quinta-feira, 17 de maio de 2007

Laço

Já não falava dos dois, mal falava dela. Falava dos programas novos, do trabalho, da última coleção de algo. Estranhou. Já não enrolava mais o lençol nas pernas de forma obcena, não mais como antes. Começava e prosseguia, mas em movimentos irreconhecíveis quase de cópia pálida. Já não lhe dedicava músicas, nem poemas bestas, nem tempo, nem gritos, ao que ele imaginava: dez anos e para onde fora? Dez anos de uma devoção que parecia então multiplicar-se e derramar-se sobre os tempos como se infinito fosse. Finito era. Mas que revés! Agora a amava, a queria, queria que ficasse. Grávida. Mas já não era sua a mulher e menos a barriga estufada. Agora queria que ficasse, ficasse ela, o filho, até o outro. Matava o outro. Queria que ficasse. E de andar só tornara-se irreconhecível. Um divorciado. Um viúvo. Um órfão. Conformado porque sempre de amor desiludido conforma-se. Há contas, há cargo, há café, há carro com pneus que precisam ser trocados. Moças não haviam, descobrira-se inapto à praticidades, descobrira-se sentimental, irracional, doente, saudoso. Os sentidos da objetividades, da sociedade e de outros acordos dos relacionamentos de nossos tempos já se des-sentiam. Iria elogiar o amor, iria desproporcionar, iria usar de artifícios torpes, álcool, suicídio e exaltar o desvario do amor disforme, over. Iria chafurdar na mais densa e pública lama.

3 comentários:

Boas maneiras [como você nunca viu, ouviu ou leu] disse...

Estás me lembrando um texto rodriguiano do além mar

Carola Richardson disse...

^^

muito bom......

Feliz disse...

http://www.guemanisse.com.br/content/view/94/52/

é o q eu tenho a dizer!

não vou te perdoar se vc não tentar! rsrs

bjos!!!!

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