quarta-feira, 2 de maio de 2007

Outra de outra problemática

Nunca admitira que gostava de ter hora pra chegar. Abriu a porta num sentimento único de estar num lugar conhecido onde nada lhe aconteceria, nada de hostil que não fosse executado por si própria. Passando a mão na testa para tentar conter o suor, tirava os sapatos esfregando um pé contra o outro. Silêncio como aquele só encontraria ali. Um silêncio de carros passando e de música longe, música longe e ruído de gente que era um som que incomodava a maior parte do tempo. Não fazia questão alguma de estar perto de pessoas. Esperava delas sempre uma pedra na cabeça a qual responderia com um semblante chocado e resignado; pensaria: isso dói pra cacete!
Parece escroto dizer que sempre tinha sido assim, da mesma forma que a descrição do seu modo de viver é escrota. Certamente o é de fato. Imaginar-se num mundo onde se é a única própria companhia é um exercício mental chato a qual pouquíssimos se lançam de boa vontade: o restante foi com certeza atirado. Mas, escroto ou não, digo que vivia só e que quase podia dizer que gostava de ser só.
A acompanhavam, inanimadamente, no apartamento alugado à preço ridículo: os livros e a TV que nunca desligava e que nunca assistia. Também as tortas de chocolate distribuídas em pequenos pires largados pelo chão, na mesa de telefone, estantes e cômoda de sapatos. Telefone para que as pessoas pra quem nunca ligava, lhe ligassem e para compromissos porque pra viver ainda necessita-se trabalhar ou necessita-se simplesmente de dinheiro.
Amava. E já não se lembrava de como era sua vida antes que esse meteoro atingisse uma existência que passava desapercebida por toda existência. Casado. Mas, não que isso em sua opinião atentasse demais contra a moral, não fora sempre casado. Na verdade o incômodo maior era: amava a esposa.
Amava a esposa....
Atravessou os três(?) metros de sala e de carpete pra chegar na cozinha e abrir a geladeira. Fechou a geladeira e daí tudo ficou escuro novamente. É ingênuo achar que só um amor que nunca acontece a tivesse posto ali naquela cozinha escura e que cheirava a confeitaria. Pessoas perdem pais, filhos, irmãos, saúde, bilhetes de loteria premiados e último ônibus pra casa, mas permanecem vivas. Continuam vivendo e rindo de boas propagandas, coninuam normais, continuam votando e comendo as comidas que mais gostam e pescando. Ás vezes continuam transando ou se formam, desenvolvem fobias, compram móveis no carnê etc. O que havia de diferente então? Não sei, na verdade. Acho que algumas pessoas recebem tantas pedras na cabeça que, simplesmente, ficam loucas a ponto até de receberem pedras imaginárias na cabeça. Ninguém está lhe tacando nada, mas se sente e aí é como se fosse. E é.

6 comentários:

Deco disse...

Ela tem motivos pra se abrir pro mundo ?? tudo que acontece na vida dela soh faz ela se fechar mais !!!Quando ela finalmente se apaixona fica pior ainda pois eh rejeitada !!! ninguem tem uma força ilimitada, pra lutar pela vida. As vezes as pessoas lutam, mas uma hora vc sente que naum dah mais, e a unica solução eh (tentar) não precisar de ninguem em sua vida !!!

Feliz disse...

guardo os comentários sobre o texto pra um momento mais reflexivo!

*será q eu vou sempre ter q discordar dele!? rsrsrs (nada pessoal... ou melhor, virtual!hahah tosca!)

beijosss pra mente brilhante q escreveu esse conto e beijosss pro cara atencioso (embra desatento!) aí de cima!

Priscilla Santos disse...

acho que depressivos propensos não precisam de desculpas.... eles só se enfiam na lama e é só o necessário/útil/possível.

obrigada pelos comentários

Carola disse...

Uiaaaaa
adorei o conto.
sua suavidade ácida éh sempre maravilhosa Priss.
vc sabe, eu poderia falar e falar sobre esse conto, mas ele fala tudo por si e por mais que eu tenha mais motivos pra falar sobre ele, ele fala sozinho - hahaha um trava lingua.

beijos

Des[Construíram] disse...

Moça, me perdoa!
Quando vi tu não estava aqui. Digo, lá. Ah, cê entendeu!
Continuamos numa outra hora nosso interrompido "desafio palavral".
Vou ler essa tua ultima publicação e depois faço um comentário digno.
Fica na paz!

Boas maneiras [como você nunca viu, ouviu ou leu] disse...

Essa é uma diva, das decadentes divas. Amei.

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