terça-feira, 11 de setembro de 2007

O morto (still life)

Eu ficava sufocada no Barão de Tefé, tinham aqueles vidros parecendo almofada, o sol batia e o hall ficava entre os mais decadentes, até em dias de chuva... Contava as moedas e separava umas quatro pra sinuca, tinham de ser quatro, se não desse, completava lá com quem fosse porque homem naquela epoca ainda não tava em falta. Depois da escola (isso foi bem antes) eu passava o pé na rua, o calcanhar mesmo, fingia de ralado, ás vezes sentava o joelho inteiro no chão e ia pro Servidores chorar pros médicos porque achava tudo muito limpo, mesmo a comida de sal dos doentes. Puxei uma toalha de dois palmos de dentro da bolsa e tirei o suor da testa pra espantar o sufoco do Barão de Tefé, olhei pros vidros e pensei que não serviam nem pra retocar batom. Passava a mão no quadril e não achava mais nem uma nota mas pra lá não ia voltar e ele era um moço pouco curvado, ia ajudar, tinha levado um pacote de sopa em pó e já jantava pensando nos quatro dias de antes. Pai.. vai tomar um banho e, numa limitação hermética, coincidiu as casas do botão que tavam erradas e voltou pra dentro o pai, diferente da sopa que agora queria sair pra arejar, pra saber se era verdade que o mundo todo era um cheiro só de suor guardado, cimento e marreta de bater pedra. Fiquei clamando o elevador uns dois minutos até ele aparecer e disse denovo que não ia voltar hoje até que deu o sinal de térreo e ele apareceu atrás da madeira e da grade também acendendo cigarro de dois de mais nervoso e mais calor que a quentura q'ueu sentia. Depois continuou lá mudo, eu querendo entrar, você mudo e dois cigarros juntando cinza: não saía. eu vou pro 3, você informou igual uma balconista e eu perguntei qual três, nem sei de onde. Pra que quer saber, e ela até cuspiu mais do que o planejado. 306? Pombas mas a vontade de fugir parecia vontade de sair correndo e fazer xixi, ia embora, decidiu que voltava e voltava porque precisava fazer xixi e porque não sabia ficar dum modo direito, tinha medo de homem, se arrastava pra todo lugar por causa do gosto do suor velho que tinha ficado na camisa. Mais a sopa. Ele teve apendicite mas vim avisar pra você que podia precisar dumas notas pra Coca-cola. Não vem? Eu fiquei com os olhos tão cheios de água que não sabia se era alegria, tristeza ou era o pensamento já na Coca gelada. Pegou o embrulho pequeno e voltou pro armarinho, vestiu o avental e foram os dois cotovelos pro balcão esperando dar as sete com a chuva caindo e enchendo. Credo, tua morta! A outra sacudiu os dedos dos pés e continuou. Não voltava mais no Barão de Tefé, não ficava nunca num namoro e assim tava bom também. Acho que quase oito meses depois meu pai foi pra gaveta de concreto (foram partilhar) e o corpo não me largou nunca mais porque eu era eu e era ele que nem bucha vegetal tirava aquele cheiro do gosto do morto, de água, de pedra nem de pó de parede.

4 comentários:

Ana Paula disse...

Teu texto é vertiginoso... Adoro!

Kutia disse...

Oie mocinha, obrigado pela visitinha ao meu blog. O seu ta muito legal. Beijosss :*****

Ricardo Rayol disse...

você é supreendente, e a ana paula disse bem, vertiginoso.. como uma montanha russa

cind canuto la la la disse...

você já leu still life surreal que saiu num suplemento literário por aí - provavelmente não nele - tenho certeza. mas se não, não e se sim, ótimo

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