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sábado, 17 de dezembro de 2011

O seu corpo reconhecível

julho de 2009:
pessoas que, como nós, se movimentam pelas palavras, fazem doer as pessoas que, como nós, se movimentam pelo silêncio.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fade out das pernas


Para Isabela, Natânia, Juliana, Heloisa e Isabelle. Dando uma voltinha.

O frio chega muito perto e inesperado na janela por um vento horizontal. As cortinas balançam, curvam e brilham com relâmpagos que acontecem nas praias distantes, nas ilhas ainda não-colonizadas. Unhas sem pintar estão na minha frente voando e, por vezes encostam na testa. Elas são longas, as mãos são minhas, mas num tempo parado de cutículas que tomaram conta não por descuidado, mas por abandono. É engraçado como nestes momentos não pareço estar nem doente, nem impotente, nem sóbria. É muito rápido que essa sensação passa, mas o que ela deixa me preenche feito uma fumaça, feito fumaça de fogão a lenha, essa sensação que infla e me deixa pronta para que me meçam novamente a densidade. Vão descobrir que não sou leve, que não é possível me carregar dum lugar pro outro, duma cadeira pra mesa, da privada pro jardim, vocês vão descobrir, vocês vão ver. Mas o tempo estava no mesmo lugar há horas, coagulado e eu me pergunto quantos mais motivos florais poderia imaginar pro rebaixamento feito à gesso no teto em cima da minha cabeça, encostando na minha testa, unhas, anteparo das sombras da minha mão que podem se mexer enquanto nada mais meu pode. Bater, meu coração.

O que eu poderia me lembrar dos anos, quantos? Foi a partir daquele dia acidental que minha vida passou a correr ao lado da minha vida paralelamente sem nunca encostar uma na outra mesma e sou agora qualquer coisa muito diferente do que corre logo ali, ali do lado, na linha que em  nada me toca. Me afastei tão severamente dos meus desejos sobre mim, dos meus desejos para mim e eu gostaria que houvesse uma (finalmente)  parábola e que tudo se tocasse e que eu pudesse reintegrar os tempos: quem estou, quem sou.

Um esforço para correr em direção ao que está ficando cada vez mais longe em fade out, mas vão me arrancando pedacinhos e pedacinhos das minhas pernas na infecção que me toma, fade in, fade out. Eu vivendo meus sonhos, meus dias, os movimentos, os pagamentos, os beijos, os ônibus, os copos dágua. Me retiram cada vez um pouco mais porque é pra preservar a memória da melhora, é em nome de estar salva. Não tenho mais forças para recusar quando me dizem olha é estritamente necessário arrancar e eu fico chorando e nem sai mais nada, nem tem mais de onde tirar demonstrações líquidas do eu eu eu vivendo os dias com relâmpagos tornando a cortina iluminada, gravando tudo com os olhos, obcecada, porque está escapando, os segundos, este momento verde, laranja, estruturas cilíndricas e vibrantes onde compramos ingressos, onde entramos de graça e vimos imagens e mais figuras de criações realmente fantásticas, muito realmente refletindo sobre nosso momento contemporâneo. Uma garota passa, linda, cadeira de rodas elétrica e ela poderia imaginar que, ao pedir licença, pedia pra mim, justo pra mim que estaria brevemente colada à uma cama na dependência de uma sonda renal...? Unhas vermelho tomate Impala 126.

Sinto que, principalmente, as cores fogem. Os futuros, os sonhos, os planos, os livros, os filhos fogem. Toquei minha boca e eu tinha um gosto branco. Era novamente hora, iam abrir a porta, disseram ser necessário, mais um pedaço, talvez o direito, talvez até o joelho. Fechei os olhos sentindo encostar o cílio postiço superior no inferior. Um gosto preto de cola: um horror vai acontecer quando finalmente eu me tornar quem tanto me esforço para ser... Sentei na cama e me fatiei muito instrumentadora cirúrgica. O direito. Talvez até o joelho retirem dessa vez. Me tirei lasca novamente, foi um alívio! Extração! Meu pescoço, o seu peito, a areia da praia, os dias de buscar a mala, os estudos, as chaves fade out, fade out da minha própria vida correndo paralela a minha própria vida, eu fui dispensando na bandeja metálica, brilhosa, asséptica cada membro. Amputada e sangrando. Vai aí mais um pedaço que sempre desejei.


sábado, 5 de fevereiro de 2011

A natureza da mulher: quem por ela escolha

Eu subi num prédio estranho. Você estava do meu lado. Qual a semelhança entre um e outro quando vejo os dois mal refletidos contra a superfície polida da porta fechando e anunciando - é uma gravação - que estamos subindo. Eu sou um rosto vítreo, eu mal posso piscar, eu sou como que por uma obrigação; eu sou alguém que você tem.
Deslumbrada caminhando entre as estantes de livros e papéis, pastas, os seus olhos sempre me acompanhando. Numa sala de café, você me disse que deveríamos trepar, trancou uma porta estreita de correr, mas eu não quis porque essa palavra, "trepar", e assim realmente dita pra além de imaginada, me entristeceu. Certas coisas que você me disse (e diz) eram todas sem forma, eu só as pensava, queria de modo impensado. Você criou todas as palavras que hoje eu digo.
Há violência, todo esse tempo houve. Meu amor é de tração. Entre os papéis amontoados, e as pastas, você me ordenou ordens diversas e assim jamais fui demitida. O clichê passava por nós e nos abraçamos como se existisse vida que fosse inédita - e tudo já foi passado, escrito, lançado. Por muitas tardes, levando minhas avós que iam conversando na praça em suas cadeiras de rodas, retesei meus músculos para que ficasse, para que eu não fosse. Sua. Tenho uma vida comum, eu sou uma mulher na praça ao fim da tarde que é normal, que é comum, com sol e o barulho da rua que vai diminuindo a cada caminhada pra dentro de onde tem mais árvoresw, agora, agora, eu tenho peitos fracos que são muito comuns. Suas palavras diziam me ameaçar para que eu ficasse tranquila e eu então eu ficava tranquila, assim eu não fazia nada, me sinto tão pura e tão quieta, que a culpa não é minha, eu me martirizo, você me obriga, ameaça, blackmail.
No seu prédio, entramos duas portas à esquerda saindo do elevador. Eu subi num prédio estranho. Você estava do meu lado.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

revisões: a letargia da miséria e "O Morto"

Eu queria tudo diferente... às vezes eu acho que esse cheiro não vai sair de mim e do cabelo. Isso me espanta em você, e acendeu um cigarro, foi pra junto da janela exatamente quando passou um Maverik vermelho escrito vendo raridade. Te espanta porque não precisou comer os ovos empanados do boteco, o moço me dava até um refresco de graça, junto com ovo... ovo cozido empanado, ovo à milanesa e um refresco bem ralo de maracujá. Só queria tirar o cheiro de peão de obra. Não sinto, nunca senti, não gosto de você assim.

É o tipo de assunto sobre o qual não sinto necessidade de falar. Pensava, que sinto vergonha de falar. Justamente deve ser por isso, o sentir vergonha, a gente pensa, falar por que? Noutro lado, há de se avaliar que todas as tristes histórias exigem lucidez, sobriedade e tato para serem contadas já que tudo é repetição, tudo já aconteceu, todos os dramas humanos são repetições infinitas de dramas já ocorridos de modo que apenas para um ele fará sentido e terá força ao ser contado; para o outro é clichê, para o outro é possível alcançar o tédio.

Escrevi algumas vezes sobre a letargia da miséria. Em setembro de 2007 escrevi pela primeira vez sobre essa questão expondo (até muito) sobre as tristes coisas que me aconteceram e que aconteciam - embora aconteçam com muitas pessoas, isso não interessa, aconteceu e foi íntimo, não conheço essas outras pessoas e, mesmo se conhecesse, isso apaga o que te houve? como?
É uma história também claramente queria ser copiada de A Hora da Estrela, mas daí as coisas correram por si mesmas e o enredo terminou sendo muito diferente. Fala sobre uma mulher que trabalha numa papelaria na Saúde. A primeira parte se chama "O morto" (originalmente se chamava "O cavalo morto") e a cena se passa anos depois da papelaria, a personagem está sentada numa poltrona e dialoga com seu companheiro sobre não conseguir esquecer o passado, sobre o quanto lhe custa estar rompida com a letargia da miséria. Acredito que ela, como eu, não ache possível romper completamente. Os gostos, os cheiros, saltam, te assaltam.
Eles relembram que quando ela o conheceu, ela logo viu que ele era casado, ao que ele responde dizendo que ela tinha cara de velha embora contasse 23 anos. Obviamente ali sou eu de alterego. Sinto ainda diversas vezes o cheiro de peão de obra que é um cheiro de concreto molhado e suor rescindido, cerveja de antes de ontem. O amante diz que se espanta dela não ter se esquecido. Certas mortes nos mataram e temos de seguir com o cadáver, isso também é repetitivo na condição humana, devemos carregar nossos mortos porque, como disse Jesus, os mortos devem enterrar seus mortos. Nós, os vivos, carregamos.

Penso hoje, decidindo aqui sobre que disciplinas quero cursar esse semestre na UFRJ, sobre talvez cursar uma disciplina na PUC porque não achei caro e tal, eu conversei aqui com o marido sobre isso, que é interessante. Eu disse a ele que tinha acordado e estava pensando que se não fosse pela delicadeza de Marcelle eu não estaria decidindo essas matérias. Conheci Marcelle na escola, era uma escola particular naquela época em que somos muito novos e costumamos achar que o ideal para existir é fincarmos o pé na certeza de que o mundo é como imaginamos e ninguém deve ou pode fazer nada para mudar isso. Os adolescentes lá eram cruéis nesse sentido. Eles viviam em um mundo onde pobres não existem e eu ali, ora, vamos ignorá-la até que ela deixe de existir, ou, simplesmente ela não existe.
Eu já não existia há algum tempo. Naqueles tempos, vivia perdida em criar histórias, eu vivia das histórias e todas muito românticas, eu lia muito livro Sabrina e eu sonhava com Carlos Eduardo da Maia, vocês calculem, eu tinha fantasias com personagens do Eça de Queirós embora não entendesse completamente Os Maias, entendia o essencial do enredo. Enfim, fui estudar nesse colégio e mal tinha dinheiro pra chegar nele porque era em outra cidade, que dirá tínhamos dinheiro pra que permanecesse lá para as aulas de Espanhol que eram a tarde - porque não havia como voltar para casa, almoçar. O que quero dizer, é que ficava lá sentada criando histórias com cinquenta centavos que era o dinheiro com o qual eu ia almoçar.
Como eu tinha medo de andar pra muito longe da escola, andei por perto e achei um bar desses bares e com cinquenta centavos dava para comprar um ovo empanado; grátis,vinha um copo de refresco ralo, e os homens no bar ficavam me olhando certamente pensando que é que essa porra tá fazendo aqui e porque ela todo dia compra esse ovo. Eu não sabia que era ovo! Eu o vi do lado dos ovos rosa mas eu achei que fosse um salgadinho, imagina um salgadinho! Mas era um ovo empanado, um ovo à milanesa.
Quanto tempo passei com essa dieta? Eu vivia muito nas histórias, criando histórias que me consolavam e eu não lembrava do tempo passando. A Marcelle se tornou minha colega de turma uns dois anos depois, ou três e naquela época eu já não tinha mais bolsa de estudos integral, já era profissional em renegociar os atrasos no pagamento . Naquele período, novamente tínhamos aulas à tarde e eu pensei fodeu, mas aí ela pagava um lanche pra mim., nos acompanhávamos É uma delicadeza que a maioria nem saberia reconhecer quando visse.: ela fazia aquele me comprar um lanche com tamanha falta de compreensão do que fazia e dizia preu pedir o que quisesse porque ela era rica. Ríamos muito. Aquelas tardes foram o que de melhor guardo da escola, nosso afeto. Ela dizia que gostava de me alimentar e eu, ora, eu gosto de comer. Somos amigas ainda porque não poderia ser diferente.

A letargia da miséria acontece nesses longos períodos de fome de tudo, do corpo,, do corpo por dentro, a indignidade consecutiva de não se pertencer, o aprisionamento e, finalmente, a apatia diante dos dias. Houve um episódio em que meu tio - que é um excelente mestre de obras, muito sedutor e que hoje mora numa termas - estava consertando a caixa dágua do condomínio num dia ruim e caiu lá de cima, uns 4 ou 5 metros, quebrou vários dentes. Estava chovendo e ele abriu a porta lá de casa junto com o vento, todo deformado. Disse apenas: tá pegando, que é um bordão até engraçado. Nunca imaginei que o veria dizer aquilo de forma tão séria e trágica. Ele ficou bem, como eu disse, hoje é faz-tudo numa termas, mas usei essa cena, que me impressionou muito, na segunda parte da história Ato contínuo do morto, quando o pai da personagem cai de uma caixa dágua e morre. Mas o pai dela não é meu tio que é uma pessoa pura e alegre, esse personagem era.. isso não sei bem, a materialização da pobreza, o cheiro da pobreza, o cheiro de quem, privado por tantos períodos da integridade de si, cheira de modo permanente ao suor de um mês atrás, urina escorrida entre as pernas e a cimento. A pobreza tem outros cheiros, me lembro de dois, desse e de outro, mas o outro não consigo identificar.

A personagem conhecera seu companheiro enquanto esperava seu amante no Hotel Barão de Teffé. Mas o amante não vem (isto está no trecho O Morto - still life). O amante, Gonçalo, com medo da esposa, manda lá um amigo para avisar à moça e este fica com pena, lhe dá uns trocados pruma Coca e dá o recado-mentira a que fora instruído: ele não fora por causa da apendicite. Depois, por (ainda) pena e fascínio irremediável, esse amigo começa a ir na papelaria da moça (trecho 3 em Ato contínuo do morto), dá desculpa de que foi comprar algo, então já está apaixonado. O amigo, que era como seu irmão, descobre(4) mas aí já não há o que ser feito. Quando ele beija a personagem, a intensidade a faz pensar que ele colocaria a mão dentro do seu sutiã, o que ele não faz, e então ela vai para casa e lhe ataca uma febre, uma doença, pelas imaginações de que a mão deveria ter tocado. No trecho "O morto" a cena do diálogo termina com a personagem sendo seduzida, cotidiana, pelo seu companheiro, ela se abriu ampla como um flamingo. É feliz, então.

Esses são os textos, não coloco aqui pra não ficar uma postagem muito confusa:
O Morto: http://limaoexpresso.blogspot.com/2007/09/o-cavalo-morto.html
O morto (still life): http://limaoexpresso.blogspot.com/2007/09/o-morto-still-life.html
Ato contínuo do morto:
http://limaoexpresso.blogspot.com/2007/09/ato-contnuo-do-morto.html


domingo, 11 de julho de 2010

Tentando usar de cumplicidade com Angella Jolie

I. Dia seco

Pedi um café normal, na xícara, e eles colocaram um biscoito no pires que molhei dentro da xícara e esperei que ficasse macio, finalmente engoli. Angella estava do outro lado da mesa e discava no celular me olhando por cima das teclas e esperava que eu fosse dizer algo e ela fingia, claramente, como se eu houvesse dito pra ela pra ela vir, eu não chamei, eu bebia o café e mergulhava o biscoito para deixá-la a vontade, livre para me contar com sinceridade sua história. No entanto Angella Jolie, boneca, na casa dos 32 anos, acompanhante e depiladora com cera quente preparada por ela própria, fantástica, não agride a pele, dissolve com água, leva vidros de Karo, me olhava de cima e muda, constrangedora: a sua integridade... fincada no orgulho, na arrogância e me prestava aquele favor ali sentada comigo como se fosse meu amante impaciente.
Ela comentou do esmalte, que o acabamento nunca ficava bom mas era uma cor tendência e tinha de usar, tinha de dar um jeito, levava horas pra limpar tudo e ficava com aquele aspecto e saía em duas lavagens de louça. Me estendeu a mão, os seus dedos, eu peguei examinando, não era bonito, mas de longe quem se importa?
- Eu pinto todo dia agora porque isso aqui fica fosco, uma merda, o pior é que é um saco pra tirar ao redor da unha né, mas mulher, mulher é foda. Mas homem sendo mulher é pior né? - aí ela riu, que dentes lindos lindos - Eu faço a chuca quase todo o dia.
Eu não consigo, comentei.
- Dói...
- Dói? Ah, me respeita, passiva não tem isso não, é que mulher tem buceta, com buceta é mais fácil, a passiva só tem ali, então vamos fazer a chuca? Vai lá e faz, não dói, cê aceita os fatos e vai.
Soprava a franja que caia no olho e eu me sentia como numa poltrona morna e confortável porque ela ria, eu era um pivete na porta da lanchonete pedindo pra me pagar um hamburguer, que ela me falasse, me apaixonei e fiquei rindo jogando a cabeça pra trás, ninguém nos olhou mais do que já olhava ao entrarmos, rimos e eu me localizei numa existência que eu sempre gostaria, o meu abismo de falta, eu era um pivete na porta da lanchonete na Rua Uruguaiana roubando um suco como se fosse fome e necessidade.
- Então, como você tá agora? Fui frontal, usei de cumplicidade. Angella Jolie, boneca, 23 motivaços, detalhe de Adão, cabelos implantados na altura da cintura com fios humanos, pele morena clara, adorando anal, o cara sumiu e lhe tinha prometido um dinheiro, agora ela precisava, não queria fazer programa porque estava cansada, gastava muito tempo, ela disse, que não queria aquilo, estava apaixonada, queria calma, amor, dormir. Queria dinheiro, ótimo, eu disse demonstrando o que eu sabia fazer bem: que nada me chocava, me diga, conte. O cara era um executivo e tem essa galera que gosta de companhia pra beber pra comer depois sexo se rolar
- .. mas ele não é assim, eu não sei explicar. Eu preciso de dinheiro, mas preciso mais dele. Ele sumiu, sabe, eu sinto falta porque a gente conversava muito, a gente sonha, né? Eu sonhei que a nossa situação fosse evoluir e que, sei lá, podíamos nos ver sempre, ele podia ficar com a esposa, você já está gravando?
Não.
- Ele deixou um bilhete com o porteiro do meu prédio, fiquei mal à beça. Porque eu acho que pra você terminar a pessoa tem que aparecer, tem que falar na cara, achei muito escroto. E começou a fumar ao que o garçom disse que era proibido e ela guardou de novo o cigarro na bolsa de couro (bolsa da Lóis, bolsa da Louis) e levantamos pra ir pra outro lugar. Eu a chamava no meu íntimo de Gran Titan, usava salto, claro, a Angella tem uma correspondência com os clichês e é por isso que eu não gravo. Ela em si, Angella Jolie em si, travesti, alta, peitos belíssimos, romântica e flamenguista, sabe, o tipo de coisa que você escreve sobre e dane-se isso se vê todos os dias, não, há um toque, eu quero um olhar sobre o furtivo, emoldurá-la, eu a invento e ela não sabe pensando em extorquir o cara, foda-se porque é provável que eu nem escreva nada, pensei, como de fato não escrevi, penso, porque ficamos preocupadas com o sucesso de Armínia como uma não-atriz que protagonizava a novela das oito, assustadas. Ele ia separar de Armínia?
- Ela é linda.. não perco a novela, adoro auqela novela! quando ela fica se agarrando com o Luiz Sandro Alencar de Ferreira e eu penso que o filho da puta, ah! Tá vendo! É a sua mulher! porque ele diz que não tem ciúmes (eu li uma entrevista dele outro dia) mas sente, claro. Eu mesma sinto por ele, fico ali tensa sentindo ciumes pelo pobrezinho. Vamos pra Carioca?

O dia estava frio e por isso as minhas pernas ressecaram que ficou igual couro de cobra, conversamos. Ficou decidido que o melhor era ser na casa dela, que a gente podia tomar uma cerveja com calma. Queria abraçá-la Passiva Gran Titan, você não sabe tudo que eu sei de você e o quanto você é minha e o quanto te adultero quando te imagino sendo eu no seu próprio corpo, se movimentando harmonicamente sendo a minha própria mãe. Eu nunca vi minha mãe, Angella, eu quis contar, mas fiquei com vergonha na hora e com medo dela se sentir desprivilegiada, queria que ela se sentisse protagonizando. A ideia era publicarmos tudo, foder com a vida do cara, ela se faria umas melhorias no nariz na panturrilha, todo mundo quer saber agora disso de celebridade, ia vender. Ela achava que eu era que eu era uma grande escritora, Clarisse uh uh! e ela acendeu o cigarro e foi sincrônico o vento batendo e aqueles shows mambembes no Largo da Carioca. Eu vestia jeans e uma camiseta azul, sapatilhas. Angella Jolie veste peça única estampada, discreta, floral, perfume também floral. Foi a segunda vez que nos vimos e decidi naquela semana que iria ficar sóbria, tomar os antiinflamatórios com maior justeza.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Urânio enriquecido

Quando os campos de concentração começaram a aparecer, a coisa das mortes e das pessoas se enfiando ou morrendo afogadas nos dejetos, ou morrendo afogadas no gás e nos fornos com cabelos esvoaçantes no alto dos prédios e pelas cidades, a coisa das mortes e das pessoas não existia. Quando os campos de concentração começaram, eram os internatos e eram os oposicionistas e eram os alienados. Eram os alienados em geral. E os estudiosos: os estudiosos matemáticos que foram mandados para os campos de concentração com os físicos e os biólogos e lhes disseram para fazer a bomba atômica e não podiam sair dali enquanto não fizessem a bomba atômica, que ainda não se imaginava que fosse ser uma bomba, ou atômica à época.

E os estudiosos jogavam seu futebol e o silêncio e faziam seus cálculos.

Quando os campos de concentração apareceram, eu queria me pôr neles e só podem sair depois que fizerem a bomba atômica, mas eu não imaginava ainda que poderia ser uma bomba e nem afônica. O recolhimento, o advir que pode ser cruel com os outros. As cidades e a coisa da morte afogando nos dejetos meus e dos outros, meus companheiros. Aqui todos se igualam, como na placa do cemitério em 1984 quando enterraram as pessoas inebriadas pelo gás, inebriadas pelo incêndio e me aproximei delas por interesse financeiro. Eu queria me pôr no silêncio, na reclusão, e submetida, e ouvir as vozes múltiplas que Hildegard von Bingen, na Renânia, ouvia. Só essas vozes e só saem daí quando tiverem a bomba atômica.

1942, malditos soviéticos.

Quando os americanos, ingleses de zíper, formularem a fórmula do enriquecimento do urânio, algumas pessoas irão gritar e ter os cabelos esvoaçantes arrancados com uma rapidez impressionante, pelo gás, pelo fogo, pelos estudos e pela branca colombiana. E eu estando presa e eu lá estudando e ouvindo as vozes que Hildegard von Bingen ouvia em meio a todo vinho, todas as plantas, todos os escritos e as vozes que me diriam pra fazer logo a bomba atômica e escrever e destruir meia dúzia de amores de vidas que me querem bem.

(esses povos fronteiriços pensam que devo apenas transitar por eles e há você, meu amor, você que comigo formou um dadosnós; você que agora vai comigo quando páro de ser minha pra dar pra todo mundo, pra todas as gentes no meio do gás, do petróleo, da religião, dos Porcas de Murça e da merda. derretidinha, maníaca, exótica. e a minha mãe)

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Jantares: esfregando as coxas pelo gerente dos Cohibas

Nota da autora:
agora pouco, e faz dois dias, olhei e vi que os meus escritos não contam histórias com início, começo, tampouco fim. elas falam de coisas que acontecem em rápida duração e, no máximo, montam um conto por juntar todos os acontecimentos banais numa ordem mais ou menos compreensível que, todos juntos, parecem uma história que tem começo, meio e um negócio que se finge de fim. no que eu vejo, e isso é cena, todo acontece desgarrado do lugar donde veio.
essa é a história dum talher que caiu.


Jantar, microfilmagem, o amante e travestis

Arrastando a tarde, se pode até ver o que acontece: as duas pessoas se encontram e começam a fazer traços como se pudessem permanecer juntas por muito tempo. Eu permaneço. De janta fiz o que você gosta de comer e coloquei pouco sal por conta de você ser hipertenso. Coisa estranha, essa, ela vinha calada mesmo. Toda vez que ele dizia umas palavras, parecia que a casa tinha ficado menor; eu queria tanto ouvir as palavras que destruía todos os espaços, todos os móveis, esquecia as cores e não perdia a atenção dos teus ditos. Mastiguei bem usando o lado direito porque o esquerdo da arcada doía, andava doendo fazia dias e daí mastiguei com gosto de alho, no lado direito incisivo. Não me importo, depois que já ouvi eu não me importo. Penso que você trazia dentro dos bolsos, do trabalho, trezentos fantasmas e por causa disso eu nem dormia mais, só dormia quando Augusto Pedro aparecia e me dizia que podia ser.
Nunca me habituei com esses seus modos de jantar como se pudéssemos beber todas as garrafas da casa, como se fosse educado bater o garfo na beirada do prato, mas o pior eram aquelas perguntas que eu queria te fazer mas não fazia, iam me comendo de perto, mais perto que o Augusto Pedro. Parece que não quis dizer a gente, é difícil... Você concordou, aquele trabalho dela na TV, as entrevistas, o que os jornais haviam escrito, as seringas e quem não ia morrer por causa disso? Às seis horas da tarde eu preciso ir ao banheiro trocar as calcinhas, lavo com aquele detergente próprio que deixa tudo com cheiro de loja de departamento, é bom a beça. Eu penso que Augusto Pedro vai chegar e acho que vou levantar e trocar a calcinha novamente, você não sabe. Pergunto do extrato do banco: microfilmaram o cheque, não te disse? Não disse, verdade? Verdade. Aquele rapaz, o de dois nomes augustos, me ajudou. Que rapaz! Avisei à gerência, lhe devo aqueles Cohibas que prometi. Concordei esfregando as coxas. Apaguei novamente os móveis, o sofá, apaguei a máquina de lavar da cabeça. Quando eu te conheci frívola...

Eu prestava atenção, quando ele me conheceu frívola... Você tinha esses teus segredos no bolso, essas pessoas, esses meninos do escritório que você esbarrava a mão na bunda e as meninas do escritório que você gostava de comer o cu, esses seus segredos... esses meninos de boné e grandes peitos que você olhava quando o carro contornava a praça. Esses seus segredos não me deixam mais dormir, faz dias. Eu só durmo quando Augusto Pedro me diz que devo. Esse gerente. Mastigou o suflé de legumes, desferiu golpes de língua pra tirar o resto dos dentes, rasgou a garganta bebendo água com gelo. Eu me sentia sufocada toda vez que ia à praça e via os garotos de boné, com peitos. Pareciam meninas, mulheres com grandes e rosas mamilos. Eu me sentia sufocada quando ia à praça das nove e meia às dez pra te ver, te descobrir e voltar pra casa, fazer teu jantar de hipertenso. Quando eu te conheci frívola... E você senta e coloca o garfo na comida e a comida some nesse seu focinho queu já amei. Às vezes me esqueço. Terminamos, quis levar as coisas, fui lavar na pia, quis ser perfeita nisso, quis Augusto pra chamar de Pedro, esqueci o pano de prato, o exaustor, as cortinas, apaguei desatenções e o garfo rolou pelo detergente até que caiu.


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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Regina Spektor: quimioterapia e limosines, 2004

"Chemo Limo"

Eu tive um sonho
crocante, crocante
Benjamin Franklyn apareceu e ficou de babá dos meus quatro filhos

Então no meu sonho eu falei com o médico
Ele disse: "se você não quiser fazer isso, não precisa fazer"
Ele disse: "a verdade é que você vai ficar bem de qualquer modo"

Então no meu sonho crocante, crocante
Benjamin Franklyn e o médico foram lá
e tiveram uma conversa com meu chefe

Alguma coisa sobre seguros de vida
eles mantiveram a porta fechada todo o tempo
e eu não podia ouvir ou ver

Então eles apareceram e disseram
"Você vai ficar bem de qualquer modo"
E eu sorri porque já sabia daquilo fazia tempo

Não obrigada, não obrigada, não obrigada, não obrigada
eu não tenho de pagar por essa merda
eu não teria grana pra quimio como não teria pra alugar uma limo
E num dia em que me for dado, eu hei de passear numa limosine

Não obrigada, não obrigada, não obrigada, não obrigada
Não estou a ponto de morrer pra isso
eu não teria grana pra quimio como não teria pra alugar uma limo
e, de mais a mais, essa merda está me deixando cansada
está me deixando cansada
está me deixando cansada

você sabe, eu pretendo cair fora algum dia
e eu quero sair com estilo
sair com estilo
essa merda está me dexando cansada
está me deixando cansada
está me deixando cansada
mas eu quero sair com estilo


Quando eu acordei
meus fillhos estavam quietos
Eu soube de cara que tinha sido um sonho
Eu liguei pra companhia de limosines

Então eu me vesti

Do mesmo modo, vesti as crianças
A limosine estacionou e nós entramos

O médico, ele perguntou para onde queríamos ir
Eu disse: "Senhor, vá simplesmente para oeste", e ele ouviu obedientemente

Sophie só queria ouvir a rádio BBC
Michael sentou no meu colo e sussurrou para mim tudo sobre os malvados
Jacqueline estava virando uma grande garota
com seu copo de chá, olhando pela janela
e Barbara
ela é bem parecida com a minha mãe
Oh meu deus, Barbara,
ela parece tanto com a minha mãe

Não obrigada, não obrigada, não obrigada, não obrigada
eu não tenho de pagar por essa merda
eu não teria grana pra quimio como não teria pra alugar uma limo
E num dia em que me for dado, eu hei de passear numa limosine

Não obrigada, não obrigada, não obrigada, não obrigada
Não estou a ponto de morrer pra isso
eu não teria grana pra quimio como não teria pra alugar uma limo
e, de mais a mais, essa merda está me deixando cansada
está me deixando cansada
está me deixando cansada

você sabe, eu pretendo cair fora algum dia

e que eu quero sair com estilo
sair com estilo
essa merda está me deixando cansada
está me deixando cansada
está me deixando cansada
mas eu quero sair com estilo
sair com estilo

estilo
estilo
estilo?
estilo.
estilo?

Eu tive um sonho
crocante, crocante
Benjamin Franklyn apareceu e ficou de babá de todos meus quatro filhos

Eu tive um sonho
crocante, crocante
Benjamin Franklyn apareceu e ficou de babá de todos meus quatro filhos


Sophie só queria ouvir a rádio BBC
Michael sentou no meu colo e sussurrou para mim tudo sobre os malvados
Jacqueline estava virando uma grande garota
com seu copo de chá, olhando pela janela
e Barbara
ela é bem parecida com a minha mãe
Oh meu deus, Barbara,
ela parece tanto com a minha mãe


Oh meu deus, Barbara,
ela parece tanto com a minha mãe


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