quarta-feira, 11 de julho de 2007

Visão do nosso paraíso

adendo inicial
eu sei, entendo que ninguém acredite que somos felizes. e não somos mesmo. o que nunca entendi é porque estamos rindo.

a casa de madeira
A casa era toda feita de madeira velha e os buracos tampados de barro. Hoje é difícil pra mim ou pra você imaginarmos como é isso, como é que moram em casa de madeira velha e barro, mas eles moravam, e os vizinhos moravam, todo mundo morava, inda tem gente que mora e quando o sol forte que era de tarde entrava pelas frestas, as crianças ficavam vendo a terra voando no ar, iluminada. Havia muita terra e que não era de ninguém porque estava voando.
A menina estava fazendo tranças no cabelo do meu avô como se a vida tivesse até paz: painho...o cabelo do sinhô é o mais bonit'do mundo. Isso ela dizia com a cara suja mal alcançando os cabelos brancos, uns olhos quase fechados, quebrados. Eram cabelos compridos e nunca entendi isso, mas ela diz que fazia tranças no cabelo do vovô. Seu Manoel Joaquim é cangacêro... diziam, mas ele não gostava. Irritava. Fazia mesmo era garrafada, era homem de trabalhar, não era do cangaço, se tinha sido não contava isso pras gentes lá, trabalhava e consertava tudo que precisasse do conserto. Ás vezes não cobrava, punha uns agradecimentos dentro do chapéu e todo mundo em casa passava fome.
Numa outra noite a vizinha gritava tanto que ele e a mulher acordaram já sabendo bem. Minha vó segurou o homem mas era tarde porque na noite ele já tinha derrubado a porta e arrastou o sujeito pela terra, que era também chão porque àquela hora não voava, e daí meteu com o pau na cabeça dele sem pensar muito. Só meteu com o pau até que tivesse tanto sangue que ninguém podia mais enxugar. Se a vizinha dava atenções de Madalena, se era mulher da luz vermelha, se os filhos não passavam perto porque a mãe gritava olha a rapariga!... Não quis notícia. Só meteu com o pau na cabeça do diabo até que tivesse tanto sangue que nem o barro das telhas e das paredes pudessem enxugar. Em mulher não se batia. Era um homem de trabalho e nunca fôra do cangaço naqueles sertões da Bahia.

visão do paraíso
a primeira vez que vi meu filho eu não vi meu filho, eu não vi nada. na primeira vez eu vi e era ele com uma cabeça quase do tamanho do corpo e os tubos que drenavam a água. acho que não gritei porque nunca grito. mas era lá eu, a primeira vez e era meu filho. que mãe animada! ele não tava morto. eu nunca mais tinha acordado.

3 comentários:

Carola Richardson disse...

Nha, o "adendo inicial" é uma verdade. que bom que voltou a escrever depois desse pequeno recesso.
maravilha ler e flutuar na sua poesia seja ela em qual "estilo" estiver.

Van disse...

Prill querida....... Quanta 'coincidência'!
Hoje mesmo, agorinha mesmo, me peguei pensando "Eu não sou feliz!"... Triste constatação. Espero que esse verbo mude e que SER vire ESTAR. E eu de repente acredite que eu não ESTOU feliz, mas um dia estarei!!! Um dia serei??? E me vem você, oráculo, dizer que não somos mesmo felizes...
........ "Coincidências"!
Beijo enorme procê.

Isabella Kantek disse...

Foi como se eu estivesse bem alí na sua visão do paraíso.
Que belo recomeço, hein!!

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