudar dali, mas não sei praonde. pergunto a vizinha: viu uma Kombi e o dono do frete fez o orçamento dos móveis, eles iam se mudar dali, mas não sei pr'onde.
a primeira vez que o viu, quis sair correndo na direção oposta, foi quando vomitou pela primeira vez não se contendo em sujar nem o chão. gritou porque não faria sentido tentar juntar os dois pedaços partidos pelas ferragens. no ônibus houveram sobreviventes, até onde sei - e é pouco - a todos foi um acidente quase banal; foi só essa moça, deveriam tê-la alertado. eu deveria tê-la alertado? mas como, se nem sabia de nada? ela não sabe porque está gritando, há muito tempo, não sabe porque parece ilógico, ou sabe, é inteligente, conhece anatomia, não faria sentido desejar unir novamente aquelas duas partes esquartejadas do corpo, me entende? Tereza e Maria então são loucas? Tereza, certamente, em choque, o que tenta? Tenta segurar a moça pela camiseta, pelo jeans, impedir que a metade de cima e de baixo se separassem num irremediável. Maria vê o ato e procura convencer a (era então) desconhecida a desistir, coisa imbecil. Olha, Maria age de modo mais intrigante porque não acredita contra todos os fatos que a moça havia sido guilhotinada por uma chapa de aço, impede Tereza por não acreditar, em absoluto, que aquilo tinha acontecido. É como se houvesse sempre conserto pro minuto seguinte.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Cidades #9: trechos que não faziam sentido ou outras idéias abandonadas

intro recortada pelo Seven do texto que foi
Pode-se traçar uma forma geométrica no mapa de lugares onde, você não sabe, nem como, mas se faz presente na suspensão de toda necessidade de ir: é chegada.

a idéia (a) eram as fachadas que me atraíam porque tinham virado pontos ordinários
Por isso digo tão abertamente sobre os detalhes mais estúpidos, sobre os ônibus, sobre os mendigos, sobre os 1861 escrito no alto das fachadas de casas que já ruíram ou que já puseram em bom neon escrito “club”.

(b): imaginei que nevava
Naquele dia éramos uns dezessete parados em frente ao prédio baixo de uns cinco andares, observando os artistas, os trapezistas que evoluiam as danças pendurados por cordas. Desde a escolha do lugar, não sei, porque havia uma pressa imensa de chegar onde não se é pra ir. Os moços iam empurrando as carroças brancas e esperei o caminhão da prefeitura passar raspando o chão até poder atravessar em frente à rodoviária numa impossível conformação ao frio de toda aquela manhã cedo. Esperei na caixa amarela da roleta aparecer escrito “Passe...” e passei e sentei feito um saco junto da janela parecendo um cachorro cansado. Descemos lentos a Zona do Porto até o Estácio, os trens estavam parados porque a neve tinha coberto tudo, os trilhos...

idéia de contar do dia com ela, (c) - que, na verdade, foi a primeira idéia. ia começar contando da despedida na rodoviária do Rio.
Ficamos ali sentadas na frente da papelaria: roxo, verde, vermelho, amarelo, verde. Na vitrine o Cristo Redentor em miniatura, em resina, em ligações elétricas, ia mudando de cor e apostei que conseguia dizer cada uma delas a cada mudança. Ela riu não sei se de impaciência. A papelaria não tinha janelas; a parede do fundo era um painel quadriculado como tela de arame onde estão pendurados pelo lado de fora O I R O V O, que é o letreiro. Não lembro de ser feriado, mas a rodoviária cheia não deixava um banco livre, sentamos num tablado no chão azul e com sono.

Cinco pessoas escrevem sobre cidades, reais ou imaginárias, mas vivas dentro de si. Porque uma cidade tem vida e é esta que a define. Nova Iorque, Hammershoi, Lisboa, Fava ou Rio de Janeiro são cidades vividas dia a dia, passo a passo, cada qual à sua maneira. Página das cidades no Obvious.

terça-feira, 25 de março de 2008

Reflexão improvável dirigida à Rafael Barba

por reações em amores Brutos e vendido


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não quero um homem que me faça mulher

quero um homem que me faça homem





porque outros savoir-faires também têm seu folhetim



sixers surpreende e derrota celtics fora de casa
1. fui pegar o Carlton vermelho da Carine que caiu no chão e rolei por lá mesmo. escoriações, mas ninguém viu minha calcinha rosa. polícia não põe a mão nesse filho de meu pai, disse o Drummond, daí eu levantei e vomitei. o cigarro foi salvo. eu devia ter comido depois das 14, agora é só comida embalada. miojo. biscoito. lazanha perdigão. Ronaldo lembrou da queda agora pouco no telefone, disse "foi muito engraçado".

2. tava no bebedouro do segundo andar, mal encostei a boca na água e senti um corpo alto atrás de mim, daí o Alan Claire cantou no meu ouvido "créu". mas meu deus, não se pode mais nem beber água? não, a questão não é essa, é a mulher. e o que é isso? A Guerra do Fogo? dança do créu, [.... ] for the devil sake...


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quarta-feira, 19 de março de 2008

#5: Esferas quase espessas da alucinação

e o que mais se havia ela?



diário em fevereiro, 1996. Rua Fonte da (...)
me passam coisas sem vontade de dizer porque revelam aqui, bem aqui, a perversidade, a vontade de usá-la pro prazer, usá-la como objeto; minha musa, meu boneco posando prum quadro. eu pinto e sem as cores que consolem, mas a inveja da modelo me consome.


lembrança. teatro.
com as pernas estiradas ao longo do assoalho, ela ou eles encostaram - não, era apenas ela - o dedo médio no braço da cadeira. era daquelas poltronas retas, pra coluna reta e só era macia de tanto que já haviam sentado. ela abriu a boca, ela mexeu a boca. a culpa é toda da boca de Tereza, foi o que a frase outro dia disse no meu concordei. pior que doía ela ali indiferente, transcorrendo e eu fazer o que? é como ouvir uma música gostosa onde toca no coro um mi menor. mi menor aperta o coração tão estranho... assim como eu nem posso mais, assim como queria mudar o nome disso, o nome da perversidade, do culto à queda. minha, a tua, a brincadeira.

dark orange sunset
Maria entrou no corredor e ficou esperando pra ouvir alguma coisa. Ela ficava respirando sempre como se tivesse corrido muito, podia-se pegá-la com a boca aberta em distrações recorrentes. ele está ali sentado, sentado num chão degrau como se esperasse, como um cachorro esperando o dono chegar e abrir a porta. Vemos Maria abrir a porta por onde entrou, brisa e etérea, por uma porta que já estava aberta. o cachorro a segue. Mostra ela, a boca aberta tão de perto que é do foco embaçar (quente, abafado dum fim da tarde) e eu quero ver, vemos embalando. Ele parou os pés e se ouve o som dos pés parando, depois a mão na manga da blusa, nas rendas pequenas da manga da blusa de Maria, então beijando o pescoço. Dá pra ver que o som que saía da laringe dela diz que não, ou até mesmo que sim, enganava. No fundo atrás dos dois, a casa, a parede lá da cozinha que é verde e tem umas panelas empilhadas em cima da bancada da pia que não é de mármore - é um outro material. cortina plástica e mal se esconde o botijão de gás, o que ninguém menciona. Maria não..., Maria suspirou numa primeira vez sentindo os dois dedos dele como se procurassem alguma coisa muito lá dentro dela, e num colo dele e num molhar indispensável de mal encostar a língua, a boca, contorcia em concretudes de alma. Olhos dele, os olhos dele que vêem Maria nas pálpebras pulsando, nas pontas pequenas de dedos que se enterraram no seu braço; espera que surja algo, quer encontrar. talvez dentro dela. pelas violências macias, reaver o corpo à superfície; sobre ela, pelos seios, os cabelos.
Foi numa suspressão surda que Maria surgiu; a cabeça lançada para trás e toda, ela toda tornou-se visível em inesperados tons coloridos. os quadris se moveram e foi repentino, foi ato continuado, como que despertos e agora prosseguiam na última tarefa ignorando o longo tempo - entrepausa - onde dormiram. escalou por ele apoiada na ponta dos pés que antes jamais tocaram o chão, agora tocavam o carpete, e alcançou-lhe o ouvido, e exprimiu seus primeiros sons, palavras, após os anos desistentes: eu sou um peixe .... (...!)
Um copo grande, panelas, vento, camisa azul coberta por casaco de número maior, sandália havaiana, cheiro. Ele é como um bêbado esperando a dona chegar e abrir a porta, ama por incompreensão. Maria da Glória, em Santo Cristo, entregou-se em amor póstumo ao homem de Tereza.

lembrança e vue d'spirit
às 3:87 da manhã o ônibus freou bem em frente à padaria quando os meninos corriam com o Jornal Extra que chegava e iam empilhar, encarquilhar, distribuir. Freou mas já ia andando em linha reta, a frente do ônibus eram as janelas dos passageiros que gritavam, as ferragens da construção largada entraram pelas ferragens constituídas e coletivas. ela ficou sentadinha quando tudo parecia que ia passando, não, ainda acontecia, mas é a percepção quando há o desenrolar das instâncias inexplicáveis e inapontáveis, por ser tragédia, faz-se assim: choro, rodar, rangido, asfalto, terra, sangue... ficou sentadinha, achava que estava parada e daí gritava quando os bancos iam tombando pra trás, pros lados, já se sabe. segurou Tereza na mão e até a sua mão gritava assim sem tremer. Tereza viu-se incrustada nos dedos, nos seus, viu que o fim era um chegar constante contra uma parede que já não se move mais; penso se foi por isso que segurou a blusa, segurou o meu jeans e toca aquela água molhando seus pés.... eu queria dizer a ela que era líquido amniótico que caía no seu joelho e que eu sentia tanto por nunca tinha nem ia poder ter o meu bebê ou dela. Se partiu ali sem nunca ter existido era por ter sido gerado e fruto só na minha imaginação - tão prenha desde que Maria caiu surgida naquele barco/navio, com vento e tempestade/chuva, escorrendo pelos lados de tudo quanto era lado; existência pura e incorpórea... e se disse que era morno ou frio, nunca menti.
Fiquei partindo (a pele, o osso é forte) e Tereza tentava juntar os dois pedaços, o tronco, as pernas, escorados na almofada sintética, reta, amaciada de tanto que já haviam sentado. morri e Maria tentava avisar em desesperos gritados, súbitos, cegos, imóveis, pra Tereza que de que é que ia adiantar juntar os pedaços já tão re-movidos? ia saindo do olho dela coisas e eu pensei: é sangue. ela ficou comigo pra sempre como eu quis, nunca. a outra me olhou através da poça formada, juramentada cauda... escamas... tinham se juntado pelos dedos. Agora você acredita?




terça-feira, 18 de março de 2008

Clube do Coma #4: entrepausa

será?

serão?

serões?

serei?

sereia.



Faz onze dias que o asfalto conheceu Maria direito. Maria da Glória nasceu na Freguesia da Candelária embalada num barco que chovia, e naquele dia, um sábado às 07 e quarenta e seis da manhã o dia tava cinza, tava nuvem e foi um barulho grande e longo. Deve ter sido por isso que a água salgada invadiu o convés onde tava a menina, os pais não queriam nem quiseram ouvir um choro, ouvir um grito, é por isso que ela conta que não tem pai nem pai. A gente sabe que não, nem é verdade, mas ela insiste. Maria da Glória insiste e faz enfática as voltas com a mão que gesticulam essas particularidades parturientes que a lembrança, ao que importa à mente, se esqueceu.
Na madeira era água e era da água que aparecia Maria junto com os sacos plásticos de supermercado que ficaram ali boiando. A mãe mal quis tocar, sentiu sono, o pai demonstrou-se feliz, mas á lá: a criança submergida no verde dum cinza azul, tão azul, peixe... berrando à beira do que nem sabia, do que percebeu, do que quis voltar. Ela na água e eu nem posso fazer nada, escorregando por tudo que´ra canto mas se fazia tão mudo paz.




Maria vingou como doença em velho, ficou, nunca pertenceu, mas esteve e fez. Devia chamar Sidarta à menina, mas os pais conheciam? Os pais constrangidos, olhando pra criança que não tava morta, cataram do chão de mar, de chuva. Ela bateu as perninhas gordas e depois daquilo quis voltar sempre pro mar, o mar que lhe tinha surgido, o mar pra onde prometia ir num dia fugido, de noite.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Acordar nunca desagradava

leblon - a. de paiva.
Alice com medo das cartas e do ônibus


queria escrever, mas não escrevo. (e isso não entendo). foi assim mudo que o limão fez um ano de falta de vírgulas e trilho de linha, de trem [acho] - ele não seguia, ele era estranho, agora ele-fante.

trecho de 1885
Parece que antes a solidão era medida pelo som excessivo. A cidade também é um rolar de rodas. Acordar é um desagrado quando se olha pela janela e percebe que ainda está escuro, mas os animais estão dispostos. Puxei os panos da cortina devagar e o céu era um ficando azul com a lua no fundo parecendo uma unha. As galinhas estavam em cima da árvore, tão empoleiradas e tão juntinhas que ficavam parecendo a copa, pé de galinha. As rodas de carroça rolando nas pedras da rua [lado de fora, Rua Princeza dos Cajueiros] me deixaram acordada de vez.

domingo, 2 de março de 2008

Clube do Coma #3: o acaso

No desistir da tristeza, os três tipos de liberdade. Entre a morte pequena e a maior. Entre a verdade inevitável que paira sobre a ponte e o crepúsculo alveolar. Pendente. E tudo aquilo que ela não consegue entender: a infância reminiscente. Árvores ocas para um eu efetivo. Se couber, os sonhos.


lembrança (e não vai se explicar)

Não tem exatamente a ver com existir dentro de outra existência. Talvez assistência dentro de uma existência, sim, essa é uma fórmula boba, simples, por isso é compreensível. O que assusta de fato é esse modo como se transcorrem as cenas; elas são contadas, mas há alguém assistindo? Porque às vezes duvido e duvido porque sabemos que isso não é real. Quem vai acreditar que esse grupo de pessoas está de fato reunida, está materialmente se encontrando e formulando pautas que vão desaguar num palco apobreado onde alguns poucos contam tudo de si? Ninguém vai, eu não vou, não acredito.

lembrança
Estranho mesmo ter de explicar o que não faz sentido nisso tudo. Era noite e estávamos num ponto de ônibus na Presidente Vargas, bem do lado duma carrocinha de churrascos e vinha aquela fumaça perfumada de carne e ninguém quer ter os cabelos com cor de carne. Ficamos nos abanando, não nos conhecíamos. Eu estou fora disso, o que se trata é de Tereza e Maria. Eu não me abanava, eu menti, eu estava só olhando as duas. O problema é que são mulheres muito, muito diferentes: quem vai acreditar que se tornaram pessoas próximas. Eu não acredito.

lembrança
Engatando a chave no cadeado do portãozinho, Tereza entrou batendo o pé antes de pisar na terra do corredor que dava pra casa. Ele tava lá deitado, digo, sentado bem no final encostado numa parede de olho fechado. Tereza foi até lá e antes ficou parada uns minutos longos. Nessa cena não dá pra ver a cara de Tereza, vamos voltar. Ela engata a chave no cadeado que prende o portão que é de ferro e alto, alto que não dá pra ver o que tem atrás, e pintado de verde-descascando. A gente vê que é de manhã bem cedo, bem 5 da manhã, quando dá pra ouvir uns pássaros, céu em três tonalidades aparentemente distintas entre si. Vê o vestido de Tereza bem de perto, a estampa que é de geometrias com flores minúsculas azul, preto, cinza no fundo meio branco; a gente vê a cintura de Tereza e a gente vê metade da bunda de Tereza. A gente vê que ela está usando um casaco de não-sei-o-que e a cena desce pro pé batendo, pro pé subindo o degrau e, quanto o portão bate atrás a gente vê lá no fundo o sujeito sentado, parado dum jeito quase que morto. Não se vê também a cara, ele está com uma perna pra cada lado, calça e sandália Havaianas. A gente vê Tereza passando na frente, vê as costas da perna dela, ouve ela vendo o homem e ouve o barulho duma reclamação.Ela vai até ele - já sabíamos que ela usava sandália dessas que imitam couro e tem tiras, meio envernizadas e solado de plástico.

pendente
Era de manhã muito cedo. Foi na noite anterior que eu tinha encontrado Tereza, não vou deixar nunca ela tirar isso, esse dia, aquela noite, não vou. Ela conta histórias com outros nomes, com modificações, mas eu não; avanço pra que isso não aconteça muito. Encontrei com ela a primeira vez,mas nem foi encontro, era só a fumaça. Tereza trabalha agora no telemarketing ativo na hora da madrugada, eu só tava com medo de levar um esporro da minha mãe pela hora, ela tava saindo do turno. Minha vida é besta, queria não ter de cruzá-la com a de Tereza e nem sei por onde começar porque é triste. Entramos no ônibus, no mesmo ônibus e sentamos no mesmo lado, daí a viagem foi com eu sentada na janela. Era de noite com os carros passando, os postes amarelos. Recostei a cabeça (lado direito) e senti a janela tremendo minha testa, coloquei a mão pra apoiar e me abaixei, fiquei pequena do tamanho que sou mesmo. Foi aí que o ônibus virou mais pro lado esquerdo e freou forte pra trás, eu já tinha reparado em Tereza de jeans e blusa com manga comprida, a achei estúpida. Gostei dos cabelos cacheados, imaginei que ela me disse que não era nada daquilo, mas que não tinha tido uma vida necessária pra poder virar o que era. Imaginei que ela me contou que teve um filho e que largou ele lá, que matou ele com uns chás, uns remédios e que isso aconteceu duas vezes. Da primeira vez tinha tido um filho, mas indesejou tanto -isso foi em Resende, acho - que a criança morreu um pouco depois, o que ela não sentiu. Não conto isso pra que tenham raiva de Tereza, ela queria pôr uma continuação no mundo, mas não entendia como nem de que. O ônibus virou muito mais pra direita, freou pra trás, depois foi como que tombando e batendo nas coisas e eu senti uma tristeza, um medo, depois um nada, sabe? Um nada. Me encolhi pequena mesmo porque eu era alta, mas na vida pequena, minha vida só fazia sentido por causa de Tereza; olhavam pra minha cara e viam ela, não era. Queria que não fosse assim, queria ser eu mais suficiente, assim consistente. Senti uma cosia molhada na cintura e se ficasse silêncio todo mundo ia ver que era líquido aminiótico. Era gelado e molhado o líquido, o ferro que entrou pra mim, pra minha cintura, e foi gelando tudo até lá de ser jogada em frente. Rápido, devagar, esbarrando com as coisas da barriga. Era frio e morno, quente, molhado subindo até o peito da dor do medo, da dor do susto que passou e foi, foi então que estraçalhou tudo o mais até que eu morri num avanço simples de sinal.







Ela não conhecia os caminhos que haviam sido preparados para ela. Vida corre trilhos. As tentativas de retroceder e os sofrimentos do que há de vir. Segundos serram direções deixando para trás, debulhos.
(Isabella Kantek, também roubei o corpo monocromático, depois devolvi e peguei a maçã)

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Na senzala, uma flor

por Justiça que damos liberdade a nossa escrava Magdalena de nação Mina que recebemos por herança por essa ser a mãe da minha mulher por isso desde já a considero livre e como tal fica de hoje para sempre. Sacramento, seis de Junho de mil oitocentos e cinqüenta.

antes (no the smiths):
1. Learn to love meAssemble the waysNow, today, tomorrow and always Minha única fraqueza é uma lista de crimes. Minha única fraqueza é...well, never mind, never mind
2. stop me oh stop me
stop me if you think that you heard this one before
(...who said I’d lied? because I never... I never! Who said I’d lied?because I never...]
3.Last night I dreamtThat somebody loved meNo hope, no harmJust another false alarm
4.vejo que a sorte que tive pode fazer um bom homem se tornar mau
5. driving in your car, please don't drop me home
6. William, isso realmente não foi nada


meio:
aldurin@to me show details 1:29 AM (25 minutes ago) Reply
1:19 AM me: por que the smiths é tão do caralho? não entendo 1:20 AM só falta você me dizer que não gosta, não faça isso
9 minutes
1:29 AM me: vou mudar de conta, peraí. você está tão quietinho hoje... que bom!1:30 AM não sabe como estou insuportável

impressão número a
o que ela não entendia e nem ia entender mesmo, era como os liquidificadores se impunham com toda força na casa. vitaminas e limonadas suiças, pensava nisso, gastava horas do dia nisso. não compreendia nada que se dá pra ascenção em escala filosófica, os grandes pensamentos, os grandes clássicos (também em vinis). mantinha esse firme reflexo obcessivo em enfiar os olhos, enfiar as lupas, as lentes das lupas dos óculos em cima das coisa minúsculas, desapercebidas, desprovidas de importância no cenário fono-literário, na psicologia, no estilo das linhas, no tamanho real das coisas - nisso lhe doía. o apego por si [só] era mesmo inútil. forçou um blog e nomeou Laranja Regressa.


expressão número b (por e-mail enviado e não obtido resposta)
...)

é que só existe inteira felicidade no reduzido à escravidão. daí você me diz "grande, eu já sabia", mas tenha paciência porque pra mim é novidade. não que tenha nascido do nada, mas só agora nasceu. e descubro que tenho vivido todo o tempo sob muitos proprietários (de escravos) e que tenho sido (assim) absurdamente infeliz. mas como largar o serviço de um - de dois três - e me dedicar inteiramente ao serviço dum único?; ao serviço do medo, dum homem, da traição, da negação de alguém, da Igreja, dos estranhos, da fotografia. tenho sido absurdamente infeliz. tenho 23 anos e vejo que sou a pessoa mais velha desse perto. velha e incapaz de parecer um pouco sábia, quando falo qualquer coisa desse tipo, (....
não sou capaz de servir a um único senhor, e o salário do pecado (o pecado é acender várias velas, é apostar em diversos planos futuros que não coincidem) é a morte. é isso. beijo.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

entrepausa #4: final por finalidade ou utilitarismo


Abaixo, roubo afeto surdo de silêncio
teu sair na rua fantástico,
les photographies de Gaëna Des Bois, la chambre noire
de Gaëna)

Les heures passent, les trains routent et les rails s'usent de leurs tangages de marins de rails doux...

Je sais. Je roule, seule.

Comme toi.

J'ai fait l'apprentissage des voyages solitaires et des rencontres qui marquent et gravent et reviennent en souvenances au rythme des musiques que font parfois les roues sur nos chemins.
(...) … Et l’enseigne à retrouver ses pas est là…Va... Va voir. Je suis dans la chambre noire quand je ne suis pas là…

J'ai saisi des ombres et aussi des lueurs, des manières d'exploratrice où j'ai conquis des mondes, quelques terres qu’on n’aurait pas crues fertiles.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

entrepausa #3: nada

António Neves to me
show details Feb 19 (4 days ago)

Tá. Cuida-te.

foi da Isabella:
Dizem que estou repetindo palavras. Mas não percebi. Para não esquecer, para não deixar eu ir.

Cartão postal:

abaixo roubo as efemeridades
(do Bruno)

um grama

de anagrama

é suficiente

pra fazer da

maca

a minha

cama


A visão:
Mulher, não sei se bem nova. Entre a parede estreita, um homem a pega por trás. Acho que luz cinza. Ela usa cordões, muitos, de ferro, e eles vão batendo entre os seios. Não sei praonde ela olha, já esqueci da visão. Tenho um album de fotos que ontem gostei.

Olho fechado:

Nem tudo o que desaparece, é.


Da ausência:
Era pra eu estar onde agora? Em outro lugar, em outro estado (do sólido pra o liquido, mais no Sul, [E]stado), era.... (não podia estar aí com essa mágoa., agora vê? que não é tua) Olhem, vou dizer algo pessoal: por aqui não tenho mais lugar. Essa cadeira, essa mesa, essa música, não é meu (lembrei: dessa vida nada levamos, por isso levo da dos outros). Ademais (continuo parada no mesmo lugar, nem escrevo mais, que isso?!), ademais ainda não me mudei, não me movi. Culto à neurose. Fui prum dia que não sei se volto. Se vocês soubessem.... é que tem de ser assim, ninguém sabe nada de ninguém do outro, só do outro perto, do outro que virou quase você. Vou chorar por tudo.
(...) felicidade no reduzido à escravidão.


Carolina, a virtuosa:
quando eu fiz quinze anos, isso ela contando pra mais três amigas no ônibus balançando as pulseiras, meu pai me levou num restaurante lindo, nossa. mas aí eu queria saber 'pai, você me trouxe aqui por que é meu aniversário?', ele disse que sim que porque eu era agora mocinha. pensei: pergunto? fiquei horas querendo perguntar, não, horas, ela ri, exagerada, fiquei nervosa esperando... vou perguntar! : pai, então... já sou mocinha? 'já'. então já posso namorar? O QUE??? - susto no ônibus - NEM PENSAR!!! NÃO!!! e pior que eu era apaixonada por um menino que trabalhava lá no restaurante - Carolina, a virtuosa, não é boa contista, não consigo encontrar bem essas emoções, mas imaginei e imaginar é a mesma coisa de ser, imaginem daí. aí eu cheguei em casa e minha mãe perguntou e aí? aí eu disse 'é... ainda não posso, vou esperar 18'. depois ela contou que chamou a ex-namorada do atual namorado de piranha, num aniversário que a garota apareceu por lá em busca do rapaz (isso estou presumindo). escuta aqui, sua piranha...! meu sogro ficou apavorado: o que é isso, minha filha. o que é isso o que? Carolina fica trantornada. amava mesmo o pai.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

entrepausa #2: que era isso

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

entrepausa:


(escrito sob a morte de Thiago)


Assoviando a meio palmo da janela, a gente nunca sabe o que vai encontrar quando, depois de fazer o vapor, passar o dedo. Não sabe ou se sabe que os carros passam sempre diferentes, modelos, na rua? E eu gosto disso, cê gosta? Quando eu passo o dedo no embaçado; quando sussurro é isso, é vidro e vidro tem umas coisas...

de quebra.


Doutro lado (que vontade de escrever “do outro lodo”) outro parco, outro importe e aportes novos, diferentes dos que nunca aconteceram, mas que vão se desmanchar como tudo – não quero ver. (hot kiss on cold window), melhor vem ser o ar de garganta.

Assoviando a meio palmo da janela, eu sei muita música boa e inventada (boa), ouço três mil diferentes trinados, tudo delirado, nada acontecido. Eu fui ter amigos bem mais muito tarde, eu sentava embaixo da árvore e nunca houvia ninguém lá. E nem mesmo aqui esperando a hora dar (je ne regrette rien) recordo do que é que ficava pensando quando tava tão sozinho como os últimos desejos dum pão dormido. Esqueço dessas memórias como cresci quando nem tinha nascido. Reminisço apenas ter estado.



--
img. par Luana Silense

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Clube do Coma apresenta: #2 nunca houve um beijo na boca

Terezinha, você que saiu no carnaval de 1968 vestida de Chiquita Bacana, você, Terezinha, que por causa disso seu pai deu uma surra e de manhã você fugiu na carroceria dum caminhão com cheiro de boi, de vaca, Terezinha. a roupa de Chiquita Bacana que a tua mãe lhe fez Terezinha e agora seu pai diz que a mão dói pesada, Terezinha, ele te espera na recepção, ele tá morrendo, Terezinha.
(Sangue de Coca-Cola)



a verdade é que Tereza não fala de si. falar de si é expansão e Tereza, essa Tereza... ela exclui-se das rodas todas entre os seres outros.
macabra, Tereza, acha que vai falar de mim e ri de mim. ri! ri-se. finge que não entende dos meus medos, finge que ignora se me exaspero...Tereza... não faça assim! uma preta tão querida assim não devia me querer tão mal pra tanta troça. penso em atirar primeiro, penso em denunciá-la, penso em matá-la e ela salta rojões enquanto passo minha mão lhe averiguando se usa calcinha; usa uma calcinha rosa. faço isso em agonia, pra dissuadir.

o clube do coma (coma's lonely hearts club) não tem orgulho, mas apresenta aos poucos que expectam essa coisa insignificante do ser, do ser ninguém. há mesmo é falta de divulgação, não falamos de nós. você mesmo pode estar aqui, nos deixe saber que você quer estar aqui porque fornecemos máscara à todos os que contam, todos que vem ver. assistiam aos beijos em silêncio, assistiam meus pedidos: silêncio. Tereza, Terezinha... você tem uma boca tão gostosa, malvada. vou contar aqui, desgraça, as coisas tuas antes que você desabe as minhas pressas pessoas com caras de papelão. Tereza é forte, é tão forte que quando peca, quando erra, ela não liga e não sei como meu Deus, ela não liga; ou ela finge bem, muito bem, que não liga.

Tereza sentada no saco de supermercado na beira da rua, querendo um pedaço de pão, uma rosquinha. sei que passou um carro, dois, na beira da rua vazia. Fica quieta que eu tenho aqui as pessoas e vou contar, vou detalhar que você tava fugida na estrada esperando carona pra onde quer que fosse e que isso só aconteceu mesmo foi na sua cabeça, você queria fugir e viver grandes aventuras, o que realmente nunca ocorreu. não essas aventuras que viram filme, Tereza, as suas são de outra natureza; eu me arriscaria a dizer que tão mais lindas, você devia falar delas, mas você esconde porque nunca ia se repartir com ninguém.
Casou-se cedo, num susto. Assim, ar todo pra dentro e (abismada), casou-se do nada em algum lugar de Resende. ela comia chuviscos (o doce, não a água), fazia chuviscos, vendia chuvicos. chuviscava (a água). Tereza achava que casar era o mais importante e que casar tinha de ser por amor; casou. pro espelho, declara que nunca mesmo amou. a coisa na verdade não começou assim.

Tereza vivia na casa com os pais e, numa certa festa de carnaval, foi vender refrigerantes. ela pequena com os irmãos pequenos vendendo coca na rua e as pessoas brincando carnaval. ela tinha especialmente medo dessas fantasias em que a pessoa coloca na cabeça uma tiara que é uma faca? num carnaval passado ela tinha visto e então não queria mais sair na rua, pânicada. enfim, tinha horror àquela tiara. passou um homem bêbado e perguntou dos preços, ela que ainda mal era nada mocinha respondeu e falou; disse. a mãe viu que o homem não comprava porque tava bêbado, mas sorriu. ele cochichou algo com a mãe e a olhou, Tereza não ouviu, nem entendeu, mas copiou a mãe daí também sorriu com muita educação. o homem sussurrou e ninguém ouviu. que? a mãe disse que podia. o homem tinha um cheiro mais forte que as próprias garrafas de vidro e uns cabelos grandes pro alto, chegou no nariz de Tereza e pousou a boca molhada dum fedor e baba. o nariz dela ficou molhado por aqueles longos demais minutos. depois ela sorriu, pouco mocinha, boa educação. Tereza olhou pra mãe que ria. Tereza olhou pro homem e cruzou na rua com ele outras 21 vezes pelos anos que vieram, em todas elas quis correr e quis matar, quis enfiar a cabeça no vaso sanitário; ficou com medo do homem pra sempre.

agora tava casada. não tinha mais o homem do segundo carnaval, nem o irmão que na cozinha se esfregava nela, nem o pai que antes de sair enfiava o dedo debaixo das saias e depois chupava, nem o amigo da mãe que lhe dava maiôs, nem o vizinho retardado que lhe cuspia na cara e depois roubava a bicicleta; a chamava "muito feia". agora tava casada.

Tereza chegou no Rio de Janeiro em épocas imemoriais, acho que Tereza conheceu Tia Ciata (de vista), Tereza comprava coisas na Saara quando tinham árabes na Saara, ao invés de chineses e coreanos - quem hoje ela observa com satisfação e compra sombrinhas prateadas por dentro. Dizem que Tereza trabalhou no Mangue, que fez ponto na praça Tiradentes, que frequentou o Real Gabinete Português de Leitura, que sambou na Praça Mauá e que teve medo da Barra. isso tudo é coisa de demonstrar que eu não me importo com o tempo, Tereza nasceu com nome com "z"e é de cor misturada. Tereza mudou-se pra Santo Cristo depois que largou do marido. Tereza morou em Santa Teresa e afirmo o quanto sempre se fez honesta trabalhando não sei em quê. Ela me representa o desejo, ela é maldita pelo desejo que dá nas pessoas. Tereza foi estuprada tantas vezes que nem pode contar, ela mal sabe ler (o que também finge). mora numa vila de 6 casas tristes que ficam felizes às noites de quinta e sexta, quando as pessoas poem as cadeiras na calçada e comemoram os engarrafamentos que fazem os ônibus desviarem ali pra dentro da rua. espera ansiosa o carnaval, gosta de se doar. gosta de amar como quem grita se jogando na grama pra não ouvir a notícia clara de que é tragédia.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O Clube do Coma apresenta: premier de Suzana Flag

é um clube onde as palavras vão falar dentro de um porão escuro e vai haver as coisas ditas baixas. coisas que já são mesmo baixas. o clube vai apresentar. a febre...




o começo da cena é fácil de ser descrito porque é o cenário, e o cenário não tem nada dentro que não seja a si mesmo, branco e lento, feio e só, triste e próximo. branco atrás dos olhos, branco lá dentro do pensamento que ela costuma cruzar; lá fora eu pus teu palco escuro e arranjei um fósforo. acendi, apagou por causa do vento. acendi, apagou. acendi, traguei, acendi metade da ponta que apagou. acendi e gastei uns sete fósforos até encontrar o isqueiro nos bolsos da frente da bolsa bege. sentei no branco dos olhos, lá fora pus teu palco escuro: o que você vê é justo isso que é o palco e o teto baixo do teatro 30 lugares, nenhum vento, eu só imaginei, mas não abafado. é inexplicável, entre outras sensações, que os ouvidos fiquem com zumbido e o lóbulo quente. não, quente é a luz, a luz porque não sou platéia. explico: me vejo e a vejo. eu vou contar o que ela diz, eu vou assistir ela dizendo. os outros por perto (lugares cheios? lugares vazios?). ela vê branco porque a história não começou e o vazio disperso é como uma saída de ar tipo ar-condicionado central.
aqui fora, espreito, a cortina verde pesa em cima da madeira-tablado e a pessoa do meu lado tem o ombro direito suando, me roça e incomodo porque não gosto do suor dos outros. não devia ter vindo de camiseta.
agora o palco, ela acende o cigarro protuberante com o isqueiro. agora eu sei, é branco na luz dum milhão de watts brancos bem em cima do cílio: spot. eu não ouço nada mesmo a boca mexendo. o dente aparecendo e as palavras aparecendo e tudo silêncio como seu eu tivesse mergulhado no tanque lá de casa. o suor do ombro direito onde eu tava enfiada não me conseguia pensar ouvir, nada ouvia pensar, nada. ela fala e eu conto. (...tenho vontade de lamber a marca de vacina do braço esquerdo molhado).
o homem vem carregando a câmera entre as cadeiras improviso, uma dum jeito que de outro e tamanhos diversos. já disse que o teto é baixo e que tem um ventilador de igreja que ventila, não, não disse, não são importantes. eu levantei quando tinha de levantar, un-. eu de pé corri porque ia mostrar aqui nas linhas o que do palco havia sendo. cheguei e ninguém que assistia ficou atônito.
a platéia, aliás, quem é? eu nunca vi essas pessoas, nem as que não ocupam cadeiras viradas lugar vazio; não conheço esses vácuos de brisa dos que não vieram. eles vêem a câmera sendo levada calma. a rodinha do andor (andor) tropeçando nos buracos, o rapaz ou mão que leva ia pelo canto e - agora atrás da cortina muito pesada - coloca a câmera do lado dela, brutalmente perto como se fosse pra furar a cara. não sei como a luz chega através do pano.
o clube do coma reúne ou não essas coisas e essas pessoas e as coisas das pessoas e as pessoas nas coisas. acho importante que eu diga que não conheço todos os desconhecidos apesar de ser fundadora e colaboradora desse clube do coma. estamos abertos aos aficcionados pela miséria, anestesia do anestesiado, dor. penúria - foi isso discutido numa reunião de pauta. agora eu sei que é frio porque os ventiladores estão realmente desligados e o teto não é baixo, mas era o meu chapéu que comprei pensando em parecer a Sabina do Kundera. Amplitude dos 170 lugares (84 desocupados) e a luz forte em cima da mulher que, doravante, se fazia pessoa.
mas levantei num susto (percepção) e corri no ar extremo d'agonia como se fosse a hora de cortar o cordão do recém parido mas ninguém quisesse fazer o serviço.
a câmera perto, a cortina abriu, a luz duma lanterna porque o que acendeu foi atrás o cinema. a projeção. eu parei que vi a [inha] brincar de argola no filme passado atrás da mulher. tragou o cigarro forte num soluço do cadafalso.

Teresa me olhou quando eu cheguei no palco e a achei envelhecida. Linda, envelhecida. o que fiz ali? ninguém sabia. uma das fundadoras do clube do coma invadia o palco mais parda que a casa sétima. eu conheci, reconheci Teresa e ela ia contar, eu ia dizer e escrever, não podia! eu queria as coxas de Teresa com anos de idade. queria ela nova e feia, ou gorda, velha como rabanada na Páscoa. eu fiquei confusa embotada e ela ficou de olho pra mim. eu corri e me atirei pra Teresa, pro seu sangrado do carnaval. beijei a boca da Teresa sentada na cadeira nessa luz de lanterna, levantei ela, levantei a saia dela e ela fez justamente isso.... me abraçou e me disse no tímpano que eu era um peixe.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Coma sem título. Letra vista.

sem título
(não é perda se não fizer, mas , se clica duas vezes, a imagem fica maior)


terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Coma. 1º 2008: passanário

Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
(ian curtis)

antes:
dormir na areia da praia e frio.acorda areia da praia que o dedo do pé inflamou, o vestido é curto você é feia na no preto (tinta?)embaixo do olho... e mais...

pausa lembrança:
te amo.
que assim seja!
querido, você realmente sabe congelar o coração de uma garota...

ainda antes. telefone e Fabrício misteriosamente atende:
pra onde você acha que vão os barcos de Iemanjá?
mas porque você me faz essas perguntas? ... acho que eles desmancham e afundam; o que fica inteiro, aparece em outras praias diferentes.
você vê pra mim até onde vai o barco?
vejo.

justo agora:

foto do nascer do sol pela janela em Vila Isabel, mas esqueci as pilhas da câmera em casa...

antes (pouco) d´agora. passanário:
daí o erro te-me enfeita o tempo feito acerto

domingo, 30 de dezembro de 2007

Monografia. Cirurgia. Coma.

5:19AM
a manhã tropical se inicia (e eu me sinto melhor colorido)


Oh my God! They killed Kenny!


e-mail1: (editor imaginário). já entregaste a tua eternamente inacabada tese?
e-mail2: (orientador imaginário). 21/12
pri, calma, ando enrolado. prometo responder tudo, qualquer hora. bjs.

diálogo inventado: eu (por que não me contou??)
psicanalista imaginário (o que?)
eu (que sou obceconeurostérica...?!)


Mas o que me faz ligar esse histórico peculiar às minhas questões, é o que nele faz destacar a experiência escravista brasileira como fundada na série de costumes legislativo-teológicos romanos e duma outra série de quadros mentais e sociais que definem a função e o lugar desses novos membros, inseridos através das restrições ao trabalho manual e ao conceito de limpeza de sangue: legitimação das hierarquias, vivência e sobrevivência do Antigo Regime, peça nuclear de nosso escravismo colonial e imperial.


Coma não-induzido. (aka: vígula não-induzida) não consigo mais. Imagino que uma boa assumissão é a de que...

"[. .]" me afunda
mas se eu não "[. .]", me vivo num morro.



Há de haver um guarda-roupas grande o suficiente onde eu possa viver, esconder, pássaros.


eu minto. quando não minto, eu fraudo. todo mundo agora vai descobrir.


picadas de mosquito. contabilidade final: 17
outros insetos: lacraia de tamanho médio-pequeno, morta à tempo

Estava escuro, mas isso não é o importante. Engraçado que à noite certas imagens que vemos parecem preto e branco, lá se pareciam preto, brancas e azuis. Verdes. Eu disse: está frio. Então fizemos amor.
a alegação de insanidade monográfica (nas normas da ABNT)

nós a perdemos...
onde? fica longe daqui?


:

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Monografia. Cirurgia, still life & pausa: correio sentimental

Em presença etérea
Correio sentimental pro meu cachorro:

Poodle de pelos cor champanha, 4 anos e 10 quilos, o Beebee está terrivelmente em busca de uma cachorrinha para relacionamento sentimental sério - ou nem tanto. Tem poucos vícios; é carinhosamente hiperativo e salta obstáculos de 1 metro de altura (por ciúmes ou por vontades incontroláveis). Como os animalzinhos subiam de dois em dois, quem conhece alguém, que conhece alguém e que conhece alguém que conhece alguma candidata?
... come on baby, light my fire
come on baby, light my fire

try to set the night on fireeeeee...


Será que aparece?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Monografia. Cirurgia

Um pedaço


Outros uns pedaços
na carta rasgada

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Monografia. Dilatação: 35,8 mm



1. a [. .] nasceu comigo

se eU não "[. .]" , morro de fome


2. Tendo os princípios da misericórdia e benfazeja do cristianismo, as alforrias representavam tanto a utilidade da entrega do auto-governo, usurpado ao outro pela posse senhorial, como a utilidade de sinalizar o ente doador como observador desses mesmos princípios e assim identifica-lo na hierarquia dos desprendimentos, da comiseração e, até mesmo, da humilhação.

3. Não resta dúvida de que, assim sendo, o território da sexualidade era bem menos
privado do que se poderia supor, distanciando-se largamente dos padrões
supostamente vigentes nos dias de hoje. Ao longo deste capítulo ver-se-á que até os
gemidos de amantes ardorosos não raro podiam ser escutados por ouvidos
indiscretos, sem contar os encontros amorosos, as mancebias, pois todos sabiam
“quem andava com quem”. (VAINFAS, R.)

4. Pai-Natal
also-known-as . aka: Papai N o e l



flickr . orkut . lugar nenhum . obvious . technorati . ficha criminal


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