terça-feira, 8 de maio de 2007

Não esqueça

E numa santa e canonizada noite, em que vi você e que achei que seríamos... Não fomos. Daí nunca fomos. E me inscrevi em mim mesma como se fosse necessário apenas meu medo e vontade de me estirar sob os estrados da cama - e alí ficar bem parada e escondida - para achar que o mal era eu.

De repente me bateu contra a parede. Tentava não pensar. Tentava não sentir as mãos sobre mim ou a parede fria. Dor. Era dor que eu tentava não sentir. Ódio. Incredulidade. E ele, e o frio, e sua respiração como de um bicho...um bicho.
Não era normal, não era de homem.
Com aqueles dentes frios na minha orelha, na minha garganta...
Por que? Por que aquilo estava acontecendo comigo? Por que eu não conseguia fazer parar?
Ouvi meio distante minha roupa rasgar. As mãos sobre minha boca pressionando ainda mais minha cabeça contra a parede. Ansiedade. Ele me tocou os seios como se... tinha certeza de que eu não podia escapar, nem fazer nada. Senti os dedos quentes e terrivelmente lentos sobre mim. E o hálito quente no meu ombro. Me apertava sob seu corpo e eu me contorcia. Eu só me contorcia. Suspirei longamente. Seus dedos que ainda me tocavam, me tocavam toda. Senti meu estômago revirando e a minha mente ficou incapaz de compreender tamanha...
Aquela parede, as mão e o prazer que sentia... Eu sentia prazer! Sentia! E sentia nojo de sentir prazer! De sentir aquilo. Meus pés tentando tocar o chão. A ponta dos dedos. Me abriu as pernas. Não! Lágrimas...
Puxava meus cabelos.
Eu via o escuro. Me tocava, me mordia. Tentei lutar. Juro. Tentei lutar. Mas eu era incapaz, eu não conseguia, eu...
Totalmente imóvel. Era um choque, era um transe... Ele podia sentir o cheiro do meu medo. E aquilo o excitava.
Suspirando no meu ouvido. Eu estava possuída. Palavras incompreensíveis num tom que me levava a um limite estranho. Dentro de mim os dedos dele, movimentos rápidos. Mais uma vez lágrimas. Dor. Quem estava ali? Eu estava ali? Eu não conseguia dizer. No meu raciocínio paralisado, tentavam se acender luzes de explicação. Precisava me punir... Respirava com dificuldade de tanto... prazer. Então ficava com raiva, mas era bom... Meus joelhos arrastaram na parede áspera daí eu gritei de dor, mas meu grito não emitia mais som. Palavras incompreensíveis... Minhas mãos espalmadas. Precisava fugir. Fugir daquele que parecia arrancar meu espírito pra depois me fazer acreditar piamente que eu era dele. Sim. Era uma revelação.
Eu não me possuía mais. Embotada.
Me virou. Eu não podia ver. Olhar. Eu nem queria! Não queria olhar pra ele, pra mim, praquilo, nós...
Olhei.
Eu ia distante... Não queria que ele abrisse a minha blusa, mas não conseguia evitar, solucei num sofrimento indefinido. Ferozmente ele sugava um seio, lambia indiscriminadamente, numa língua rápida. Eu era dele. Do meu... Minha mente lutava contra isso, não podia aceitar, estava num abismo... Tudo girava, achei que ia vomitar. Que tipo de ser eu era, capaz de desejar que aquilo não terminasse mais?
Raiva.
Tentei mais uma vez golpeá-lo. Senti-o então entrar em mim. Brutalmente. Meu corpo parecia tão leve sob aquela terrível força que era dele e era minha, e eu estava tão pequena... e não podia conter um desespero que vinha porque já não parecia que pudesse acabar e... Braços. Eu me contorcia novamente pressionada contra a parede úmida. Minha companheira... Não podia olhar. Arfar.
Ele parou.
Bruscamente.
Minha cabeça caiu pro lado. Relaxei subitamente. Um pequeno tempo de alívio. Respirei exausta.
Então ele aproveitou este momento. Exatamente este em que respirei num tempo de alívio. Um movimento rápido que me roubou totalmente o controle do corpo, ele me virou. Não respirava. Respirava? Quem? Se houvesse um momento indizível, era lá que eu estaria. O único lugar onde eu, pensava, seria para sempre virgem... Eu estava errada. Eu estava vazia. As lágrimas não rolavam mais. Eu não tinha mais voz. Achei que havia acabado, mas estava errada. Eu...estava errada! Ele não esperou. Sem gentilezas. Aquela pessoa desconhecida me transpassava com força. Mais uma vez, e mais uma vez, e outra. Novamente encontrei minhas lágrimas e meus gritos encontraram os caminhos pras suas mãos. Vestindo alegremente seu orgulho... Eu estava certa disso.
E aquele sofrimento era tão novo... Incontrolável. Eu ouvia seus grunhidos atrás de mim. Era apavorante. Me achei assim morta mas, por algum motivo, não estava. Lamentava. Suas mãos mais uma vez me procuravam, desgraçadamente.
Como podia?
Com a ponta dos dedos, alheios à violência do resto do corpo, uma tortura tão doce, aquele lugar entre as minhas pernas... e...
E inacreditavelmente... todo o prazer, toda dor, toda raiva e náusea se fundiram numa coisa só. Meu corpo respondia, eu não perguntava, ele respondia, e ia sozinho sem mim, grudado de mim, apartado sem consentimento e daí eu senti...tudo! E o corpo dele disse ao meu que...
Subitamente me soltou. Choquei com um baque contra a parede. O que...?
Ouvi um som de zíper, passos. Ele me abraçou por trás e me prendeu em seus braços.
- Minha garotinha... - ele sussurrou levemente - eu disse que nunca esqueceria minha promessa...
Com isso me conduziu cuidadosamente, silenciosamente rua abaixo e para o carro. Ele abriu a porta de passageiros e carinhosamente me fez sentar no banco. Entrou então ele mesmo em seguida fechando a porta. Olhou beligerantemente para o relógio do painel.
- Vamos chegar cedo em casa hoje... - ligou o carro e eu caí num profundo sono com suas palavras nos meus ouvidos: "eu disse que nunca esqueceria minha promessa".
E não o fez.

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escrito em abril de 2004 e modificado esta noite, porque reli e achei um lixo completo. baseado na história Don't Forget de Alekzander Sangekis (a quem nunca mais encontrei). epígrafe minha, baseada em mim mesma, em nada.

5 comentários:

Feliz disse...

Esse foi o primeiro conto da priss q eu li, quando eu li me deu náuseas, uma agonia estranha... misto de excitação, ansiedade, enjoo.
O mais legal nesse conto é a dúvida sobre a natureza desse relacionamento... minha interpretação é indizível para mentes não-rodrigueanas.

Como fui regulada da outra vez, não vou fazer nenhum comentário a mais sobre a natureza do texto. rsrs

beijos, gostosa!

Priscilla Santos disse...

te odeio!

Antonio Cesar Designer disse...

Impressionante... um tanto violento e doloroso. E está tão bem escrito que dá vontade de dar um tiro no cara...

Boas maneiras [como você nunca viu, ouviu ou leu] disse...

9x12358x
Esse é o telefone de um ótimo terapeuta.

Isabella Kantek disse...

Muito bom e a epígrafe, genial!

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