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quinta-feira, 29 de julho de 2010

[OFF] Sobre o Twitter: da condição humana em meio digital, dos seus microgestos


Eu espero que os analistas de redes sociais, que o pessoal do marketing, que os latu senso em sociologia que trabalham nessa área estejam atentos à beleza da coisa toda. Não digo tanto dos sociólogos, eu confio minimamente que os cientistas sociais leiam quem deve ser lido e tenham o feeling de perceber a bela oportunidade de observação do comportamento humano que se desenham nas redes sociais; porque são modelos tanto isolados, reduzidos e nos permitem perceber coisas que ficam confusas e difíceis de apreender no macro - que seria a própria sociedade. Pensei em escrever, ao invés de "a própria sociedade", a sociedade offline, mas é justamente esse o ponto que eu espero estarem marketeiros, sociólogos, antropólogos e o diabo atentos: que não existe uma sociedade off e outra on, gente é gente e as relações, embora em meio digital, permanecem lá enraizadas na condição humana, nos sentimentos, psicoses, etc, se fundam no real.

Toda essa introdução é para comentar das reflexões que tenho feito desde ontem depois do
stress que se instalou - também entre a gente - quando o Rafael, meu amásio, deu um mass unfollow. O resultado foi desagradável e pedia a gente pensar sobre. Acho uma pena que meus colegas da área de história considerem esse assunto "redes sociais" uma bobagem. Imaginem que se eu chegasse para algum deles e dissesse sobre o quão desagradável podem ser as situações em torno de um unfollow. Por não considerarem parte do real, considerarem redes sociais como quando a gente brinca de Barbie e, tipo, não é real, é apenas a Barbie se arrumando para a festa, é a fala da boneca, não é a sua, é um faz de conta, uma manipulação de avatares, não acreditam fazer sentido que alguém se sinta triste ao parar de ser seguido, ou que parar de seguir determinadas pessoas pode te colocar em situações constrangedoras.

Estou falando, redes sociais, mas, já tá compreendido que estou focando no
Twitter. Acho o Twitter um lugar ótimo! Que oportunidade interessante de observar miudezas cotidianas, comportamentos e relações cercadas de aridez por todos os lados. Porque o Twitter é um meio sintético, não sintético de plástico, sintético porque é um lugar cheio de síntese, onde dezenas de palavras e reações podem ser substituídas/expressas por um #medo. Como nos comunicamos quando há um espaço tão reduzido para comunicação? Que novas comunidades linguísticas surgem nele? Quais são os gestos? Quais são os símbolos que só lá se compreendem e florescem, recriam? Por ter essa forma - micro gestos donos de grandes significados - é que considero os follow/unfollows como os momentos críticos nesta rede social. É neles que podemos apreender a dinâmica da própria rede o que é, por tabela, a apreensão do próprio comportamento humano. Juro por Deus.

Dizem que a moeda de troca do
Twitter é o RT. O que valoriza cada pessoa, ou cada empresa sei lá, é a sua capacidade de ser redistribuida, citada, multiplicada através da replicação do que disse. Quanto maior essa capacidade, mais influente é esta pessoa. Vejam, microgestos, grandes interpretações. É fantástico. E o que mais caracteriza um @ influente? Pois, é o seu número de seguidores. São coisas atreladas: o cara mais seguido tem maior probabilidade de ser mensagens replicadas e, quanto mais tiver mensagens replicadas, quanto mais influente, mais seguidores terá, enfim, é um ser amado. Todo mundo quer ser amado. Receber um follow é saber-se querido, nesse pequeno gesto, há a larga consequência do envaidecimento. Já o unfollow é o contragolpe do ego, é saber-se desinteressante, é ser desconsiderado, considerado desimportante, é perder a real moeda de troca, que são os seguidores, esse distintivo imediato, o cartão de visitas. Enfim.

Ontem fiquei refletindo sobre o mass unfollow do Rafael. Ele depois tentou se explicar porque fazia aquilo, conjurou nas entrelinhas aquilo de que o Twitter é o que o que você faz dele e o que ele queria fazer era um mural de feeds informativos, de música, de ideias, mas então você descobre que não é tão simples, que há vaidades, gentilezas e futuros contrangimentos em bares que devem ser considerados. Talvez ele pudesse ter feito tudo de outra forma, mandado um e-mail para as pessoas explicando tudo, que não era nada pessoal, mas a pessoa tem o direito de ficar puta e ele ficou puto de se ver preso na armadilha da impessoalidade, da relação entre avatares. Ele sabe que é relação entre pessoas e relação entre pessoas é um negócio que sempre dá merda.

O caso é que não há etiqueta para o Twitter nesse momento, digamos, traumático, do deixar de ser seguido. Se, como considero, esta rede se pauta em pequeniníssimos gestos repletos de significados, esse retorno negativo tão singelo, o deixar de seguir, possivelmente equivale a uma cusparada. Agora vocês vejam, eu gostaria de dizer "que bobagem!", mas o que nos escapa é que somos, interpessoalmente, patéticos. Então, se já admiti que tudo é pessoal então ferrou porque é uma cusparada mesmo, às vezes nem é nada pessoal, você só quer seguir sites de música, mas tudo é pessoal, como me ensinou o Manolo Florentino.

Não sei se existe solução para essa falta de etiqueta, não sei se haveria um modo mais
bacana, mais explicativo, não é que eu não te ame, só não quero assinar o seu feed. É fantástico os lugares para onde a condição humana nos leva. Espero que meus colegas estejam atentos à essa oportunidade, à esse microcosmo, essa aldeia indonésia que é o Twitter.

Gostaria de ter mais cabeça e constância e escrever sobre o assunto, debater sobre ele - aliás, outra coisa bárbara no
Twitter é que você pode emitir opiniões, mas, se eu discordar dela, fica chato, ainda não aprendemos a debater; o que é uma incapacidade crônica do país, Twitter é reflexo, tudo é pessoal. Mas não resisti a essa digressão. Adoro o Twitter, adoro o cotidiano e o nada absoluto do vai pra lá vai pra cá das pessoas: cortar o dedo, ir ao médico, parir, mandar beijo. O pointless me fascina. Acima de tudo, espero que meus colegas da história valorizem esses movimentos digitais e que os analistas de redes sociais tenham lido o Questões Fundamentais da Sociologia do Georg Simmel porque eu odiaria descobrir que estou gozando aqui sozinha.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Retomada: Sobre Pascal e fictionadas fictiones

Escrever não é nunca o caminho mais curto para ir de um ser ao outro; escrever não é mais que perversão e diversão, pretextos falsos e saídas falsas, atalhos, metáforas.
(M. Schneider, sobre Pascal)
Sim, é mera conversa. Mas por que é mera conversa? Porque, meu amigo, beleza, pureza, respeitabilidade, religião, moralidade, arte, patriotismo, bravura e descanso não são nada além de palavras que eu ou qualquer um podem colocar ou tirar como uma luva.
(Bernard Shaw, Don Juan, Ato III)

Me pergunto apenas - a la Borges - se não estamos raciocinado ao contrário. O reverso da história é nada. Creia-me.


Sobre o Pascal, foi perturbador. Como eu disse, fiquei meio ah porra (certamente porque me propus a traduzir) com toda a construção, o formato que o M. Schneider deu ao texto. Aliás, foi desse artigo que você comentou outro dia dizendo que eu ia achar interessante por abordar a forma? Sim, a forma me interessa sempre.

Nunca li o Pascal, quero ir ver o cara, quero ver que porra de bad trip foi essa onde ele embarcou e fiquei tentada a me identificar. Os tempos são outros, mas ficou impossível pra mim não perceber exatamente a ânsia de escrever e pensar. Sabe, falamos outro dia de que bom abrir o jogo, mas há certas coisas que eu ainda não abri. Detesto telefones, pronto. Falar pra mim é uma bosta dum sacrifício e que terapia ajuda? Aliás, preciso de grana pra voltar, tô decaindo. Discordo de você sobre que a química é que funciona melhor. Meu caro Basil, a comunicação falada e escrita já não te provam o suficiente a onda que causam?
Lembro duns dias tenebrosos que passei bebendo e sambando com um amigo. Ele diz que foi minha época de ouro e, de fato, jamais produzi como naquelas semanas fantásticas, jamais cheguei em casa sem fazer ideia de como e sem fazer ideia do que estava escrito pelos braços e pelas coxas - papeis de derme, acessíveis. Era existir de uma forma nova e ilimitada, eu fiz do português a minha droga catalisada pelo álcool, muito bem catalisada.
Detesto ter de falar porque esse nunca foi meu canal. O que sai é um engano mais completo que o habitual e o esperado, porque a comunicação é sempre um mal entendido. Quando escrevo, tenho a oportunidade de malentender menos.

Foi o que admirei naquele dia em que você contou a história da carona na chuva. Dizer escrito, isso é tão raro, momento realmente precioso e te agradeço, não vou esquecer.
Pascal deve ter sido desses voluntariamente mudos, que não suportam os erros grosseiros da língua imposta pela voz, costurada nas conversas faladas. Porque a mente não acompanha. Minto. Por dentro...

O estilo me interessa.

208. Toma consigo Pedro, Tiago e João, e cheio de aflição lhes disse que sua alma estava triste até a morte.
209 Se aproxima deles
210 Mas ou menos a tiro de piedra
211 Reza. 212 Rosto em terra.
213 Três vezes.

(Sequencia do Breviário da Vida de Jesus Cristo)

É cinema. Aproximação sussurrada, de zoom intenso em cima da cena, de desfocar, sabe como é? Cê capta o suor do cara e você sente o cheiro de dor que é o que me interessa. Isso é recriar no outro, leitor/espectador, por memória solidária, o efeito, a química, não sei se consigo explicar.

O que o pessoal lá não entende - e dizer não é meu caminho, não consigo defender nem o que eu amo, caráter fraco - o que não entendem é que literatura não é ficção. Por isso eu perguntei "e vão acreditar?" porque a maioria sequer consegue fazer a associação lógica e correta entre literatura, poesia e ficção. Literatura = ficção, e isso incomoda o Fulano porque aí não é história, é estória, é a metade pra trás do Negras Raízes. Fiction, story, carochinha. Fazer sentir de perto a memória da dor, do problema, do prazer - o que os recria em inegável verdade, memória presente, não apenas lembrança - é arte.

Igualmente incapaz de ver la nada de donde viene y el infinito en el que está ahogado, qué hará pues sino percibir alguna apariencia en medio de las cosas en una eterna desesperanza de conocer ni su principio ni su fin.

Odeio telefones porque aí já é covardia grossa porque eu fico ali sem ter nem um gesticular onde me fiar, não tem nada, fico nervosíssima, mas não tem jeito porque vou ficar sem o celular? Não dá.

Bem, preciso fazer as unhas.
O outro disse que se você me encher muito o saco preu trocar de animal.
Mais vale um cavalo que me derrube

besos
Pri

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email meu dito sobre "La melancolia de escribir", artigo de Michel Schneider
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