sábado, 31 de março de 2007

Da espera (um outro caso)

Não sei o que tenho, só atraio gente esquisita. Não sei porque acabo me envolvendo. Tenho bom coração... Não entendo os homens... tento ajudá-los, mas não entendo. Seu padrasto é outro caso. É tão estranho... claro! Como escritor...e americano. É bom de cama e muito sensual... Hoje ele me chamou e eu vim, achando que ia dar uma trepada e veja no que deu: aqui estou, maquiando um cadáver.
Ok, gostei de você, não me incomodo mas... agora não sei se vou transar ou não.
(in Kika, de Almodovar)

Então fiquei ali sentada, com a minha cara impaciente de sempre, olhando a cidade pela janela, batendo com os dedos no queixo. Então não iríamos transar. Tudo bem, aquilo já tinha ficado bastante óbvio; eu junto da porta, vestida, calçada... você continuava estirado no sofá - seminu - e lendo. A questão que me corroía não era aquela, era que você parecia estar agindo como esses caras que juram que a mulher está louca pra ir pra cama com eles... um absurdo você ter pensando isso! Tudo bem... tudo bem..eu confesso que exagerei quando arranquei o jornal da sua mão só pra que você me desse atenção, isso foi maluquice... Daí, como eu te disse, detesto agir como uma mulher histérica e, por mais que você me diga que todas as mulheres são histéricas - e essa teoria não é sua, mas do Nelson Rodrigues - eu não aceito porque a Condoleezza Rice não é histérica; "mas a Condoleezza não é mulher", dissemos eu, você e o Arnaldo Jabor. Levantei e fui pra junto de você, sentei numa almofada e falei sobre algum detalhe da minha vida, mas então comecei a rir porque não conseguia me lembrar porque tinha começado a falar aquilo e também porque fiquei nervosa. Tentei te explicar isso mas também não consegui. Você ficou com o livro parado no ar e eu me perguntei por que diabos você não estava vestido. Então você prestou atenção no que eu disse, mas não entendeu o própósito já que, como eu disse, fiquei lá rindo e tal e não expliquei. O que na minha mente gostaria de ter explicado era que algumas pessoas passam por certas coisas que as deixam tão abaladas - e a todos ao redor tão chocados - que só lhes restam duas opções: o suicídio ou a aceitação. Como Darwin me disse naquele carnaval em Galápagos, o instinto de sobrevivência acaba ganhando quando não se trata dum cara maníaco depressivo, então estava ali eu - por enquanto. Outra coisa - a principal - era que, na verdade, eu não dava a mínima pro fato de transarmos ou não. Ok, confesso que passei a noite inteira esperando o dia amanhecer pra transarmos, mas já estava conformada.
Então a campainha tocou e você foi correndo se vestir, atender...era da farmácia, entregando o analgésico.
Fui à pé pra casa logo depois sem te dizer que só queria que ficássemos ali: eu sentada junto da janela, com certa cara de impaciência e você lendo com toda atenção, seminu, mas desejando secretamente que eu me fosse. E não ficaríamos sozinhos.
Em
casa, acendi um cigarro junto a porta da varanda e a cidade estava alí, de carros frequentes, música e crianças com cafifas. Acendi um cigarro e observei toda a cena, folgada, com pouca roupa achando que o tempo já não estava tão abafado quanto ontem porque às vezes ventava. Acendi um cigarro e descobri que ficava deprimida quando fumava.

4 comentários:

Feliz disse...

q foda pris! é incrivel como vc consegue perceber e traduzir sensações qse cotidianas. Parece uma cena simples, normal, familiar. Gosto disso!

vou parar por aqui, já fui muito além do q minha insegurança me permite! Aliás... seu blog é um tanto privilegiado... eu demorei um tempão pra postar no fotolog do bruno e vc tem comentarios meus aqui desde a inauguração.

beijossss

*gostosa!

thiago kerzer disse...

É interessante observar uma cena como essa sob uma perspectiva feminina. Muito bom texto. Acho que todos passam por coisas assim na vida. Principalmente para as pessoas com quadro maníaco depressivo crônico, o suicídio ou a arte acabam por ser mais fortes do que o próprio sentimento de sobrevivência. Se n fosse a arte (essa puta que n me dá nada, só me tira) eu já teria saído pra fazer cooper em outras dimensões...
...ou n.

flavia disse...

Tenho apenas duas coisas pra dizer: um blog é pouco pra você.
Prometo que se um dia conhecer um editor famoso te indico na hora.
Beijos e melissassssss
Diva

Gustavo Santiago disse...

Você escreve bem, é detalhista e sabe o que o que realmente sente.

lindo.

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