domingo, 16 de setembro de 2007

Ato contínuo do morto

1
colocou o copo dentro dum pires de plástico que tinha e provou antes pra ver se tava bem misturada, fresca. a água! tá boa? ótima... não precisava de pratinho. e bebericou com os olhos arregalados olhando, não se sabia porque. pensou que era o teto. vai, anota. ela pegou a conta da light e continuou escrevendo três claras. onde tá escrito anis, coloca essência de baunilha porque vai dar certo do mesmo jeito, deixa eu ver aqui... que letra é essa? m? eu não entendo os garranchas da Aura. aqui... é m, é m. a chuva entrou pela porta aberta e a água que escorria da calçada ficou em cima do chão com um palito de picolé da rua, junto com ela entrou o pai com sangue na cara e os dentes que ficavam caindo no lábio.
pai!
tá pegando.. tá pegando... caí... caí da caixa d´água..

e eu fiquei olhando pro rosto dele quase preto com sangue e molhado e a testa fugindo pra lá e pra cá perdida. achei tudo um pouco estranho e a gente foi pro Souza Guiar até que o meu pai morreu querendo fechar um registro verde.

2
ficou lá em frente da porta chupando o cigarro como se tivesse tomando vitamina de abacate no canudo. pensou na história do apendicite e que salvava um casamento porque não era amigo da onça. dava uns trocados pra menina, ia pra casa assistir a novela e dormia o feriado todo. Gonçalo tinha arranjado uma prostituta. Na Gamboa só nascia prostituta e manicure naquela época, mas o Gonçalo preferiu uma prostituta da Gamboa que não era bonita mas ia lá que ele dizia que era sem ninguém, nem pai, nem mãe porque era um estúpido muito conhecido. Tinha levado sopa em pó certa vez e não se achava canalha porque tinha roubado da dispensa. ela não aparecia, passava das cinco e meia, Barão de Teffé, 306, e tinham umas bandeiras de países na fachada, já ia quase embora e topou no elevador. deu os trocados, contou do apendicite, foi pra casa e viu novela com a mulher. Elisa tinha uma mancha estranha no pescoço, uma vez no bar chamaram ela de malhada e agora a sua mulher não era mais Elisa, mas malhada pros amigos, pelas costas dele; às vezes pelo lado e ele fingia que não ouvia enquanto rodou a última folha no mimiógrafo.

3
mas ele tá bem? tá... tá bem. ela embrulhou o estojo de agulhas e puxou o peso de durex com o cotovelo, tentou cortar a fita, esticou demais até a segunda vez, que deu certo. ele pagou, ela deu três balas de tamarindo de brinde, ele agradeceu e ela mandou melhoras se chateando depois consigo porque ria sem querer, ria sem vontade.

4
turco filho da puta! uma menina minha e eu achando que você era como se fosse meu irmão!

5
arrastou o peso de durex com o queixo e segurou o embrulho com uma mão só, puxou a fita e cortou. pensou que a desventura era o acaso da aventura mas que queria mesmo era rir agora, não rir amanhã ou ano que vem lembrando do que de ruim tinha sido, rir no ato contínuo. ele pagou, ela estendeu duas balas de manga ou laranja (os dois pacotes eram amarelos), ele bateu a mão no botão da camisa, ela agradeceu, ele deu boa tarde. quatorze dias depois ela atravessou duma rua pra outra e ele puxou ela pelo braço e deu um beijo com a língua que parecia que a mão dele ia entrar direto no sutiã, quase entrou dela chegar em casa com tanto engasgo que teve febre pensando que a mão devia ter entrado.

6.
Eu queria tudo diferente... às vezes eu acho que esse cheiro não vai sair de mim e do cabelo. Isso me espanta em você, e acendeu um cigarro, foi pra junto da janela exatamente quando passou um Maverik vermelho escrito vendo raridade. Te espanta porque não precisou comer os ovos empanados do boteco, o moço me dava até um refresco de graça, junto com ovo... ovo cozido empanado, ovo à milanesa e um refresco bem ralo de maracujá. Só queria tirar o cheiro de peão de obra. Não sinto, nunca senti, não gosto de você assim. Riu de novo. Ri... ri que eu te prefiro, ri até com os dentes, Clarisse. Ficou d'um sussurro que se estendeu fresquinho pela sala e puxou uma mecha de cabelo dela com outros dedos da mesma mão de cigarro; prefiro você Clarisse à Macabéa.

6 comentários:

Cristiane Martins disse...

Uma ótima semana amiga.
Mais uma vez me perco entre teus escritos que me parecem tão ilogicamente perfeitos e em seu devido lugar.

Francisco Filardi disse...

Passei por aqui para ler as novidades do Limão, ok?
Visite Intervalo Cultural:
http://intervalocultural.blogspot.com
Bjão!!!

Allan disse...

Esqueço de trocar o status, tava ausente, tinha ido passear com a Baby! Conversamos outra hora, ok?

Ricardo Rayol disse...

Eu ainda vou aprender a escrever assim, nessa vertiginosa apresentação de letras que nos envolvem e estimulam a imaginação.

Paola a Estranha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
nana disse...

obrigada pela visita lá no estaminé!!
;)
apareça!
chuács

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