sexta-feira, 20 de julho de 2007

Feira e grifos

vendada
o que tinha mudado eu ainda não sabia. sei que estava na portaria com o cachorro (poodle cor champagne, porte médio) e a sensação de que tantas coisas estavam diferentes veio e me cutucou o osso do ombro. mais nada. meia dúzia de amigos meus não me reconhecem [mais] e outra meia dúzia me parece uma idéia desbotada pois, no fim das contas (parêntese: não sei fazer conta), eu me sinto sem graça demais pra procurá-los e pedir ou dizer algo. ano passado pensei nisso e concluí que as pessoas mais ou menos sozinhas eram assim mesmo. tenho doze amigos como naquele filme de 1939: são meia noite. metade de Paris está transando com a outra metade. as pessoas suficientemente sozinhas pra cacete nunca acham que estão suficientemente acompanhadas, sempre esperando aquela entidade específica que vai entender sua vida geográfico-historica num instantâneo segundo como nem a Polaroid ou a Nissin seriam capazes de proporcionar. às vezes com alguns até acontece como Jim e Pam, Ian e Debrah ou como eu e você, mas tem horas que eu acho tudo (todo) absurdo e me sinto sentada lá na portaria com o cachorro: poodle cor champagne, porte médio. mudada. e ninguém viu o processo¹ nem se interessou porque nunca convidei essas pessoas pra entrarem debaixo do meu estrado. me parece que você chegou lá assim mesmo e não sai mais. não faço esforço só porque adoro você masturbar meus pensamentos com poesia ilícita-idílica-etílica. mas é letal o nunca concreto.

mais grifos
oi! quanto tá o morango? ah.. dois reais. moça bonita paga menos. risos - vendedores... vai levar só uma? morango grande, bem vermelho! o pessoal vai reclamar... vai nada! vou acabar comendo sozinha. quero aquele alí. olha lá, hein... depois vai ser uma correria aqui na barraca, vê só. pode deixar, se eu gostar eu volto pra buscar mais. vai gostar e vai voltar! risos. sol, imensos morangos vermelhos, frio e casaco. mas o amor... o amor vai nos separar novamente, se anunciou no meu ouvido. tem escolha que é fácil.

a car crash
foi assim, sentindo entre os desconhecidos uma dor desconhecida, que me entreguei ao que já era meu sempre e concluí que tinha vergonha do grupo genocida-indecente. assomou-se a vontade de gritar. daí gritei e foi como se eu não pudesse parar. quando ele me olhou com os olhos psicóticos e levantou a mão pro tapa, a minha cara se atirou satisfeita. a ideologia descobre a verdade e a rarefaz num medo triste de reações tristes, voz violenta malvada. todos cantam. mas a minha cara se atirou satisfeita, quase voou...me entreguei ao que já era sempre meu. nunca me senti tão católica, tão mártir.

os assessores, bilhete
minha mãe já passou dos sessenta e falou baixo: que feio!
quando minha mãe, que já passou dos sessenta, fala "que feio", é porque tem uma compreensão filológica da palavra que as andanças da língua já desbotaram.
feio... melhor é nem olhar. cruel.
mas a gente vê o homicida que limpa a boca e diz não ter parte nisso.
é mãe... é feio. mas não vai ficar assim. não é revanche. é lincença poética metafísica.

--
¹ou metamorfose

4 comentários:

Alessuza Pires disse...

Sabe, a verdadeira coisa sobre estar sozinha e se sentir solitária está em saber aproveitar. Não é necessário sentir solidão apenas por estar sozinha. Quantas pessoas não sentem que precisam de um tempo só para elas, apenas porque essa mundo louco no qual vivemos não permite que elas terminem ou sequer iniciem uma única linha de pensamento.
Acho q a solidão se deve somente a não saber aproveitar a sua própria companhia. Não me leve a mal. Mas muitas pessoas não sabem fazer isso. E, se quer a verdade, apenas agora parei para refletir a respeito.
^.~
Beijocas de Chocolate

AP disse...

Oi, gostei muito do seu blog. achei seu texto bem intrigante. Me fez pensar... Beijos!

Priscilla Santos disse...

alessuza a questão aqui não é essa. é tipo aquela campanha fascista do governo, mas é um quite diferente: aonde você guarda o seu autismo? é isso.

Van disse...

Ai, querida......
Eu juro que tentei me concentrar nos escritos (os teus são SEMPRE maravilhosos) mas eu PAREI NOS MORANGOS! Eu li tudo, mas o comentário é sobre os morangos....
Não tem jeito. A minha ligação com morangos supera a minha ligação com qualquer outra coisa! Quer dizer, nem todas. Algumas são intimamente relacionadas... hehehe

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