sexta-feira, 4 de abril de 2008

Primeiro relato (quando ele gozou no imaginário)

Mas aos vinte e cinco anos ele ainda está sujeito à ereção, o homem moderno, fisicamente também, de vez em quando, é o quinhão de cada um, nem eu estava imune, se é que aquilo pode ser chamado de ereção. [...]
Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais somos qualquer um, não há mais como nos apagar.
Samuel Beckett


ele estava aparentemente sentado no sofá. em cima do sofá, faz acho que quatro dias, tinha um livro de capa preta com a foto do autor no lado esquerdo superior. ele estava aparentemente se dobrando sobre um rim e de repente, nesses que são nossos impulsos, levantou, levantou o corpo e ficou, e fitou. fitou ela e a mim, eu nela. não, nem sei. fitou apenas ela entre as suas pernas, ela abrindo suas pernas com os joelhos. então era o álcool dançando na nuca, subindo pro topo da cabeça, esse álcool, esse ela e ficou ereto numa explícita impossibilidade do escondimento, já que era fato. e mais do que os joelhos dela que tinham um hematoma roxo de queda, e mais que isso. na verdade não era um sofá, mas uma poltrona que ela tinha comprado verde pra que combinasse com a parede verde escura, ou cinza antigo, da cozinha. o homem é quem tem de ter a casa, o homem, nunca a mulher, nunca aquela exatamente alienígena mulher que lhe lembrava a dona, esposa do atendente da venda, a que tinha lhe pedido certa vez que alcançasse com o auxiliar de padeiro o maço de cigarros que ele deixou cair e foi catar. a dona viu os cigarros espalhados no chão e ele seria o que? um rapaz atarantado? não, o homem tinha sua casa e ele era filho do dono da venda. pegou o primeiro cigarro que prendeu entre o polegar e o indicador com toda a naturalidade que se fazia isso aos anos de 65 à 73, a melhor produção do Maverik, e a dona lhe pegou o dedo e encostou na ponta do mamilo feito um botão de elevador que aperta.
não dessa vez, não seria dessa vez, mas da outra que ele caiu sobre umas latas de óleo, ela lhe foi socorrer e ele gritou de dor mentida, e lhe segurou a barra do vestido, a coxa em propósito. o cotovelo roçou as nádegas que se viam continuamente à noite no quarto do seu pai. o episódio passou logo ao esquecimento público.
não, não era nada disso. a questão que importa é a ponta do mamilo. aquela menina viu tudo, a doente, a que levantava as saias. e ela viu e abriu os olhos que tiveram então o drobro do tamanho acostumado, e ele viu que ela viu e foi então que apertou o mamilo da dona entre o polegar e o indicador, se sentiu duro - o que, cínico - e os dentes da menina atrás da prateleira apareceram porque ela abriu a boca, a boca se abriu sozinha por indesviável que foi, ele queria nela. nos peitinhos pequenos das curtas mãos que levantavam as saias sozinhas em plena hora da missa. diziam que a garota era doente porque, de concreto, escrevia números com Pilot azul na perna. ela levantara a saia tão alto que, certa vez, chegou a tampar a cara toda, só se viam as pernas, as equações e a barriga e ele, esse rapaz, esse menino, sentia um medo alguns anos mais velhos; sentiu um osso da estranha compulsão, quase até torpor ou choque e ia pra casa e não esquecia estirado em baixo da cama, dos estrados, pensando na surra que ela levou na praça duma das senhoras que cantava na igreja: a mãe, a sua mãe, não lhe dá nada de vergonha!! a calcinha azul.

o livro do braço do sofá, ele acabou esbarrando e... ele ficou no chão, o livro... por quanto tempo? Maria caiu de repente jogada com a boca na sua barriga e ficou assim muito mais tempo que se podia contar nos dias em que fica chovendo e intransitável; ela rolava a cabeça a boca com as mãos apertando o acento agudo do sofá, guturando, até mesmo chorando. a farta disposição dos cabelos. mas por que na barriga, desgraça? a mente, refastelada em desejos da ordem do sempre ser dito, nunca em voz alta - já que era bêbabo, mas contido; que, latejando no pescoço dela, fechou o olho pruma paralisia de Raskolnikov.

5 comentários:

Prill disse...

queria ela pelos cabelos, com força por ser castigo consequente da sandice, e fazê-la chupar. mas não foi o diabo quem a fez incorpórea.

Juliana Stanzani. disse...

"por que na barriga, desgraça?"
"e mais do que os joelhos dela que tinham um hematoma roxo de queda, e mais que isso."
Assustada, muito assustada. Mas é deleite também, vem um frio nas costelas quase infantil, como quando se pensa que mágica celestial se realiza com o arco-íris que aparece na poça quando se é criança.

Sincronia absurda. Amo você,
beijos.

Moacy Cirne disse...

Beckett é um grande autor. E o seu texto é muito bom. Abraços.

Prill disse...

Moacy, estou conhecendo o Beckett agora, ficando surpresa, fascinada.

mas, posso discordar da segunda parte? sei que é falta de educação, mas essa postagem está uma merda. pronto, falei.
tenho dificuldade de escrever pelo ponto de vista masculino, como discuti no dia em que escrevi com dois amigos, fico soando sempre muito viadinho.
de mais a mais, toda essa obscuridade nas linhas. tenho pensado sobre comunicar: comunicar é se fazer entender ou apenas transmitir uma mensagem. certa vez ouvi que toda comunicação é um engano, mas, mesmo acreditando nisso, o obscuro, a visão só de entrelinha, são mesmo "válidos"?
enfim, desculpa repartir essas bobagens contigo, me desculpe de verdade. mas é que às vezes a agonia transborda. e a insatisfação com sei lá o que.


Afora tudo isso, mais uma vez, obrigada pelo comentário. Sempre uma honra, como cê deve desconfiar.

Moacy Cirne disse...

Uma merda? Será? Não sei não... Claro que toda e qualquer autocrítica é válida, em princípio. Mas não exagere/mos, embora a agonia/insastifação seja algo estimulante. O que é se comunicar? E uma mensagem não se faz fácil como uma aurora sem cor: a taxa de informação que ela contém, ou pode conter, passa por labirintos às vezes impenetráveis. Aliás, estou sendo incomunicável. Talvez sim, talvez não? De qualquer modo, não procure o texto fácil, às vezes enganador; também não procure o texto hermético. E se você está descobrindo Beckett, parabéns! Um beijo.

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