terça-feira, 21 de agosto de 2007

Fatos casuais (início)

N. do A.
O Seven me desafiou esses dias a escrever sobre 7 factos casuais. Nada mais agoniantemente impróprio pra esse espaço. Nada mais aventuroso e alucinado que a praticidade mecânica dos acontecimentos; o normal ficou descarrilhado (meu)... o resultado é este é a escrita tão aleijada e eu queria se explicando bem melhor. Fazer o que? Paciência.

a vizinhança das casas coladas e escadas: vila
1. No portão do condomínio costumam ficar os senhores, não mascando fumo, talvez discutindo política: sempre olham mesmo são as moças - tantas - que passam entre um conhaque na padaria, outro e o Jornal dos Sports. E é sempre o meu bom-dia tentando descolar os lábios do aparelho dentário. O sorriso especial pro senhor atormentado pela esposa que jura todos os dias que ele vai morrer amanhã. Não que ele seja todo simpatias mas é guardado o bom dia, boa tarde, boa noite, comentário do sol que ele aproveita encostado no muro ou alguma brincadeira sobre o que foi que eu esqueci dessa vez.
Eu aprendi a andar de bicicleta na vila; sei que dormi e sonhei que andava. No dia seguinte peguei a bicicleta velha e vermelha do meu irmão e simplesmente subi e desci a ladeira que é a vila. Tava de manhã e aquele sol azul absurdo com mais ninguém olhando... Foi assim sempre depois. Subo e desço nos bons dias, as crianças , os cachorros, num lugar tranquilo, minha casa marrom e a inapartável preocupação dos lábios não grudarem no aparelho toda vez que sorrio..

pra mais tarde
2. A hora de acordar é 10:00h. O relógio, é só entrar aqui em casa, leva cinco minutos pra completar meia hora e, dentro dos óculos desaparecidos ou da minha eterna insistência com o espelho (não seja feia Clementine, seja bonita!), estão o ônibus que não aparece, um assalto, uma sandália arrebentada, uma música ou um curto-circuito... dizem: a Priscilla sempre tem uma história triste pra contar. Sou sempre como o Mohammed Malah (o cão) que, certa vez, ficou preso pela bacia no portão elétrico de carros. Uma insistência, Malah, um otimismo de que vai dar tempo, de que chegando às 6 tá bom demais.
Nunca cheguei cedo, nem na hora, só se for engano. Nem no meu parto cheguei à tempo e foi mesmo cesária. Nas exigências, está lá a falta; eu. Desaponto, desconfiam.

sacramento
3. Foi numa aula de sábado, catequese e eu escrevi no quadro as três condições para o pecado mortal:
a) matéria grave - ferir um dos dez mandamentos
b) consciência
c) liberdade
a Robertinha levantou as mãos simpáticas mas nunca deixou o lápis desalinhar com o caderno à mesa. Tia, consciência é a mesma coisa de saber? É sim Roberta. Se eu não sei não é pecado? Exatamente. Puxa, por que a senhora tá ensinando pra gente?
Nunca respondi e meu silêncio vai agora. O que eu não saberia explicar era que não há moral inata e que a ciência não consola a mãe que chora (isso me lembrava sempre o Eça nos passeios à Sintra). Não quis mais as atividades e uma mágoa aqui ou lá sempre fica. Como ficou também o doce sadismo dos dias sacrificados que agora são meus de nenhuma forma e todas elas. E é toda vez alguém que para na rua e pergunta quando é que isso volta... sempre as senhoras carinhosas. Costumávamos rezar o terço acompanhado pelo violão. Nos meus dias Ele continua lá como se eu O tivesse enterrado e deixado uma perna de fora - não imagino que haja uma pá suficientemente grande pro serviço. Ora, Deus, quase na hora de dormir e meu sentimento é laico.
--
imagem: alice no país das maravilhas - manuscrito


5 comentários:

alex pinheiro disse...

Tenho andado trabalhando
Ausente por um "enquanto"
Visito agora um limão expresso com tanta coisa pra ler que meu tempo, doado ao capitalismo, me impede de atualização, rs

Estar pra mais tarde foi quando eu me diverti um tanto, rs... diários são quase sempre engraçados

Se não sabemos não é pecado,,, aiaiviw! essa "robertinha" tem tanto de mim, rsrs

Bjs e outras(4) invenções! (rs)

Van disse...

Uia! Que lindo tudo....
Adorei!
Sempre esse teu estilo marcante e nada óbvio que eu adoro!
Sou sua fã mesmo.
Beijuca

Isabella Kantek disse...

Muito, muito bom! Releituras:

O relógio, é só entrar aqui em casa, leva cinco minutos pra completar meia hora

Nunca respondi e meu silêncio vai agora. O que eu não saberia explicar era que não há moral inata e que a ciência não consola a mãe que chora

Ora, Deus, quase na hora de dormir e meu sentimento é laico.

=*

Anônimo disse...

Muito bom, Pri; muito poético, como sempre. Aguardo a continuação... ;)

seven

Ana Luiza Paes Araújo disse...

quando eu penso que vc não pode melhorar...

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