terça-feira, 1 de julho de 2008

Barbarism begins at home

cagação de regra:
rir é coisa pra quando a gente não sabe mais o que fazer olhando o absurdo.

I'll stay home forever

I'll lay down the tracks
Sandbag & hide
January has April's showers
And two & two always
makes up five
[... supressed]

You have not been
paying attention







Like flies the burgers
Keep coming back


o olhar desses dois moços, como eu faço pra medir a extensão que não me afetam? não. para afetar-me (a mim) é bem possível que seja só com um olhar morrisey. antes de ir pra escola, ele me dava um beijo e dizia alguma coisa sobre que ia continuar velho e eu ia continua nova, nova em folha. respondi que hoje em dia aqueles passadores da C&A andavam caro, não era todo mundo que ia assim, sair de casa, com os rostos esticados.
nos anos 80 começamos a suspirar, a suspeitar que tudo não ia ficar bem. os dois moços com os olhos que nem sei medir. eles carregaram o menino preto e o menino preto dormia em cima daquela passarela que passa e, frente a passarela da Novo Rio. lá em baixo, a Zona do Porto, do lado as pedras dos Açores onde Macabéa pisou cartomântica, elevada, letargia. os carros, ônibus, enfim, o trânsito passava e o corpo preto do garoto de preto trpidava em cima do ferro que foi amarelo e a tinta destacou. tinha óléo que é mais fácil de limpar o gozo. trepidava. os moços, homens mesmo, o tiraram dalí. o tiraram dalí. não me afetam, os três. olhei pro pulso, me ps um relógio. isso: me pus um relógio e dei aquelas celebrações Cantina da Serra pro atraso. acho que ele tava morto, cheguei em casa e disse pra minha mãe que ele tava morto., preto, o pé preto, as dobras dos joelho dobrando, descascando preto. eu fiquei tão feliz quando soube que ia embarcar logo logo pra ver meu amor.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Origens das Independência de 1870

para Talíria: esquerda, pero no mucho
Bom dia! Quais sao os antecedentes da Independência Mexicana? Pobreza dos camponeses, governo repressor?







os antecedentes de hispanoamerica (para ser entregue ao professor de História da América antes de ontem)
independência: uma elite ex-européia chateada porque a europa pegou a bola e não deixava mais eles brincarem, praticamente a levou pra casa. ficaram chateados. não se conformavam com o ponto: a espanha tinha apenas emprestado a bola pra eles quase-sem-querer, mas eles gostaram da brincadeira e pronto. é simples. a elite pensa e os revolucionários gatos executam achando que foi idéia deles.
o lance é que a elite pensa muito à curto prazo e, de repente os revolucionários, barbudos, limpinhos e gatos, começam a metralhar todo mundo porque nunca foram ex-europeus e também só brincavam com a bola quadrada. sairam do controle e meteram o cacete nas elites, pero sin perder la ternura jamás. onde os jesuítas entram nisso? escrevem crônicas ufanistas em francês, lá do exílio; foi quando as pessoas achavam que eram uma nação que não tinha nada a ver com D. Carlos, que eram mexicanos. foi quando os padres ficavam chateados de matar, que matar não era permitido por deus, mas matar às vezes é permitido por deus porque um era agora Venezuelano, o outro Peruano, o outro Mexicano. menos os Haitianos, se bem que mais os Haitianos: os Haitianos meteram a faca em todo mundo seus senhores, até nos pescoços, nas moças, e no Brasil ninguém mais dormia nem rezava pra Saint-Domingue antes do Gil. e as mulheres pararam de se depilar em nome do pan americanismo...
essa parte é estranha: queriam jurar que eram ex-européias, que eram peludas, não eram índias não!
no final todo mundo levou bala e cada um comeu a sua bala mas algum tempo depois todo mundo continuava com alguma fome e acharam que o D. Carlos era legal e que os revolucionários, gatos, limpinhos, com nomes e eles (l's) sensuais e que abrem a porta do carro meio que também embarangam, meio que não sabiam dar nem cuidar de bola. colocou um gelo no copo e brindaram com United Fruit dentro.

para Leslie Bethell y su Cambridge History of Latin America v.III

quarta-feira, 18 de junho de 2008

isso deve acontecer muito no horário de almoço....

Twitter is over capacity.
Too many tweets! Please wait a moment and try again.

isso deve acontecer muito no horário de almoço....


mas o que eu quis mesmo dizer era que esse mês não escrevo. - afirmação de se dizer como se fosse escolha...

não escrevo
deixo foto do que vi lá da janela que nem é minha, é emprestada.
até


domingo, 1 de junho de 2008

A falta da janela aberta


republico coisas
porque tenho medo de encontrar comigo enquanto espero
[a resposta do hospital]



ficou olhando no espelho no intervalo entre uma refeição e outra (sempre, sem vírgulas) realmente pensando que estava mais magra, que os dias que passava infame dando goles e beijos cada um mais aleatório que o outro e até pagando as contas de luz, procurando emprego de um lado pro outro, cansada e magra. o olho fundo não tem a poesia dos olho de queda onde os homens se perdem; os olhos 'tavam tão fundos que tinha até aviso pra que ninguém caísse lá dentro. calhou d'eu passar na hora e ficar olhando ela olhando pra ela e se achando magra. virou pra mim, riu e disse que saúde é de perder igual tarracha de brinco... um vestido só alinhavado pra apertar mais depois e acompanhar os ossos que iam desmilingüindo no papel de doente. quem mais ia aparecer pra visitar? eu abri as janelas e ela sentou no sofá quieta como se fosse católica: quem mais sofre é a falta de janela aberta... o vestido e aquele tom de voz que parecia uma senhora de tão antiga. quase tive vontade de chorar porque ela era cortante como flor amarela e agora de vestido branco ou azul dependendo de como a luz batia. passa essa boca pra lá que eu abro sempre as janelas, isso é pra insistir! e o espelho ali em cima das coxas, pegava a mão e esticava a cara em direção às orelhas. depois encostou o pé no cachorro e dormiu pedindo um embalo, foi como se eu tivesse andado cansada e teimosa. guardei nossos laços com o cuidado de sempre e cantei baixo até chover aqui dentro.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

drops roubados

porque caboclo escrevedor também merece férias
(kantek em: e não me surpreende o limão estar um pouco "largado")

e... drops roubados
dormindo menta-lizando balinhas
(j. stanzani)

passa o destino

pela menina

dos olhos

do menino
(b. cabelo)


Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado baiano. (...) Assim à refulgente luz do trópicos amortece a fresca e doce claridade dos céus da Europa, (...) Jerônimo alheou-se de sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas sobre as cordas, todo atento para aquela música estranha, que vinha dentro dele continuar uma revolução começada desde a primeira vez em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz deste sol (...)

E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros e braços nus, para dançar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a na sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mestiça melhor se acentuavam, cheios de uma graça irresistível, simples, primitiva, feita toda de pecado, toda de paraíso, com muito de serpente e muito de mulher.

Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse à vida, soltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas, descendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava, miúdo e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os braços, que dobrava, ora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra, tirilando.
(a. de azevedo,
para o meu rapaz e seus olhos de Velho Mundo
- porque sou cabrocha do seu samba, de flor nos cabelos e beijos sem decoro)


e uma questão de riddle

riddle 1
Noun
1. a question, puzzle, or verse phrased so that ingenuity is required to find the answer or meaning
2. a puzzling person or thing

Quanto ao meu comentário na tua publicação anterior, obtive a pista com essa expressão "my knees got weak".
(l. em surtar,
via comentário)


torta de limão diet

ingredientes
● 1 xíc. (chá) de farinha de trigo da Dona Benta
● 3 col. (sopa) de margarina light-luz
● 1/3 do pote de iogurte desnatado (3 colheres de sopa)

para o que vai dentro
2 gemas
6 envelopes de carta de adoçante à base de sacarina
3 col. (sopa) de suco de limão
1 xíc. (chá) de leite desnatado
1 col. (sopa) de amido de milho
1 col. (chá) de vanilla
1 col. (sopa) de raspas de limão expresso
4 claras brancas como a neve


modo de fazer

1.
Misture a farinha de trigo com 2 colheres de margarina light (ou lux). Adicione o iogurte e misture bem segurando o pote embaixo do braço, colher de pau. Leve pela mão à geladeira por 30 minutos.
2. Abra a massa em uma forma redonda de 25 cm de diâmetro, perfure-a com um garfo e leve ao forno preaquecido em temperatura alta, cerca de 10 minutos, até dourar. Deixe esfriar.


Para o recheio

1. Bata as gemas com o adoçante, o suco de limão e o restante da margarina. Acrescente, aos poucos, o leite com a maisena dissolvida e as raspas de limão.
2. Prepare um longo suspiro misturando, delicadamente, as claras em neve de até cobrir o chão com 4 envelopes de adoçante à base de sacarina e suco de limão.
3. Despeje o creme de longos suspiros, talvez agora entrecortados, sobre a massa e leve ao forno baixo por cerca de 30 minutos.


informações poéticas

proteínas: 4,5 g
carboidratos: 13,7 g
gordura: 4,1 g
colesterol: 59,4 mg
fibras: 3,8 g
culpa: zero

terça-feira, 27 de maio de 2008

Minha foto favorita de Renata M. com Renata M.

(16 anos, ou 15 e 17. vivo assim bem feliz do lado delas: amendoim, cerveja e esmalte vermelho)

o início

você não é do meu colégio, a gente não se conheceu em festa de ninguém e nem nos vimos na tv.

meio no meio
aqui em casa, onde você perdeu seu nome e ganhou seu apelido de Turano.

- minha festa, você pegando o garoto que eu gostava e depois chorando me pedindo perdão. depois a gente aqui em casa e você e a Mari fritando salgadinho.
a gente na porta aquele show no Mauá, geral barrado e eu só sabia falar - Moooço eu vim do Espírito Santo! Três por cinco é a nossa frase..

uma música pra trilha:
enquanto for... um berço meu

enquanto for... um terço meu
serás vida... bem vinda
serás viva... bem viva


e uns pedaços do meio
vamos dançar macarena?
(...)
vamos pular amarelinha?
vamos ao Méier?

sábado, 24 de maio de 2008

Pequeno escrito com introdução do envio para Isabella Kantek: é sobre amor e é besta

janeiro 08

por enquanto então te mando esse rascunho aqui. sonhei com isso ontem de tarde e queria só descrever pra guardar, já que lembrei. não tem pretensões e acho que você vai achar minimamente ridículo. (queria não ter medo do ridículo). seria sobre alguém, aquela coisa de sempre, o amor da vida, a pessoa da vida, o lugar da vida... o estar calmo depois da chegada e não querer mais ir, querer ficar, cotidianizar, coisa assim. fica bem, querida amiga.

Será que esse moço que estava para viajar era eu?

sem título
nós sentados numa calçada, acho que numa cadeira de praia na calçada e estava calor, um que era abafado. eu com um pedaço de papel branco - cortado torto dalgum lugar - escrito em caneta vermelha umas palavras meio poemas (bestas, poucas) e fumando, e segurando o cigarro
em muitas posições - do meio pro fim - como se fosse detalhe importante um desenho com a fumaça e, foi canastrice, eu soprava a fumaça. às vezes o cigarro caía, às vezes quase, e escrevia e ele do lado. na calçada, abafado (era o Rio?) era de noite? era de tardinha? noite; definitivamente noite, de tardinha: Rio da Gamboa ao Estácio. ele tentava pegar o papel (ou o cigarro) e eu desviava, tirava o papel, dava, tirava o cigarro e ria, ria tão muito...! daí ele me disse que ia pruma viagem: eu muxoxo rápido pro superado. o cigarro no fim. entreguei o papel (poema que não sei s´ele leu). mas faz amor comigo antes...?, olho parado, depois um por favor... alongados os erres. ele respondeu que sobre que não podia, que não ia dar tempo (mas só um pouquinho...), e o atraso? por favor... love me one time, baby / my knees got weak, de perto, abafado, calçada, a noite (no Rio?), cadeira de praia com ferrugem, cigarro apagado faz tempo. e ele sorriu num tudo ficou nublado e a carne ou a pele molhando, derretendo pelos mais diversos outros motivos, redondos, morenos. eu nem quis ir embora nessa vez, só porque não precisava mais, era você e um lugar que me sabia e que me era a calma. "faço" a mão dos dedos afagando o rosto das pernas, se apertavam as coxas, a saia nos joelhos, e quereriam. beijo de fala. "faço minha bonequinha... faço".

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Escrito muito delirante para o 1º ano de Obvious

para Benjamin e A.P.
porque já não me posso apartar


rodas dentadas
O número ao certo, quando se quer ter, escapa. Além do mais, não são coisas da lógica. Tenho acordado todos os dias e em cada um deles – poucos – vejo os mesmos gostos, os mesmos aportes, os mesmos olhos e mastigam e eu vejo bem em frente a minha janela, engravidam, montam um armário e ele cai bem de madrugada. Os vejo desde então, nunca os conheci, nunca, não os conheço e o mesmo comigo, os toco no que está ao alcance da minha crueldade, porque os descrevo. Recomeço a contar olhando minhas letras. Deviam ser delicadas, não são.

De longe não há o caos, os eventos giram iguais umas rodas dentadas, e se aproximam, e nos aproximam, e nos apertam. Assim, de muito perto é possível que eu não compreenda, nem ninguém mais. Na verdade, as pessoas que me são próximas me dizem que eu devia parar, dizem que levo isso como uma tortura, sinto que dia menos dia eles vão dizer que devo parar, que levo isso como tortura. As rodas dentadas são isso: laço. Escrevo e lá estão três ou quatro parágrafos do que antes eu fiz só angústia. Não são angústia, eu os fiz.. angústia, e dor, e parto. Tenho medo que me mandem embora, tenho medo que descubram que me dói, tenho medo que descubram que gosto da dor; a dor de trinta mil olhos me olhando subir em um tablado mal-vestida de estudante a dizer as tais linhas de puro embuste.


queria que escrever fosse ofício
Escrevo com a dificuldade que se tem pra lavar uma calça jeans à mão num tanque de fibra, que parece plástico. Faço porque passo pelos vãos da porta e sou constantemente estranha, isso quando vista, não sou vista quando passo pelos vãos da porta e fica uma luz posicionada bem na diagonal dos passos que não dou, não se percebem. (Teve um tempo em que eu achei que podia explicar, teve até quando eu achei que era escolha, que era ofício de escolha. Mas é que esse meu escrever é missionário, me convenceram disso, catolicismo romano, e acreditei que, em dezenas de passos que dou, meia dúzia foi por praxe divina. [e fica sem-fim o parêntese]

Eu queria que escrever fosse ofício, mas eu escrevo e não escolhi o horário.

O número certo, quando se quer, escapa. Acho que também nunca fui boa em contar, é disperso. Disperso. Mas imagino que debrucei na janela e imaginei tão forte que... e alta – se bem que queda não é medo, atrai. Me debruço em três ou quatro parágrafos que me saem, escolho os assuntos, estudo os assuntos, descubro que amo as imagens, percebo que me falta mais som, finalmente está claro que a poesia não necessita significar, poesia tem de ser; e é. Foi assim que aconteceu: o caos são rodas dentadas que giram e nos encontram, nos apertam. Dei um bom dia largo ao vizinho, não estreitou a resposta, vim aqui em casa escrever para o outro lado do oceano, meus afetos que me tratam por tu. Eles me poem sob trinta mil pares de olhos. Eles olham para mim e penso suportável. Escrevo pelas razões ridículas, roubo idéias dos outros, assisto filmes criminosamente, desejo lamber a gravura do Picasso, venho aqui relatar tudo. Venho aqui - faz um ano e semanas interrompidas, quase mudas – porque agora o sentido de não fazer some, é pelas incapacidades de deixar. Quis deles, para todos os inícios, que fossem meus amantes d'além-mar, então eles foram. Um já quis me matar, o outro pagar na saída.


epílogo
We accept you, one of us, one of us, daí vou me colocar feito admiração na janela. Quero um cado mais de tempo, quero que rondem mais palavras todas vestidas de jazz, que é preu não usar vírgula, que é pra descansar no parapeito feito namoradeira, suspirar, inacreditar... me deixar toda extensa, me entregar duramente prum olhar mais demorado.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O Clube do Coma #9 apresenta pouco Maria



Grace (...)

And when she walks on the street
You can hear the strings
Grace(...)
(Grace)


Maria tem delírios de deus e escorre tantos ventos tortos, tantas visões nubladas do que acha que é a si ou aos outros que estou indo sem vontade encontrá-la. se encheu de tanta tristeza que só existe nos abandonados. Maria quase esquecida em alguma bancada mas, como é que ela se lembra disso? como eu queria não saber... como eu queria...
a mãe descobriu que estava grávida quando foi limpar o piso da cozinha com ácido sulfúrico e parou de respirar, isso já tinham quatro meses. Maria vingou como doença de velho isso ninguém entendia. devia se chamar Sidarta, devia... ela saiu de dentro dos ovários, das trompas, já pronta feito o rabos dos cavalos que viram violino. eles tentaram esquecê-la e mal compreendo o que deu errado; de repente haviam mil e duzentos olhos olhando o casal que nem queriam nada, principalmente a mãe, o pai não teve de carregar nada em lugar nenhum do corpo, ignorou como quando ninguém reparou que quase pararam de vender Coca em garrafa de vidro. iam caminhando para longe e, de repente, haviam aqueles mil duzentos e trinta olhos que, em seguida, ela estava embrulhada naqueles panos pesados, bons, quentes. levaram pra casa porque era assim que dizia no livro: não pecarás contra o Senhor Teu Deus.

o dia depois do acidente se seguiu ao dia do acidente, e talvez outro. ela não se lembrava do que tinha visto, sabia: MULHER É ESQUARTEJADA EM ACIDENTE DE ÔNIBUS; mas o que? como? viu que a mulher morreu, não sabe de que, não sabe por que. talvez ela não tivesse morrido não. Maria achava que tinha inventado, foi por isso que não contou a ninguém. Maria também não fala, tem medo de mentir, e, como não sabe nem, inventa.

fico parada, fico sentada entre as minhas calmas e ela tem delírios de Deus, e escorrem ventos tortos.

esperadamente percebo que ela nunca me toca, ela só me toca pelas mãos de Tereza... não queria hoje falar de Tereza, nem pensar no nome com z. devia ir lá ver você, Maria da Glória, devia tentar parar de acreditar nas suas boas intenções porque acho que elas não existem mesmo, acho que a sua doçura é muito cruel. você é tão cheia... tão cheia... quando ela fala é música, significação, e ela se move em cantiga de escárnio, e ela espirra existências, e ela é outras, outros, e ela nunca coube no papel. seus pés é que escorrem, ela se infiltra pelas ruas, pelos celulares das pessoas, ela dança e me deixa feliz feito um poodle amestrado. ela fica sozinha pra sempre por não comunicar a lógica. Nunca, nunca. ela toca com as mãos frias, não me toca Maria. Maria ama os corpos, ela descobre que os corpos mastigam, ela passa horas nos cabelos dos outros, nos rins dos outros. ela sabe ver. descreve. ela só sabe ver. só acho que ela queria era parar de ver. descansar e dormir, morrer... ela não sabe, ela gosta dos homens, das mulheres, Maria se esfrega nas paredes pra tinta...
assim foi que a mulher morreu, cortada no meio e ela segurou a mão da outra porque a outra queria juntar a mulher novamente. como? sangrava muito, muito... os pés ficaram muito, muito, muito vermelhos. como ela queria reter! ela ia esquecendo... igual sonho. o dia todo era igual sonho que você acorda no meio e não sabe bem se...

o ônibus, a batida, a morte, a esquartejada; saiu tudo no jornal. estava lá eu numas fotos e foi tão triste... eu não queria ler esses jornais, mas li. foi tão triste...
Maria seguiu Tereza porque não conseguia mais soltar da sua mão, foram para o hospital e não largava o pulso - não era a mão, era o pulso, e o jornal fotografou, ela não soltava o pulso. Maria seguiu Tereza. Maria seguiu Tereza. Maria seguiu Tereza. Maria não largava os pulsos mais de Tereza porque ninguém se importava, ninguém. Acabou.





Era época de tangerinas: (sabemos que a Rua Fonte da Saudade não cabe, a Lagoa não cabe em Santa Tereza, nem em Santo Cristo, não sei porque agora elas estão juntas. Maria da Glória é infértil e é queda, é como cair, é um cair monótono e demora a chegar o fundo, você pensa em tantas coisas no caminho... Não entendo).



nos meus sonhos, eu afogava meus arrependimentos
mas meus arrependimentos...
eles aprenderam a nadar
(untill the end of the world)

terça-feira, 13 de maio de 2008

13, maio, sec XIX


Para dar uma idéia exata e geral do Rio de Janeiro, precisei acrescentar à vista apanhada de frente, do lado do mar, uma segunda vista de perfil, que mostra a extensão da cidade do lado da terra. (J. Baptiste Debret)


Última vista do Largo do Palácio: D. Felicidade, o preto liberto Guilherme e o moleque Silvério. Ao fundo, a Igreja da Sé
para Ana, Isabelle e J. Roberto . só porque resolvemos estar lá...
Era certo deles não terem esbarrado por aí, nalgum lugar: em 1853 Debret já estava morto, mas a província havia mudado bem pouco desde a última prancha que ele esboçou. Lembro que o Largo do Palácio ainda não havia sido aterrado e, onde agora há uma passagem subterrânea para os ônibus que saem à toda velocidade do terminal rodoviário, era simplesmente mar, eram os barcos pequenos atracando nas escadinhas junto ao luxuoso chafariz e os negros iam descarregando os mais diferentes tipos de produtos, sempre com cestos na cabeça e sem camisas. Era ali no parapeito do cais que muitos homens se sentavam no final da tarde pra um refresco. Dona Felicidade Maria vendeu metade da banca de doces em menos de meia hora correndo de um lado para o outro afim de exterminar com a outra metade. Ajudei Silvério a preparar a moringa com água e lá partiu ele pontuado pelos gritos de "ó moleque!": é que sentiam sede, não sei se por conta do açúcar ou por conta da pimenta do jantar que era excessiva. Na dúvida, despedi-me, de Felicidade, de Silvério e dos pretos barbeiros que, àquela hora, repousavam coçando a nuca com uma pena.

Fui mesmo à pé, tomando cuidado com os cavalos dos coches porque tenho medo de um atropelamento, sempre tive. A Catedral ainda não sonhava com a reforma e, muito menos, falavam em redecorar o Largo e a Rua Direita de forma que ficasse como era na época da vinda da Corte Portuguesa. Penso hoje que podia ter dito baixo isso a um, a dois, ou até três pessoas da mais severa confiança que conheci naqueles andares infinitos, oitocentistas, pelo que ia ser hoje uma cidade cinza-verde e fuligem azul-céu-claro. A missa ia alta quando desisti de refletir só, parada, e embrenhei ali pela Direita, digo, Primeiro de Março. Trinta anos depois, Felicidade morria por complicações no fígado lá na Santa Casa de Misericórdia; deixava Silvério livre em testamento, uma quantia ao seu companheiro, o preto livre Guilherme e outra ainda maior para seu neto, agora sem pai, mãe, nem avó, nem escravos - as duas cozinheiras velhas da casinha foram também liquidadas.

Felicidade Maria antigamente atendia só por Felicidade Mina, dizia que era de lá, da Costa da Mina mas, ao contrário da maioria de nós e até de mim - confessores de fila -, dizia sempre tão pouco sobre... me restou nesses anos todos ficar imaginando. Já tinha ouvido certa vez, numa dessas manhãs em que lavavam roupas no chafariz central lotado que ela tinha chegado nova, mas nova mesmo, à cidade, mais pro sertão e, já na fazenda dum certo Pedro, engravidou. Tempos depois engravidou novamente e, não posso atinar com detalhes como foi, saiu de lá com duas meninas: uma no colo e a outra arrastada pela mão que não queria ir, e ainda descalça, por conta da madrinha que ficava. A conta total havia ficado em quase dois contos de réis: ela, a filha maior e a recém nascida, que ia de graça mesmo, por brinde. Não sei que Felicidade via aqui, nem sei o que mais havia pra ver depois duma travessia Atlântica, assaltada quase que pessoalmente pelo Diabo, como que arrancar uma planta pela raiz. E isso digo sem receio de soar buscando palavras mais sentimentais. Uma planta ceifada, meu Deus, Felicidade, os homens de negócios que tinham todas as cores, o Diabo, e como foi que ainda as forças deram quando o tumbeiro foi amarrado ali no cais, lá no Porto? Tumbeiro era o nome desses navios, por conta dos mortos que permaneciam às vezes ali espremidos, tocados escondidos nas frestas. O que foi que viu quando saiu de lá do porão e de repente viu tudo claro? E de repente viu tanta gente correndo dum lado ao outro pontuando os gritos de "ó moleque!". E aqueles morros verdes, mais verdes que toda uma existência de matos, de matas, por todos os lados. O que será que ela viu? Porque ando pelas pedras que sei que ela pisou e me falta a memória do que terá sido. Pouco depois a criança mais nova morreu, muito antes ela já não se chamava mais Felicidade Mina, nome dado pelos administradores do certo Pedro; tinha escolhido que ia ser Felicidade Maria, e Maria da Conceição porque no ano de 53 o dogma da imaculada concepção da Virgem Maria havia sido alardeado com festa pelas ruas próximas à igreja da Glória. Eram tanto mais católicos...

Felicidade Maria da Conceição desceu da Rua Princeza dos Cajueiros onde tinha ido visitar alguns aparentados, como considerava com toda fé aquelas pessoas, e, ainda com o céu claro, fora procurar Bernardino Ferreira, por quem tinha confiança e para quem, ainda na presença de outros, começou a ditar seu testamento à Rua Primeiro de Março número 4. Não sabia ler, tampouco escrever, achou bonitas as letras e foi como se cumprissem o que devia ter cumprido. O túmulo ia ser de mármore e foi no cemitério de São João Batista. Paulina morreu anos antes, do pulmão, a outra filha, a que chorara descalça de saudades da madrinha quando saiu da fazenda, ou teria sido um sítio? Sempre imagino que saíram de Jacarépagua, ninguém, exceto eu, pensava que quarenta minutos dali dariam de cara com uma réplica iluminada da Estátua da Liberdade que enfiaram em frente ao New York City Center. Paulina foi acompanhar o marido, o Silvares. Felicidade cochichou num canto que era a vontade de Deus tudo, tudo, mas nunca acreditei.

De qualquer forma não conseguia tirar os olhos dali, da Catedral onde ela havia passado num sinal da cruz rápido feito com os dedos no peito. E se mais alguém soubesse? A missa terminou e tirei a câmera fotográfica novamente de dentro da bolsa, nem que fosse pela última vez. Nas duas polegadas e meia estava a carta que alforriou minha Felicidade mediante a tanto dinheiro que de onde foi que'la tirou? Pedro Blanche pediu ao vizinho que assinasse (problemas na vista), que as autoridades Imperiais reconhecem agora ali uma mulher que se auto governaria como se de ventre livre tivesse saído, como se a tivessem sacado dum outro útero além daquele africano, outro. Ela saiu de lá sem olhar para mais nada, eu sei. Continuou nos seus doces, separou num bornalzinho o dinheiro do Guilherme, aquele seu companheiro na idade. Fez outros rogos à Deus e dormiu pela exaustão apenas, se não ficaria acordada, se não me diria tudo. Nunca quis ver a cidade que ela viu, sentei no banco, na calçada, na Ipanema e escrevi isso no bloco. A anotar era só isso. Uns meses atrás, falamos ao telefone tempo o suficiente para sentir depois as orelhas doendo terrivelmente: falar da cidade. Nunca soube por onde começar as memórias do que não sei, do que não quis lembrar, de onde só quis ficar deitada no chão, de pedras de qualquer tamanho como que esperando algum passo que me contasse as histórias que não vivi. Foi tudo muito demorado, foi disso tudo os meus atrasos de entrega das invenção. Mentir nunca é rápido. Nem por isso menti, nesses dez textos, bem.

--
texto publicado em Obvious para a série de crônicas sobre cidades; neste, Rio de Janeiro - a última crônica - e documentação extraída lá do Arquivo Nacional pelo grupo de pesquisa do Dep. de História - do qual, honradamente, faço parte. as lacunas da fonte escrita completada pela fonte imaginada por mim, jamais inventada.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

O Clube do Coma #8 apresenta uns ademais de Tereza

Eu gosto
do gosto
do sal
do seu
corpo carnal
(r. viana)



Foi assim que o velho escreveu, foi por vê-la tremendo enormemente, tremendo os peitos marrons. Chegavam a pingar. Do jeito que o diabo e os homens gostam, ele escreveu. Tereza é carne, Tereza é corpo. Pensei nisso ao vê-la pela segunda vez e, mesmo assim ela me intriga.
Ela tem os olhos distantes, por que me apego, por que me interesso? Ela não ri, ela ri muito pouco como se tivesse guardando de mim, quando tomamos uma Coca, todos os mistérios metafóricos que há na Bíblia até meado dos livros de... Mas Tereza é rasa, Tereza é rasa e infinita como as praias salgadas em que você caminha metros, metros à dentro com a água sempre nos joelhos. Seu mistério e atração são a amplitude, nunca o que haveria demais. Não há nada demais a ser visto.
Hoje a vi sem blusas e não compreendo onde ali tem carnaval. Tereza... você é só carne, você nunca sorri, nem ouve... é como se eternamente ouvisse uma música, uma mesma música, que te interessa em todas as audições ainda que você não encontre novidade entre uma vez escutada e outra. Entendem? É como se ela ouvisse a mesma música eternamente, a repetisse. Ela se interessa pela canção todas as vezes, em todas as introduções. E não encontra nada de novo, nenhuma diferente percepção sobre o arranjo. Ela samba assim, cadente, com os seios balançando, séria porque ouve com atenção os compassos e cada batida. O que diz não importa, Tereza me parece possuída por uma capacidade de perceber só o que é vibração.
Quando o samba termina, quando o carnaval não termina, ela guarda tudo, guarda a saia. Tereza dá pra todo mundo, em preferência por homens, nunca se aproximou duma mulher - eu penso e sou logo a primeira - Tereza se contorce em qualquer parede e geme muito alto. Deve gostar. Ela bate as asas, vai-se embora e, se for desconhecido, como sempre é, o que teria mais pra ver?

E, enquanto lembro ou invento isso...
Quando o cão apareceu não foi nessas noites, nesses dias. Chegando de Resende, chegando à cidade, Tereza pegou um trem porque nunca tinha andado de trem e parou em Nova Iguaçú na estação de Comendador Soares. Entrou nas escadas das passarelas e passou por elas e viu os vendedores, o cheiro de gente que vendia coisas. Ela deu seus muitos passos na mistura das plantas, dos cartuchos de Atari e dos mutilados. Pegou o trem de volta.
Se estabeleceu sem dificuldades em Santa Teresa - para fins de recomeço sagrado - e trabalhava fazendo não sei o que, honestamente. O viu num bar e ele poderia se chamar qualquer coisa. O viu num bar muitos anos depois de que chegou; dois ou três anos. O cão era um homem mesmo de bar. O que ele faz ali é que não sei, não sei.... deve entender dos vetores da sinuca. O conheci também no bar. Ele observava o olhar de Tereza com atenção exclusiva aos seus quadris. Deveríamos ter sabido desde o início que o único órgão dos sentidos de Tereza é seu útero. Ele soube e contabilizava os cascos de cerveja que ela levava lá pro boteco: pagava, ensacava e dois sacos e virava pra casa. Sei que ela o viu. Sei porque parou de enfiar um saco dentro do outro por cinco segundos mais longos.
O cão apareceu na porta da sua casa na noite seguinte, lá no fundo dava pra ouvir música e conversa junto dos balcões de ovo à milanesa do Morro dos Prazeres. Ele apareceu na porta da casa dela e ficou parado e ela chegou com as garrafas cheias e ele correu a ajudá-la. Resistiu à princípio, mas então destrancou o portão que já conhecemos e ele levou aos sacos, às cervejas e à ela. O cão surgiu à porta, depositaram tudo no tapete, ele se agarrou na boca de Tereza na lentidão inesperada, lhe cheirava os lábios. Ela avançava os braços em cima dele, mas ele não. Teve uma Tereza estancada, não a encostava em mais nada, ensaiou morder-lhe os mamilos por cima da blusa e foi por isso que ela caiu tão desfalecida... como cabia nele a pressa do fim? Maria encontrou-se desse exato modo em Tereza pela primeira vez. Fui consumida na vagarosamente, jamais entrecortada.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Léxico

léxico
do Gr. léxicon, relativo às palavras
s. m.,
dicionário de línguas clássicas antigas;
dicionário abreviado;
conjunto dos vocábulos de uma língua;
dicionário dos vocábulos usados num domínio especializado (ciência, técnica).

então... as minhas palavras precisam dumas suas pra soarem um pouco mais que sempre disseram

(com tanto, já desentendem) e precisam reverberar no que você me permite, no que me exige. e se não no corpo, aonde? sinto no corpo, sinto e espero a dor, então preciso das palavras denotadas. você as diz.
queria completar essas frases que são bem simples (imaginei bem simples) foi assim que me esqueci do...
umas tantas vezes fiz só silêncio e você perguntou: pensando em que? perco a expressão em minutos-litros quando te amo e não relembro. uns diálogos massivos com teu olho, e outro olho que ficam olhando em cima de mim. já me vi lá: lugar verde, os cabelos espalhando, uns modos de perdição brutal

sua metalíngua na minha boca.
emudeço

terça-feira, 22 de abril de 2008

Tentativa fracassada de escrever

É possível que seja simples como olhar sem ser
isso porque visão duvida

Foi um pouco assim, choveu em gotas grossas e depois amanheceu com sol. Espero passar dois minutos enquanto espero desenrolar a cena de todos os dias que acontece agora pela primeira vez: você reprovando o macarrão, eu na bancada pensando em fogo. Então louça, repolho, conversa e fruta. Todos os dias, e era a primeira vez.

Queria escrever de você com uns espaços do não dito, escrever com os desdizeres iguais que me contaram pra você e depois de você pra mim, mas são silêncios tão incompreensíveis que não consigo ver e sem ver me fico caída em fé. Deve ser por isso que pareceu destino descrito, retranscrito de metade dos livros que começamos a ler sozinhos aos doze anos. Só que escrevo, e não penso que há outra coisa que eu faça sem que minta, e não penso que há outra coisa que me materialize em humildes resistências (ao que aconteceu antes de eu nascer de manhã do teu lado, feita linguagem).

[entre-longa-pausa]
Desisto
[entre-longa-pausa]

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Corpo de texto

falo assim direto num vento que é pra não demorar, pra arrepender.

pra incompreender, eu pego e barroco tudo.


Imagino que, como se fosse água de chuva empoçada, esperava embaixo mesmo de uma baita chuva que fazia poças ao redor. Assim ninguém saía de casa, ninguém na rua, ninguém ia sair pra ouvir música pra ver nada, nem luz porque chovia pros cabelos grudando nas orelhas.

corpo de texto
o que saiu da roupa na água foi tinta verde azul, um verde azul claro meio desbotado - quanto como cal - mas fica forte depois. foi só colocar as mãos dentro do balde pra passar a cor pelo papel esfregando com as palmas o chão. entre uns cochichos e outros apareciam desenhos sem planejamento que foram expostos conforme algumas pessoas gostaram. eu daqui, pessoalmente não tiro esses vestidos, fico deixando a cor das estampas, das formas todas que formam e pontos, traços linhas, deixo elas indo cair pra longe e molhar outros pés que conheço, desconheço ou encontro na esquina. não tiro e não mudo, mal escolho, vou só pra cortar as arestas, bordar algo aqui, um botão pra perto da gola, uma bainha ou aplique de flor. entregas toda hora, às vezes demora uns dias, toda hora, qualquer uma assim... randômica! hora, roda, alinha-vão, colchete, manga, morango, limão.



-
vindo e re-tinto do dia 07/09/07
por ser algo escrito que tenho mui bem querer
lembra um talento queu devia ter, guardei em algum lugar, não sei aonde

terça-feira, 15 de abril de 2008

E (...) à nossa programação normal

parte em que toca uma música alucinado-deprimente do Belle & Sebastian, que só faz sentido no fim do filme

O médico lhe disse há anos atrás que ela estava doente
O médico lhe disse há anos pra tomar uma pílula
O médico disse há anos que ela ficaria cega se não se cuidasse

Eles deixaram Lisa ficar cega
O mundo estava sob seus pés mas ela estava olhando pra baixo
Eles deixaram Lisa ficar cega
Mas todo mundo que a conhecia, a achava bonita

Mas levemente retardada
Bonita, mas temperamental
Bonita, mas levemente retardada
Bonita

e (quase) voltamos à nossa programação normal
teste
quando eles costumam aparecer?
naquela época eu ainda costumava usar aquele vestido cinza de gola dobrada três vezes, fumava o Mallboro vermelho - que troquei pelo Hollywood verde agora. tinha aquela mania, se lembra? de beber e mandar scraps pelo orkut, de escrever frases do tipo "e ele bem se entregou todo à ela" numa reunião de expressões inúteis que adensavam os eventos mais vazios. nunca ignorei que só os eventos vazios importavam, era isso.
quando eles costumam aparecer?
não sei porque ele repetiu a pergunta. às vezes acho complicada a comunicação entre pessoas que não se conhecem e eu não o conhecia: vinte e um centímetros mais baixo do que eu e a voz mudava, engrossava, atrelava ao chão as observações mais dispensáveis. queria que eu o achasse bom pros meus diálogos e nunca tirei nada da cara de pedra que fazia.
não há literatura capaz de resgatar enchimentos ou lacunas que descrevam a agonia esbaforida de ter de tomar conta do primo adolescente que ouve Sandy e Junior. esperávamos os meus amigos imaginários que não iam vir, nem mesmo com neblina; nunca disseram que devia ser como As Brumas de Avalon. não viram. ele chegou dum aniversário de 15 anos e uma das lembrancinhas eram aqueles envelopes com fósforo.
e cinzeiros!
ele completou e eu já enfiava no bolso quase alucinadamente paralela.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Problemas técnicos: fora do ar! fora do ar!

o meu refrigerador não funciona...
(os mutantes)



senhores consumidores de limãoExpresso

informamos que nossos dispensáveis serviços estão indisponíveis por (sabe-se lá) cinco dias fatalmente inúteis por conta de reparos na conexão OI VELOX, a que nunca funcionou mesmo e que enrola muito para pagar toda vez que a processamos.

aguarda(mos?) a compreensão de todos e de todas

atenciosamente
SAC - serviço de atendimento ao consome-dor

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Frazier faz [dis]simulações de vôo em Beckett para piauí_18: aeronáutica existencial


segunda-feira, 7 de abril de 2008

Variações de leves ritmos

eu não era ninguém e era mil seres
C. Drummond

prende, força...

querendo como se fosse só a consistência, e, depois de tanta coincidência, de tanto ainda ficar, pronde mais ir? porque, se não no corpo, pra onde? (o amor aparece como os ratos dum navio afundando) à bom-bordo

atenta de escutar a tua voz, de escutar com atenção porque (verbo no pretérito imperfeito) impossível falar, foi assim que ficou: um suspiro e um advinhado desmaio em cada uma das palavras, das vírgulas da sua língua.
não é por fim que digo aqui o que não quero. é queda, mas sem fundo: atravessar umas milhas imaginativas porque, num pensamento forte, o que encontro à volta é só pele e quanto isso dói. você acredita que dói? como sente em você?
puxar o ar pelo nariz, soltar o ar pela boca, assim dizer de vez (recomendação sua, olha o preço do interurbano). demorou cerca de cinquenta e três horas a palavra sair e saiu torta porque, se não no corpo, pra onde? tropeçou sem nem beber. saiu letra por letra até virar frase que no total tinha muito pouco, mais escondido en-trepausas, fio de som mesmo. isso era necessidade confessada, necessidade protestada pelos meus dedos, meus cabelos, meu pescoço, minha boca, meus seios: com que castidade abria as coxas... minha vulva. e derretia toda a cautela - se bem que o dito não saía - então virou suspiro de beijo e só. me vejo no fundo duma garrafa tantas vezes... uma imensa garrafa vazia onde estou esperando um navio passar; pulando, dobrando os braços. o navio não passou.

me vejo tantas vezes no fundo de uma garrafa transparente, agora ela enche de algo que não sei o que é, que é fresco, fresco e quente, e sal, e Alice... toda cheia de mim, tão liquefeita de qualquer pedido teu, qualquer desejo teu, de diversas devoções pelas quais, hoje, vou acender velas na Lampadosa. e ansiosa porque... você me bebia, me retorcia e ali, exatamente ali.




disse baixo dos meus sentidos e os livros do quarto rodaram duas vezes quando senti vergonha. te desejo pros indefesos afetos do possuir. te desejo pelos meses em que nunca chegaram cartas. te deixo me colocar do seu lado sonâmbulo e disfarçado por saber que você mente bem, me escondo entre os vãos da poltrona pra que você não veja que eu danço e que gozo e que seu nome sai repetido quase rido, derretido; entraram em mim seus dedos. o amor.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Primeiro relato (quando ele gozou no imaginário)

Mas aos vinte e cinco anos ele ainda está sujeito à ereção, o homem moderno, fisicamente também, de vez em quando, é o quinhão de cada um, nem eu estava imune, se é que aquilo pode ser chamado de ereção. [...]
Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais somos qualquer um, não há mais como nos apagar.
Samuel Beckett


ele estava aparentemente sentado no sofá. em cima do sofá, faz acho que quatro dias, tinha um livro de capa preta com a foto do autor no lado esquerdo superior. ele estava aparentemente se dobrando sobre um rim e de repente, nesses que são nossos impulsos, levantou, levantou o corpo e ficou, e fitou. fitou ela e a mim, eu nela. não, nem sei. fitou apenas ela entre as suas pernas, ela abrindo suas pernas com os joelhos. então era o álcool dançando na nuca, subindo pro topo da cabeça, esse álcool, esse ela e ficou ereto numa explícita impossibilidade do escondimento, já que era fato. e mais do que os joelhos dela que tinham um hematoma roxo de queda, e mais que isso. na verdade não era um sofá, mas uma poltrona que ela tinha comprado verde pra que combinasse com a parede verde escura, ou cinza antigo, da cozinha. o homem é quem tem de ter a casa, o homem, nunca a mulher, nunca aquela exatamente alienígena mulher que lhe lembrava a dona, esposa do atendente da venda, a que tinha lhe pedido certa vez que alcançasse com o auxiliar de padeiro o maço de cigarros que ele deixou cair e foi catar. a dona viu os cigarros espalhados no chão e ele seria o que? um rapaz atarantado? não, o homem tinha sua casa e ele era filho do dono da venda. pegou o primeiro cigarro que prendeu entre o polegar e o indicador com toda a naturalidade que se fazia isso aos anos de 65 à 73, a melhor produção do Maverik, e a dona lhe pegou o dedo e encostou na ponta do mamilo feito um botão de elevador que aperta.
não dessa vez, não seria dessa vez, mas da outra que ele caiu sobre umas latas de óleo, ela lhe foi socorrer e ele gritou de dor mentida, e lhe segurou a barra do vestido, a coxa em propósito. o cotovelo roçou as nádegas que se viam continuamente à noite no quarto do seu pai. o episódio passou logo ao esquecimento público.
não, não era nada disso. a questão que importa é a ponta do mamilo. aquela menina viu tudo, a doente, a que levantava as saias. e ela viu e abriu os olhos que tiveram então o drobro do tamanho acostumado, e ele viu que ela viu e foi então que apertou o mamilo da dona entre o polegar e o indicador, se sentiu duro - o que, cínico - e os dentes da menina atrás da prateleira apareceram porque ela abriu a boca, a boca se abriu sozinha por indesviável que foi, ele queria nela. nos peitinhos pequenos das curtas mãos que levantavam as saias sozinhas em plena hora da missa. diziam que a garota era doente porque, de concreto, escrevia números com Pilot azul na perna. ela levantara a saia tão alto que, certa vez, chegou a tampar a cara toda, só se viam as pernas, as equações e a barriga e ele, esse rapaz, esse menino, sentia um medo alguns anos mais velhos; sentiu um osso da estranha compulsão, quase até torpor ou choque e ia pra casa e não esquecia estirado em baixo da cama, dos estrados, pensando na surra que ela levou na praça duma das senhoras que cantava na igreja: a mãe, a sua mãe, não lhe dá nada de vergonha!! a calcinha azul.

o livro do braço do sofá, ele acabou esbarrando e... ele ficou no chão, o livro... por quanto tempo? Maria caiu de repente jogada com a boca na sua barriga e ficou assim muito mais tempo que se podia contar nos dias em que fica chovendo e intransitável; ela rolava a cabeça a boca com as mãos apertando o acento agudo do sofá, guturando, até mesmo chorando. a farta disposição dos cabelos. mas por que na barriga, desgraça? a mente, refastelada em desejos da ordem do sempre ser dito, nunca em voz alta - já que era bêbabo, mas contido; que, latejando no pescoço dela, fechou o olho pruma paralisia de Raskolnikov.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Clube do Coma: como tentar entender

canário Kiwi em fuga da câmera: transparência


(enquanto dura o álcool)

sinto que dessa vez, por só nessa primeira vez, queria que entendessem. penso por que: porque, quando assisto novela, quero entender. o obscurantismo foge de mim, não escolhi. enfim ...

A HISTÓRIA
basicamente, o Clube do Coma é uma história que apela pra um absurdo inicial "almodovariano" (almodovariano!).
é sobre duas mulheres que se conhecem num acidente de ônibus imaginam daí uma ligação, imaginam, a partir do que houve. nesse acidente uma garota morre partida ao meio por uma chapa de aço. essas duas mulheres são a Tereza e a Maria da Glória: a primeira vê o corpo da tal menina ser guilhotinado e tenta unir novamente as duas partes, a segunda vê a mesma coisa, mas impede Tereza de continuar com o que está fazendo já que a outra está claramente morta.

noutra ponta, e o que dá o nome, é sobre um lugar, um teatro, onde as pessoas podem subir ao palco para contar suas histórias à uma platéia mascarada.

NARRAÇÕES
algumas coisas contribuem pra que a história fique confusa... primeiro é que é esse o modo escrito em que me sinto mais confortável, por isso persisto nele confiando que cada um terá um entendimento próprio, que acho que multiplica as possibilidades de cada linha. se bem que agora eu não queria isso, queria clareza - e não dá pé.
no Clube do Coma, a narração tem me parecido ser a coisa mais causadora de absurdos já que são vários narradores, com várias visões e que contam as coisas em tempos diferentes, nada ali é linear. numa hora sou eu, noutra Maria, noutro a defunta; é possível que se misturem. penso que entender o meio-folhetim passa por conseguir identificar quem diz o que.

PERSONAGENS
são quatro personagens, se eu for inclusa, se outras coisas forem inclusas.

personagem que morre: não há compromissos com os limites do pensar o sentir de qualquer quem seja, por isso os últimos pensamentos da morta envolvem sentimentos que não são seus, mas das outras duas personagens que realmente existiram. não há mais o que dizer.

Tereza: é um estereótipo que existe por aí nalgum lugar, é uma mulher bem feita, forte e isolada. como todo o resto do conto, Tereza é uma metáfora. ah sim, tudo se trata duma metáfora gigante e certamente inúltil: Tereza é um corpo e só o corpo. sua comunicação se dá pelos gestor, por simplesmente e essencialmente existir, pelo sexo, pela força bruta e pelo silêncio da impossibilidade de comunicação sofisticada.
é semi-analfabeta, fugida de onde nasceu, de onde cresceu e com quem casou num último e primeiro impulso do corpo pra ser só corpo, corpo só. tem volúpia, chama atenção nisso. é abrupta.

Maria: seria o inverso, acho, da Tereza. Maria esqueceu de ter corpo, é só abstração, é só inexistência concreta; um imenso interior de força criativa, pensamentos não-concretos. (obs: a história ainda não é toda minha conhecida; ela não me apareceu inteira como um romance, é algo que vou sabendo agora). tem sua criatividade só de alma, inteligência de isolamento e estudo. Nasceu da água, ela diz, nasceu sem querer, foi criada também num sem querer.

a Câmera: penso que seja eu, assim como a morta sou eu. a câmera se encarrega de detalhar as coisas vistas. descreve e conta. descreve e conta. só.

o Cão: o homem bêbado que está sempre à porta de Tereza. não sei quem é direito... sei que, hoje sei, que ele fez amor com Maria num dia abafado. deve ter daqueles tormentos fortes que acabam gerando compreensão sobre os outros, por isso ele compreende, por isso saca um corpo de Maria.

MOTE
mote? e eu sei direito? todo autor deve fazer auto retrato porque os pintores fazem auto-retratos, então o Clube do Coma é um auto-retrato eterno, multiplicado, até enfadonho. a morta e partida ao meio, são assim duas trajetórias completamente diferentes. aliás, as trajetórias surgiram antes que essa morte viesse; imaginava essas duas mulheres (uma, fruto da minha inveja, outra, fruto dum expansionismo humano, da multiplicação), mas não sabia como duas entidades díspares iam se juntar. foi assim que, narrando a história, sem querer (também) morri nela. foi só então aí nesse evento estranho, absurdo mesmo que elas se juntaram; digo que se juntaram pelos dedos porque Maria começou a gritar e segurou as mãos de Tereza. ficaram assim tempo o suficiente.

LUGAR
não conheço outro Rio de Janeiro além do inventado, por isso é ele. Maria, parece, vive na Rua Fonte da Saudade e Tereza entre Santa Teresa e Santo Cristo. o resto é um monte de rua e casinha que ninguém nem quer saber, só eu e tem bastado (fita enlaçarada de antipatia)
como a cerveja acabou, não posso continuar escrevendo. espero que essas linhas sejam úteis.

ADENDO EM DIA SEGUINTE: não escrevo mais bêbada...
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