quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

entrepausa:


(escrito sob a morte de Thiago)


Assoviando a meio palmo da janela, a gente nunca sabe o que vai encontrar quando, depois de fazer o vapor, passar o dedo. Não sabe ou se sabe que os carros passam sempre diferentes, modelos, na rua? E eu gosto disso, cê gosta? Quando eu passo o dedo no embaçado; quando sussurro é isso, é vidro e vidro tem umas coisas...

de quebra.


Doutro lado (que vontade de escrever “do outro lodo”) outro parco, outro importe e aportes novos, diferentes dos que nunca aconteceram, mas que vão se desmanchar como tudo – não quero ver. (hot kiss on cold window), melhor vem ser o ar de garganta.

Assoviando a meio palmo da janela, eu sei muita música boa e inventada (boa), ouço três mil diferentes trinados, tudo delirado, nada acontecido. Eu fui ter amigos bem mais muito tarde, eu sentava embaixo da árvore e nunca houvia ninguém lá. E nem mesmo aqui esperando a hora dar (je ne regrette rien) recordo do que é que ficava pensando quando tava tão sozinho como os últimos desejos dum pão dormido. Esqueço dessas memórias como cresci quando nem tinha nascido. Reminisço apenas ter estado.



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img. par Luana Silense

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Clube do Coma apresenta: #2 nunca houve um beijo na boca

Terezinha, você que saiu no carnaval de 1968 vestida de Chiquita Bacana, você, Terezinha, que por causa disso seu pai deu uma surra e de manhã você fugiu na carroceria dum caminhão com cheiro de boi, de vaca, Terezinha. a roupa de Chiquita Bacana que a tua mãe lhe fez Terezinha e agora seu pai diz que a mão dói pesada, Terezinha, ele te espera na recepção, ele tá morrendo, Terezinha.
(Sangue de Coca-Cola)



a verdade é que Tereza não fala de si. falar de si é expansão e Tereza, essa Tereza... ela exclui-se das rodas todas entre os seres outros.
macabra, Tereza, acha que vai falar de mim e ri de mim. ri! ri-se. finge que não entende dos meus medos, finge que ignora se me exaspero...Tereza... não faça assim! uma preta tão querida assim não devia me querer tão mal pra tanta troça. penso em atirar primeiro, penso em denunciá-la, penso em matá-la e ela salta rojões enquanto passo minha mão lhe averiguando se usa calcinha; usa uma calcinha rosa. faço isso em agonia, pra dissuadir.

o clube do coma (coma's lonely hearts club) não tem orgulho, mas apresenta aos poucos que expectam essa coisa insignificante do ser, do ser ninguém. há mesmo é falta de divulgação, não falamos de nós. você mesmo pode estar aqui, nos deixe saber que você quer estar aqui porque fornecemos máscara à todos os que contam, todos que vem ver. assistiam aos beijos em silêncio, assistiam meus pedidos: silêncio. Tereza, Terezinha... você tem uma boca tão gostosa, malvada. vou contar aqui, desgraça, as coisas tuas antes que você desabe as minhas pressas pessoas com caras de papelão. Tereza é forte, é tão forte que quando peca, quando erra, ela não liga e não sei como meu Deus, ela não liga; ou ela finge bem, muito bem, que não liga.

Tereza sentada no saco de supermercado na beira da rua, querendo um pedaço de pão, uma rosquinha. sei que passou um carro, dois, na beira da rua vazia. Fica quieta que eu tenho aqui as pessoas e vou contar, vou detalhar que você tava fugida na estrada esperando carona pra onde quer que fosse e que isso só aconteceu mesmo foi na sua cabeça, você queria fugir e viver grandes aventuras, o que realmente nunca ocorreu. não essas aventuras que viram filme, Tereza, as suas são de outra natureza; eu me arriscaria a dizer que tão mais lindas, você devia falar delas, mas você esconde porque nunca ia se repartir com ninguém.
Casou-se cedo, num susto. Assim, ar todo pra dentro e (abismada), casou-se do nada em algum lugar de Resende. ela comia chuviscos (o doce, não a água), fazia chuviscos, vendia chuvicos. chuviscava (a água). Tereza achava que casar era o mais importante e que casar tinha de ser por amor; casou. pro espelho, declara que nunca mesmo amou. a coisa na verdade não começou assim.

Tereza vivia na casa com os pais e, numa certa festa de carnaval, foi vender refrigerantes. ela pequena com os irmãos pequenos vendendo coca na rua e as pessoas brincando carnaval. ela tinha especialmente medo dessas fantasias em que a pessoa coloca na cabeça uma tiara que é uma faca? num carnaval passado ela tinha visto e então não queria mais sair na rua, pânicada. enfim, tinha horror àquela tiara. passou um homem bêbado e perguntou dos preços, ela que ainda mal era nada mocinha respondeu e falou; disse. a mãe viu que o homem não comprava porque tava bêbado, mas sorriu. ele cochichou algo com a mãe e a olhou, Tereza não ouviu, nem entendeu, mas copiou a mãe daí também sorriu com muita educação. o homem sussurrou e ninguém ouviu. que? a mãe disse que podia. o homem tinha um cheiro mais forte que as próprias garrafas de vidro e uns cabelos grandes pro alto, chegou no nariz de Tereza e pousou a boca molhada dum fedor e baba. o nariz dela ficou molhado por aqueles longos demais minutos. depois ela sorriu, pouco mocinha, boa educação. Tereza olhou pra mãe que ria. Tereza olhou pro homem e cruzou na rua com ele outras 21 vezes pelos anos que vieram, em todas elas quis correr e quis matar, quis enfiar a cabeça no vaso sanitário; ficou com medo do homem pra sempre.

agora tava casada. não tinha mais o homem do segundo carnaval, nem o irmão que na cozinha se esfregava nela, nem o pai que antes de sair enfiava o dedo debaixo das saias e depois chupava, nem o amigo da mãe que lhe dava maiôs, nem o vizinho retardado que lhe cuspia na cara e depois roubava a bicicleta; a chamava "muito feia". agora tava casada.

Tereza chegou no Rio de Janeiro em épocas imemoriais, acho que Tereza conheceu Tia Ciata (de vista), Tereza comprava coisas na Saara quando tinham árabes na Saara, ao invés de chineses e coreanos - quem hoje ela observa com satisfação e compra sombrinhas prateadas por dentro. Dizem que Tereza trabalhou no Mangue, que fez ponto na praça Tiradentes, que frequentou o Real Gabinete Português de Leitura, que sambou na Praça Mauá e que teve medo da Barra. isso tudo é coisa de demonstrar que eu não me importo com o tempo, Tereza nasceu com nome com "z"e é de cor misturada. Tereza mudou-se pra Santo Cristo depois que largou do marido. Tereza morou em Santa Teresa e afirmo o quanto sempre se fez honesta trabalhando não sei em quê. Ela me representa o desejo, ela é maldita pelo desejo que dá nas pessoas. Tereza foi estuprada tantas vezes que nem pode contar, ela mal sabe ler (o que também finge). mora numa vila de 6 casas tristes que ficam felizes às noites de quinta e sexta, quando as pessoas poem as cadeiras na calçada e comemoram os engarrafamentos que fazem os ônibus desviarem ali pra dentro da rua. espera ansiosa o carnaval, gosta de se doar. gosta de amar como quem grita se jogando na grama pra não ouvir a notícia clara de que é tragédia.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

O Clube do Coma apresenta: premier de Suzana Flag

é um clube onde as palavras vão falar dentro de um porão escuro e vai haver as coisas ditas baixas. coisas que já são mesmo baixas. o clube vai apresentar. a febre...




o começo da cena é fácil de ser descrito porque é o cenário, e o cenário não tem nada dentro que não seja a si mesmo, branco e lento, feio e só, triste e próximo. branco atrás dos olhos, branco lá dentro do pensamento que ela costuma cruzar; lá fora eu pus teu palco escuro e arranjei um fósforo. acendi, apagou por causa do vento. acendi, apagou. acendi, traguei, acendi metade da ponta que apagou. acendi e gastei uns sete fósforos até encontrar o isqueiro nos bolsos da frente da bolsa bege. sentei no branco dos olhos, lá fora pus teu palco escuro: o que você vê é justo isso que é o palco e o teto baixo do teatro 30 lugares, nenhum vento, eu só imaginei, mas não abafado. é inexplicável, entre outras sensações, que os ouvidos fiquem com zumbido e o lóbulo quente. não, quente é a luz, a luz porque não sou platéia. explico: me vejo e a vejo. eu vou contar o que ela diz, eu vou assistir ela dizendo. os outros por perto (lugares cheios? lugares vazios?). ela vê branco porque a história não começou e o vazio disperso é como uma saída de ar tipo ar-condicionado central.
aqui fora, espreito, a cortina verde pesa em cima da madeira-tablado e a pessoa do meu lado tem o ombro direito suando, me roça e incomodo porque não gosto do suor dos outros. não devia ter vindo de camiseta.
agora o palco, ela acende o cigarro protuberante com o isqueiro. agora eu sei, é branco na luz dum milhão de watts brancos bem em cima do cílio: spot. eu não ouço nada mesmo a boca mexendo. o dente aparecendo e as palavras aparecendo e tudo silêncio como seu eu tivesse mergulhado no tanque lá de casa. o suor do ombro direito onde eu tava enfiada não me conseguia pensar ouvir, nada ouvia pensar, nada. ela fala e eu conto. (...tenho vontade de lamber a marca de vacina do braço esquerdo molhado).
o homem vem carregando a câmera entre as cadeiras improviso, uma dum jeito que de outro e tamanhos diversos. já disse que o teto é baixo e que tem um ventilador de igreja que ventila, não, não disse, não são importantes. eu levantei quando tinha de levantar, un-. eu de pé corri porque ia mostrar aqui nas linhas o que do palco havia sendo. cheguei e ninguém que assistia ficou atônito.
a platéia, aliás, quem é? eu nunca vi essas pessoas, nem as que não ocupam cadeiras viradas lugar vazio; não conheço esses vácuos de brisa dos que não vieram. eles vêem a câmera sendo levada calma. a rodinha do andor (andor) tropeçando nos buracos, o rapaz ou mão que leva ia pelo canto e - agora atrás da cortina muito pesada - coloca a câmera do lado dela, brutalmente perto como se fosse pra furar a cara. não sei como a luz chega através do pano.
o clube do coma reúne ou não essas coisas e essas pessoas e as coisas das pessoas e as pessoas nas coisas. acho importante que eu diga que não conheço todos os desconhecidos apesar de ser fundadora e colaboradora desse clube do coma. estamos abertos aos aficcionados pela miséria, anestesia do anestesiado, dor. penúria - foi isso discutido numa reunião de pauta. agora eu sei que é frio porque os ventiladores estão realmente desligados e o teto não é baixo, mas era o meu chapéu que comprei pensando em parecer a Sabina do Kundera. Amplitude dos 170 lugares (84 desocupados) e a luz forte em cima da mulher que, doravante, se fazia pessoa.
mas levantei num susto (percepção) e corri no ar extremo d'agonia como se fosse a hora de cortar o cordão do recém parido mas ninguém quisesse fazer o serviço.
a câmera perto, a cortina abriu, a luz duma lanterna porque o que acendeu foi atrás o cinema. a projeção. eu parei que vi a [inha] brincar de argola no filme passado atrás da mulher. tragou o cigarro forte num soluço do cadafalso.

Teresa me olhou quando eu cheguei no palco e a achei envelhecida. Linda, envelhecida. o que fiz ali? ninguém sabia. uma das fundadoras do clube do coma invadia o palco mais parda que a casa sétima. eu conheci, reconheci Teresa e ela ia contar, eu ia dizer e escrever, não podia! eu queria as coxas de Teresa com anos de idade. queria ela nova e feia, ou gorda, velha como rabanada na Páscoa. eu fiquei confusa embotada e ela ficou de olho pra mim. eu corri e me atirei pra Teresa, pro seu sangrado do carnaval. beijei a boca da Teresa sentada na cadeira nessa luz de lanterna, levantei ela, levantei a saia dela e ela fez justamente isso.... me abraçou e me disse no tímpano que eu era um peixe.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Coma sem título. Letra vista.

sem título
(não é perda se não fizer, mas , se clica duas vezes, a imagem fica maior)


terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Coma. 1º 2008: passanário

Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
Dance, dance, dance, dance, dance, to the radio
(ian curtis)

antes:
dormir na areia da praia e frio.acorda areia da praia que o dedo do pé inflamou, o vestido é curto você é feia na no preto (tinta?)embaixo do olho... e mais...

pausa lembrança:
te amo.
que assim seja!
querido, você realmente sabe congelar o coração de uma garota...

ainda antes. telefone e Fabrício misteriosamente atende:
pra onde você acha que vão os barcos de Iemanjá?
mas porque você me faz essas perguntas? ... acho que eles desmancham e afundam; o que fica inteiro, aparece em outras praias diferentes.
você vê pra mim até onde vai o barco?
vejo.

justo agora:

foto do nascer do sol pela janela em Vila Isabel, mas esqueci as pilhas da câmera em casa...

antes (pouco) d´agora. passanário:
daí o erro te-me enfeita o tempo feito acerto

domingo, 30 de dezembro de 2007

Monografia. Cirurgia. Coma.

5:19AM
a manhã tropical se inicia (e eu me sinto melhor colorido)


Oh my God! They killed Kenny!


e-mail1: (editor imaginário). já entregaste a tua eternamente inacabada tese?
e-mail2: (orientador imaginário). 21/12
pri, calma, ando enrolado. prometo responder tudo, qualquer hora. bjs.

diálogo inventado: eu (por que não me contou??)
psicanalista imaginário (o que?)
eu (que sou obceconeurostérica...?!)


Mas o que me faz ligar esse histórico peculiar às minhas questões, é o que nele faz destacar a experiência escravista brasileira como fundada na série de costumes legislativo-teológicos romanos e duma outra série de quadros mentais e sociais que definem a função e o lugar desses novos membros, inseridos através das restrições ao trabalho manual e ao conceito de limpeza de sangue: legitimação das hierarquias, vivência e sobrevivência do Antigo Regime, peça nuclear de nosso escravismo colonial e imperial.


Coma não-induzido. (aka: vígula não-induzida) não consigo mais. Imagino que uma boa assumissão é a de que...

"[. .]" me afunda
mas se eu não "[. .]", me vivo num morro.



Há de haver um guarda-roupas grande o suficiente onde eu possa viver, esconder, pássaros.


eu minto. quando não minto, eu fraudo. todo mundo agora vai descobrir.


picadas de mosquito. contabilidade final: 17
outros insetos: lacraia de tamanho médio-pequeno, morta à tempo

Estava escuro, mas isso não é o importante. Engraçado que à noite certas imagens que vemos parecem preto e branco, lá se pareciam preto, brancas e azuis. Verdes. Eu disse: está frio. Então fizemos amor.
a alegação de insanidade monográfica (nas normas da ABNT)

nós a perdemos...
onde? fica longe daqui?


:

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Monografia. Cirurgia, still life & pausa: correio sentimental

Em presença etérea
Correio sentimental pro meu cachorro:

Poodle de pelos cor champanha, 4 anos e 10 quilos, o Beebee está terrivelmente em busca de uma cachorrinha para relacionamento sentimental sério - ou nem tanto. Tem poucos vícios; é carinhosamente hiperativo e salta obstáculos de 1 metro de altura (por ciúmes ou por vontades incontroláveis). Como os animalzinhos subiam de dois em dois, quem conhece alguém, que conhece alguém e que conhece alguém que conhece alguma candidata?
... come on baby, light my fire
come on baby, light my fire

try to set the night on fireeeeee...


Será que aparece?

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Monografia. Cirurgia

Um pedaço


Outros uns pedaços
na carta rasgada

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Monografia. Dilatação: 35,8 mm



1. a [. .] nasceu comigo

se eU não "[. .]" , morro de fome


2. Tendo os princípios da misericórdia e benfazeja do cristianismo, as alforrias representavam tanto a utilidade da entrega do auto-governo, usurpado ao outro pela posse senhorial, como a utilidade de sinalizar o ente doador como observador desses mesmos princípios e assim identifica-lo na hierarquia dos desprendimentos, da comiseração e, até mesmo, da humilhação.

3. Não resta dúvida de que, assim sendo, o território da sexualidade era bem menos
privado do que se poderia supor, distanciando-se largamente dos padrões
supostamente vigentes nos dias de hoje. Ao longo deste capítulo ver-se-á que até os
gemidos de amantes ardorosos não raro podiam ser escutados por ouvidos
indiscretos, sem contar os encontros amorosos, as mancebias, pois todos sabiam
“quem andava com quem”. (VAINFAS, R.)

4. Pai-Natal
also-known-as . aka: Papai N o e l



flickr . orkut . lugar nenhum . obvious . technorati . ficha criminal


sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Monografia. Dilatação: 22,7 mm

enquanto escrevo ou almoço, algo assim. penso na ausência da escrita, nas mulheres (ela) sobre as quais eu invariavelmente escrevo e na ausência que percorre tangente as mulheres sobre as quais eu invariavelmente escrevo.
penso na exposição incontrolável, minha...dos outros... dos corpos. onde está o fim do exibicionismo (e/ou o começo?) e onde fica o começo (e/ou fim) de uma obsessão pela captura dos corpos? - principalmente dos femininos, tangentes: seriam a continuação em formato de pedra de tropeço, dádiva laço contradom (as vírgulas não puderam vir hoje). cortem os peitos da mulher morena.
escrevo de longe porque também participo das concretudes, no nascimento d'ela verkitschen não foi só delírios.
por que ausente? por que decadente? por que não escolhe? por que abarca nem trai?

vou voltar ao parto, espero que não seja prematuro, espero que o tempo espere, espero... de barriga.
escrevo sobre escravidão. 1844-1871. que encontros de proximidade entre senhores e escravos percebemos nas cartas de alforria registradas no Rio de Janeiro neste corte de tempo?

tirei uma foto, me lembrou as ausências e fui almoçar.

sábado, 15 de dezembro de 2007

dispersão: tentativa pras alucinações

sai...! da minha frente cambaleante des-esperada, mulher que nem escreve mais, mas nem diz. saltão na pedra portuguesa. eu brigo com você qu'eu amo porque conheci outro al...sai afetada, mente. justo você se apaixonar por todos cinco minutos desfazendo a ação do gostar na ação de dar. muito. temperamentos temperaremos com som de arrulho bêbado, trêbado. se era você menina, que gostava e como esquecer? se me trai, me esfrega colada, ex-finge-se. sai...!
desprezo neo-keynesiano e gastrite. te peguei em beijos, moça força puta, com outro aquele cara vende-dor. te dei ran-cor, cambaleante praça xv, e me diz sai, faz sinal (da cruz) pro ônibus. rudeza... chorava porque não me ama, chorava qu'eu insisti, chorava que passou e lembrança guardada ela requenta no micro pra achar que está fresca.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Tangerinas de Mulholland Drive


1997, sábado: ressonante
o cavalo desceu a rua com pressa e levantou pouca terra, corria no asfalto.
os dois sentaram um do lado do outro e não se puseram a conversar. não acreditava naquela época que se falasse em despedidas. ele passou correndo, o cavalo.
ela lembrou da noite e ajeitou o lenço na cabeça; fazia um dia forte àquela tarde. ontem o pai virou pra ela e parecia escondido atrás d'uma cortina verde musgo porque falou enterrado na poltrona: pra mim você já é mulher; o pai falou como se tivesse entregue não sei quanto na mão dela - que você não vai perder - e ela apareceu de repente na sala, antes nunca esteve. agora era gente ou uma coisa aparecida.
foi embora pra cidade no dia seguinte. o cavalo acompanhou a bicicleta por mais uns 10 metros e daí não deu mais pra ver se a vista alc...
se despediu dele batendo no sapato, nunca morou em sítio, morou em fazenda. era rica. beijou ele segurando ele pela cabeça e foi.

1989: orçamento
pode-se imaginar o que é nascer igual, mas não é sempre que se vê parir diferente. Analice esperou na esquerda do Reinaldo o médico chamar. a parede tinha uma prateleira pequena, um vaso pequeno e uma rosa sozinha dentro com água. artificial.
foi esse mesmo o exame que você trouxe?
foi.
você vai ter esse menino?
não. o pai esqueceu os óculos em cima da estante então ficou difícil ler o nível dos leucócitos. eu tenho uma filha, não sei se você sabe... mas não tenho foto dela aqui.
nascer é tudo igual, mas eu lembro que a minha filha foi embora e, eu sei, que se eu pudesse escolher eu ia ter minha filha toda novamente, porque não foi minha mulher que teve, fui eu. ela também disse que não quis. e foi com tanta força que morreu.
eu não tenho como criar.
Reinaldo mudo, ampliou o silêncio. na parede branca esqueceram a porta aberta.
Analice ajeitou o lenço azul na cabeça e sentiu vergonha do dono e do médico, do sexo. ouviam música da rádio que toca nos ônibus, tocava a atendente ouvindo. Reinaldo mudou de posição assoando a congestão.
eu tô com a barriga grande, doutor...
o pai não se afetou. tinha dito pra filha: pra mim você já é mulher. a informou, a viu os cabelos. ela o olhou no assombro duma resignação embora entrevisse melhor esquecer tudo e voltar pro quarto - repetir que ia fazer veterinária. mas ela foi pela manhã bem cedo porque foi bem mesmo ele quem a levou pro trem que não ia fazer voltar de volta. estudou cansado Ana e Alice dentro da barriga... Alice ia escolher, ia preferir morrer agora que ver a armadilha infeliz que não quis, preparada; estar e não poder prender uma pedra se jogar no rio porque Deus ia mandar pro inferno.
lembrou da atendente e pensou na música do rádio "ouvi você dizer / eu sou o teu amor?". ele passou a mão espessa camada de madeira na mesa e ordenou-se que não ia pensar que não ia esperar a atendente entrar na casa e deitar nua dele, ele, do lado dele. Zuleica lia nua na porta da rua com um cigarro na boca afeita, que grudava.

1978, quarta-feira: esforço
Reinaldo replicou os designos do Senhor: o salário do pecado é a morte. Então soube que o carro que bateu em 1978 levava dentro a mãe da filha do médico. Esqueceu dos quinze anos quando a mulher doida morreu dois dias depois que ele perdeu o cavalo égua correndo na nossa terra azul e molhada. a mulher, mãe, esqueceu-se na casa dele, pediu água e perguntou o seu nome, Reinaldo. mostrou o seio esquerdo na sala pequena longe de todos. ela beijou ele, segurou ele pela cabeça e ficou. esquecido sentindo que ela tinha uma boca e línguas d'ele enterrado no sofá vermelho de almofadas crochê, parede descascando. o ar passou pela boca e ele sentiu o peito, a língua e os dedos dentes entre as coxas de exatos quinze anos. o teto sumiu, voando misterioso como a sujeira entrando pela janela e o sol. ruído de disco de vinil. ele esqueceu o cavalo como se fosse o do forte Apache. viu pela TV. vil pela cidade.

2007, segunda-feira: previsão

Isabella sopeira,
vou tirar a tinta dos cabelos (é um tom de castanho claro, mas acho que simplesmente vai ficar castanho ponto fim). Beijos, meu querido tom de vermelho com cinco dedos de raiz.
volto já já. quero saber pra onde essas coisas de sentir desejo e escolher um vão me levar.
depois explico.
espero estar pronta para escrever uma postagem no Limão. ao que me parece é uma história que tem um cavalo passando, o médico conversa com a filha e ela se despede d'alguma coisa, mas ainda não me contaram o que é. vai passar umas linhas numa sala de espera de consultório e as pessoas se aceitam, a mocinha pobre está grávida enquanto a outra, filha do médico, escreve uma carta pra... quem? conte logo.

beijo

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Aspectos cansados do sentido

a demência, o slpeen..., as inquietações estranhas que o leitor preferiria não ex-
perimentar..., a culpabilidade de um escritor que rola sobre o declive do nada e
despreza a si mesmo aos gritos de alegria...
(Lautréamont)


para bruno e rafael

Passando pela calçada, disseram p'ra tomar cuidado. É sangue! Era sangue dos tiros. Mas passamos pela calçada em cima do sangue mesmo porque não era um sangue nosso, o que achei muito natural; ia ter de haver muita água dentro dos corpos pra se chorar tanta gente desconhecida. De qualquer forma, passamos na calçada e nem havia mancha nenhuma lá; mas houve, eu achava; sangue dum atropelamento. Os dias passam e a calçada desbota mesmo. É coisa do tempo, desbota e apaga que ali tinha tido muita tragédia, tragédia de cruzamentos e que iam sumindo um mais ou um menos.
Pensei que partíamos, mas só andávamos na calçada quase sentidos da pouca certeza que assim entre nós se estabelecia então. Maria não poderia se chamar outro nome se não não seria Maria, seria uma outra pessoa que não faço idéia de quem seja, Maria, se se chamasse Sandra, talvez fosse até parecida mas, por exemplo, se fosse Laura, ia ser outra sem o menor sentido. Maria se chamava Maria porque Maria é o nome de toda heroína de doçura resignada, retardada; já muito diferente de Teresa. Teresa descia o morro de Santa à pé porque achava desaforo pagar 60 centavos de bonde. Teresa tem umas coxas tão duras que eu queria morar numa casa feita nas coxas de Teresa. Teresa sabe ser doce, mas geralmente nunca é porque são passagens da rudeza da vida, igual a calçada, a doçura em fade in. Teresa nas histórias é sempre toda combatida (ou combalida?) e declara neste ato que gosta mesmo é de ser comida de quatro.
Mas não é de Teresa que íamos dizendo, mas de Maria.
Maria apaixonou-se, como já era de se esperar, e íamos todos passando pela calçada. Ele disse: reter a existência me empobrece a alma... Como Maria não tivesse mais nem um centavo e a alma já não lhe nunca pertencesse mais, chamou hipérbole e sacou o próprio corpo, atirou-se em baixo do ônibus vindo, imagino que por pensar muito forte que fosse Anna Karenina. Era assim de fazer tudo nos seus impulsos fracos, mas extremados, porque sentiu-se culpada por não saber fazer mais nada além de querer segurar o tantinho que tinha, não só daquele amor histérico, mas daquela razão calma que lhe dava sentido e identificava para além da inveja que sentia de Teresa, ficava feliz com ele assim de ser Maria por ser bem querida e cantada de tiara branca: nunca antes havia sido notada. Ele disse: isso é coisa que demora, não é assim mas, sabia lá ele que o tempo de Maria, ou o meu, de Sandra, Dita - não o de Tereza que não precisava de ninguém - demorava exactos dois segundos pra fazer uma hora? Ele escorria (o tempo), vazava e correndo no meio fio não há água que fique potável! Ela não pôde e o que fez, implorar, entristecia por gargalhadas a alma do seu rapaz que não a mais quis. My love grows more and more passionate and selfish, while his is dying, and thats why we are drifting apart.
Eu lembrava Maria, devia lembrar porque minha mãe constantemente me chamava assim, mas nunca realmente a conheci. Tinha sangue na calçada, mas algo muito insinuado já tão ido, alguém tinha caído e batido com a cabeça.
Eu segurei a sua mão um pouco aflita e disse: me segura qu'eu tô escorregando. Assíndeta nessas coisas imperiosas d'eu ter te conhecido... Queria ser a mulher do padre.

sábado, 17 de novembro de 2007

Tentativa pra Genalva: revista piauí

começou como essa história surda, de duas ou três pessoas, das poucas vezes que se pode sentir amar alguém por vício de necessidade inculcada de expandir ou chover, inundar o quintal, fazer molhar em todas as frestas da escolha pro chão. fazia-se pra vestido nunca nos sábados, às sextas de feriado. mas fazia-se como que pra vestido, base, rímel, sombra e batom se não virava, dizia, prato sem estampa.
versava um encontro imaginário e sério, com compromisso e estava no cinema; chegava meia hora antes dos filmes e esperava o encontro que tinha. acontecer. olhava alguém, homem, mulher, bilheteiro, tanto faz. olhava e via num gesto pupílico se era e se ficava espaçadamente. achava lugar na pilastra e outra, lá dentro da parede, na rua, buraco, levantava as saias, se havia pra beijos, pra mão, pra cabelos, brincos, inflava, passava a língua na boca, enfiava dedo e, às vezes, até tinha gozo todo pra si, dum calor creacionista. ouvia o olho dele, ou dela, unha, unha da mão. daí percebia igual num acorde despertino que era não, não era o encontro esse o combinado, a pessoa, era engano. atendia àquilo como se fosse ao telefone, não é daqui, ela ouvia na incapacidade auditiva (ou visual, não me lembro) ouvia que não era de lá e desligava. se fosse antes, tocava pra ver seu filme, se depois tocava pra casa, se durante, não há como saber: tomai todos e bebei.
no quarto tinha uma penteadeira branca parecida com de mentira, restolho das infâncias. se via funda pra si, piscava e escovava, lavada e apagada, renova. ainda não foi. porque chegava tarde ou cedo? era noutro lugar? ele passara e ela nem tinha apercebido ainda? grifou outro nome no cahier da programação semanal.
ele noutra escada, e a irmã: tu precisa é sair de casa, moço assim que fica escondido é credo. não valia, mas foi com os centavos trocados que correu pro trem, correu sem quase dar o tempo de perder o trem. chegou e não sabia se era o adiantado da hora, esperava e sabia o que olhava em volta e nada ali, tinha todo mundo entrando nada era ela: ela que era dele guardada. nem um pra pipoca. tinha jujuba comprada, jujuba de fruta cristalizada, três um real. os sufocos que mexiam pra se achar nos desastres das tentativas nuns lances dois e dois igual 7. corria ali na Cinelândia, voltou de ingresso ainda ou no bolso e quem tinha de ‘tá, não tava. passou no orelhão e girou disco pras tristezas que não se acertavam não, profundo e rápido pra ver se acertava a casa: Genalva, vem me buscar qu'eu to odiando.

--
originalmente eu escrevia pra mim, depois eu pensei em mandar pra revista piauí, por isso Genalva, vem me buscar que eu estou odiando. mas depois que eu pensei que podia ir prá piauí, pra eles, perdi todo o tesão. eu quero é limão expresso, genalva é uma estranha, foi um vírus.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Só no ano que vem

uma perda pra dentro - toda vazia - que a irrazão enche costumeiramente dos enxertos; lembrar do que ia, viajar pr'onde foi e entupir-se de cabou.
nessas horas aflitivas em que não se deve contar nenhum segredo, costumam bater à porta de algumas das trezentas moças de caráter duvidoso os estrangulamentos do vazio. dias em que não chove, mas faz sol.
de qualquer forma, não é difícil de estranhar que ela ou eu estivéssemos sobre a mureta, olhando pra baixo e vendo as pessoas passando como formigas lá longe. essas reflexões nos acometem quando o silêncio cresce e precisa sair nas contrações. lembro que, nas cartas emocionadas, Dita me contava do alívio que sentia quando os coágulos se expeliam. Segurando a folha, eu pensei - naquele instante exato, um caminhão velho e azul subiu a rua (quebrado) e as letras eram cinzas agora - pensei na dor que se sente antes dos coágulos ansiosos escorrem pelas pernas, como o desnecessário saindo e finalmente somos poesia sintética. balada de alívio.
Só que Dita chorou por meses e ainda chora porque não sabia se eram coágulos ou pedaços de lembranças que se perdiam sem que ela houvesse autorizado os esquecimentos.
Em cima do meu muro eu já não vejo mais tanta gente passando lá em baixo como formigas (ou formigas?). o sinal fechou. nunca quis que fosse de verdade voar. A outra perguntou: quem mais? Mas eu não soube responder. depois do carnaval, todas as dispersões destoaram e não pude pagar a conta da inspiração; resultado: o silêncio que é teu.
nessas horas aflitivas em que não se deve contar nenhum segredo, costumam bater à porta de certas moças duvidosas as virtude do castigo. como seguir as linhas se as prateleiras ficaram vazias desde aquele domingo? domingo é o dia das tragédias, você disse próximo só de si. Colombina em suas sem-bem-querências ouviu do moço arlequinal: eu o ceifarei. foi como se tivesse uma faca. mas esperávamos eu e ela, vimos tantas cenas bem depois do que dava pra ver, cenas completas, vielas, expectativas outras ordens num mesmo útero. eu também esperava, minha amiga. e não foi só dele. queria poder um dia te contar sobre isso.
relendo as pautas azuis da carta de Dita, as moças - agora irrepreensíveis - decidiram conhecer a rua de perto pulando num vôo infinito pela janela do térreo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Intermitentes para mulheres do lar e dos filhos

Ermentrude não sabia pôr em vivências os seus diálogos interiores e vagava em espaços reticentes com o vento descompasso. Ruas que já foram de terra percorre. A garganta seca dói porque guarda palavras amargas que tenta pintar de preto para esquecer. Desaparecer na noite escura e fechada. No local do sofrimento esfrega uma faca de cozinha e recita palavras encantadas com os olhos fixos no calendário de parede.

as insatisfações. ela escreveu e ficou pensativa também porque era a palavra que não saía da cabeça desde 1996, ou melhor, a expressão - porque o artigo definia os pedaços faltantes. tinha um olho que era meio fechado. todo mundo dizia que era normal um lado do corpo ser menor que o outro, mas ela via um lado incorfomado que tinha elefantíase. provocava florestas inteiras com gritos do alto e imaginava-se sempre ênclise, num balanço. via, primordialmente, pontes de pedra e olhava pra cima vendo a árvore que balançava (?) mas não houve alguém lá trás pra ela poder gritar mais forte; nunca tinha. se auto-dava impulsos e, imagina, que, com o passar do tempo e a vinda dos reumatismos, seria cobrada das pernas ao peito pelos impulsos diagonais: pelos enfrentamentos atmosféricos, gravi-tacional. o monitor olhava: as insatisfações. o cursor também piscava as ins . vinha depois o que? ...reticente, facultava ar pra respirar e casmurrava.
o olho menor fechou e aí ela teve um filho. tiraram uma foto no 1 ano - foi perolada nos sonhos. foi como se desprender, foi como sentenciar que ampararia, em todos os passares, com as mãos espalmadas. muito mais alto, forte, balanço, frondoso.



originalmente publicado como comentário em Ermetrude de Isabella Kantek (e trecho). se-me engravida...

domingo, 4 de novembro de 2007

De ser-se




de-lírios-rosa-cor-dela-ranja



sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Janis Joplin - kozmic blues

mas eu continuo
e nunca descobri porquê




Time keeps movin' on,
Friends they turn away.
I keep movin' on
But I never found out why
I keep pushing so hard the dream,
I keep tryin' to make it right
Through another lonely day, whoaa.

Dawn has come at last,
Twenty-five years, honey just in one night, oh yeah.
Well, I'm twenty-five years older now
So I know we can't be right
And I'm no better, baby,
And I can't help you no more
Than I did when just a girl.

Aww, but it don't make no difference, baby, no, no,
And I know that I could always try.
It don't make no difference, baby, yeah,
I better hold it now,
I better need it, yeah,
I better use it till the day I die, whoa.

Don't expect any answers, dear,
For I know that they don't come with age, no, no.
Well, ain't never gonna love you any better, babe.
And I'm never gonna love you right,
So you'd better take it now, right now.

Oh! But it don't make no difference, babe, hey,
And I know that I could always try.
There's a fire inside everyone of us,
You'd better need it now,
I got to hold it, yeah,
I better use it till the day I die.

Don't make no difference, babe, no, no, no,
And it never ever will, hey,
I wanna talk about a little bit of loving, yeah,
I got to hold it, baby,
I'm gonna need it now,
I'm gonna use it, say, aaaah,

Don't make no difference, babe, yeah,
Ah honey, I'd hate to be the one.
I said you're gonna live your life
And you're gonna love your life
Or babe, someday you're gonna have to cry.
Yes indeed, yes indeed, yes indeed,
Ah, baby, yes indeed.

I said you, you're always gonna hurt me,
I said you're always gonna let me down,
I said everywhere, every day, every day
And every way, every way.
Ah honey won't you hold on to what's gonna move.
I said it's gonna disappear when you turn your back.
I said you know it ain't gonna be there
When you wanna reach out and grab on.

domingo, 28 de outubro de 2007

Resumos imaginários da coincidência noturna anterior

mas, na verdade, será atroz o peso e belo a leveza?
o mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. o fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intrensa realização vital. quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
(Kundera)

parece difícil transformar em texto, e realmente é. intimidades elementares só pedem silêncio pra paralisias convulsas. desse jeito, não se sabe direito como me tornei diversa, como foi que quis te procurar com as mãos e vocalizar sentidos que nunca expressei. são todas imagens que, tão aproximadas, são muito turvas: te procurar com as mãos, os dedos e as unhas num movimento tão irreconhecível que dei passos pra trás. ineficiente. se eu escrevesse a palavra, escreveria num espelho pra ter coragem de olhar pra ele, em dizeres, dizer que foi um salto do desejo; suprimir o que até hoje me pareceu proibitivo. saltando pelas sacadas, prestando
uma atenção suicida, aturdi mil beijos pelo pescoço e desenhei quadris perfeitos para encaixe; não menti, quis estar infugível contra paredes. a impressão que se tinha dali era que o querer era vindo e era seu. era eu que te acordava, que achava hora pra parar os seus sonhos, que te procurava com as mãos, que te engoli nos seus sonos, que fiz cercos de língua e realidade como se fosse cafeína.
e o que mais havia de ser? eu bocejava e sentia os seus dedos em mim. eu reclamava mais cinco minutos e só o que tinha era o preenchimento de todos os vazios universais pelos teus dedos, pelos meus dedos, pela minha vontade de me esconder, pelo meu excesso de pudores. parece extremo mas, digo, é urgente que se saiba que você circunscreveu meus seios e que você me ladeou e que houve essa posse e que fui pelos cabelos puxados. violentamente estive devota.
simplesmente quis devassar, singelamente forçada, frondosamente aberta. eu quis joelhos, quis ponta dos pés, quis beber. transformar em texto parece fácil quando se você soubesse nas exigências que... podia mesmo ser todas as sonolências, se eu dormir, se você me morde, se eu te chupo; são percepções acetinadas do não comparecimento. parece corrente: li teu cartão pela vigésima vez. li teu livro. foi pela insistência da sua demora que me toquei.

sábado, 27 de outubro de 2007

Em partes dispostas: num tempo só

não tenho escrito... nada, nada não. acabei de pegar um papel e escrevi assim:

Afrânio vivia numa torre torta
mas nunca chegou perto Afrânio
vivia numa torre torta mas
nunca chegou perto Afrânio vivia
numa torre torta mas nunca
chegou perto Afrânio vivia numa torre
morta mas nunca chegou
perto Afrânio

eu não sei o que isso significa. só sei que acordei às 6 e trinta da manhã hoje e sabe quem me sabe bem o que é isso. sabe? seis e 30! essa semana foi chuva demais no Rio, muito cinza e eu não sei lidar com isso. não sou adaptada pra dias frios, passei a quinta feira inteira com a bota encharcada porque a minha bota é um enfeite, entra água. fiquei presa no Campo de Sant'ana e esse foi o acontecimento mais absurdo da semana depois das três horas parada no trânsito tentando chegar na Central. tu-do parado, foi um horror. e justo num dia em que eu estava felicíssima indo ler as minhas fontes documentais no Arquivo Nacional; estava com muitos planos, muito satisfeita por ter acordado cedo e estar na ponte meio dormindo (adoro o estágio de meio dormindo; é o melhor momento pra maioria das coisas. coincidentemente estou meio dormindo agora; dentre as coisas boas, não está escrever porque fica mal escrito, tomado de erro - uma duas...) ouvindo Radiohead (feel it.....!). isso foi na quarta, eu estava de sapatilha aberta mas..eu dizia do Campo de Sant'ana, pois bem; entrei no Campo assim que saltei do ônibus (três horas de engarrafamento) e, hipoglicemia, pensei em ir na Senhor dos Passos comer. mas a chuva alagou as saídas do camo e ficamos lá por uns 10 minutos na enchurrada eu, as cotias e um pavão agachado no laguinho. uma porcaria a câmera estar sem bateria na hora porque seriam lindas fotos, queria mostrá-las, mostrar-vos.
então, estive no Archivo Nacional e comi sanduíches com Coca-Cola morna - sem geladeira para consulentes - e li uma penca de livros cartoriais. Fotografei no segundo dia uma série de cartas de alforria (1840-1871) mas ficou um horror, acabei de ver; impossibilidade parcial. ainda preciso analisar o que extraí disso tudo. sei que fiquei muito chateada em alguns momentos com uma série de coisas; a principal delas era: por que sou uma retardada leve?
em casa agora, pós-monograficamente-orientada, livrada de livros, medicada e com sono - ainda houve seminário sobre teatro no Brasil 1940-60; expressamente: Nelson Rodrigues- vou me dar algum descanso e todo descaso, mais chá de acalmomila. depois escrevi umas outras linhas mas...bestas também. aqui está, é isso, postei e parece um blog.


à pé molha-da samba frio rio
rio sem motivo - absolutamente que motivo tem?
restinga das palavras lidas (ilíadas) sí-la-bas
que de sí-ludi nos ar-co-cine iris
arco sim na lapa
sou cantada sem sal bonita e depois rápido
moça, mulher, comida entre a cama e o espelho
bo-ni-ta
pra chorar no corpo de-delírio
assíndeto

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