terça-feira, 1 de abril de 2008

Clube do Coma: como tentar entender

canário Kiwi em fuga da câmera: transparência


(enquanto dura o álcool)

sinto que dessa vez, por só nessa primeira vez, queria que entendessem. penso por que: porque, quando assisto novela, quero entender. o obscurantismo foge de mim, não escolhi. enfim ...

A HISTÓRIA
basicamente, o Clube do Coma é uma história que apela pra um absurdo inicial "almodovariano" (almodovariano!).
é sobre duas mulheres que se conhecem num acidente de ônibus imaginam daí uma ligação, imaginam, a partir do que houve. nesse acidente uma garota morre partida ao meio por uma chapa de aço. essas duas mulheres são a Tereza e a Maria da Glória: a primeira vê o corpo da tal menina ser guilhotinado e tenta unir novamente as duas partes, a segunda vê a mesma coisa, mas impede Tereza de continuar com o que está fazendo já que a outra está claramente morta.

noutra ponta, e o que dá o nome, é sobre um lugar, um teatro, onde as pessoas podem subir ao palco para contar suas histórias à uma platéia mascarada.

NARRAÇÕES
algumas coisas contribuem pra que a história fique confusa... primeiro é que é esse o modo escrito em que me sinto mais confortável, por isso persisto nele confiando que cada um terá um entendimento próprio, que acho que multiplica as possibilidades de cada linha. se bem que agora eu não queria isso, queria clareza - e não dá pé.
no Clube do Coma, a narração tem me parecido ser a coisa mais causadora de absurdos já que são vários narradores, com várias visões e que contam as coisas em tempos diferentes, nada ali é linear. numa hora sou eu, noutra Maria, noutro a defunta; é possível que se misturem. penso que entender o meio-folhetim passa por conseguir identificar quem diz o que.

PERSONAGENS
são quatro personagens, se eu for inclusa, se outras coisas forem inclusas.

personagem que morre: não há compromissos com os limites do pensar o sentir de qualquer quem seja, por isso os últimos pensamentos da morta envolvem sentimentos que não são seus, mas das outras duas personagens que realmente existiram. não há mais o que dizer.

Tereza: é um estereótipo que existe por aí nalgum lugar, é uma mulher bem feita, forte e isolada. como todo o resto do conto, Tereza é uma metáfora. ah sim, tudo se trata duma metáfora gigante e certamente inúltil: Tereza é um corpo e só o corpo. sua comunicação se dá pelos gestor, por simplesmente e essencialmente existir, pelo sexo, pela força bruta e pelo silêncio da impossibilidade de comunicação sofisticada.
é semi-analfabeta, fugida de onde nasceu, de onde cresceu e com quem casou num último e primeiro impulso do corpo pra ser só corpo, corpo só. tem volúpia, chama atenção nisso. é abrupta.

Maria: seria o inverso, acho, da Tereza. Maria esqueceu de ter corpo, é só abstração, é só inexistência concreta; um imenso interior de força criativa, pensamentos não-concretos. (obs: a história ainda não é toda minha conhecida; ela não me apareceu inteira como um romance, é algo que vou sabendo agora). tem sua criatividade só de alma, inteligência de isolamento e estudo. Nasceu da água, ela diz, nasceu sem querer, foi criada também num sem querer.

a Câmera: penso que seja eu, assim como a morta sou eu. a câmera se encarrega de detalhar as coisas vistas. descreve e conta. descreve e conta. só.

o Cão: o homem bêbado que está sempre à porta de Tereza. não sei quem é direito... sei que, hoje sei, que ele fez amor com Maria num dia abafado. deve ter daqueles tormentos fortes que acabam gerando compreensão sobre os outros, por isso ele compreende, por isso saca um corpo de Maria.

MOTE
mote? e eu sei direito? todo autor deve fazer auto retrato porque os pintores fazem auto-retratos, então o Clube do Coma é um auto-retrato eterno, multiplicado, até enfadonho. a morta e partida ao meio, são assim duas trajetórias completamente diferentes. aliás, as trajetórias surgiram antes que essa morte viesse; imaginava essas duas mulheres (uma, fruto da minha inveja, outra, fruto dum expansionismo humano, da multiplicação), mas não sabia como duas entidades díspares iam se juntar. foi assim que, narrando a história, sem querer (também) morri nela. foi só então aí nesse evento estranho, absurdo mesmo que elas se juntaram; digo que se juntaram pelos dedos porque Maria começou a gritar e segurou as mãos de Tereza. ficaram assim tempo o suficiente.

LUGAR
não conheço outro Rio de Janeiro além do inventado, por isso é ele. Maria, parece, vive na Rua Fonte da Saudade e Tereza entre Santa Teresa e Santo Cristo. o resto é um monte de rua e casinha que ninguém nem quer saber, só eu e tem bastado (fita enlaçarada de antipatia)
como a cerveja acabou, não posso continuar escrevendo. espero que essas linhas sejam úteis.

ADENDO EM DIA SEGUINTE: não escrevo mais bêbada...

2 comentários:

Sandra Leite disse...

Bêbada ou sóbria, você me faz achar o perdido que em mim morava. Eu nem sabia que ele existia :)

priscilla disse...

Sandra, como te agradecer pelas palavras sempre tão cheias de alguma coisa que não compreendo?
Muito, muito origada do fundo de tudo. Não só por esse comentário, mas pela proximidade sua, proximidade que não me atrevo a ir ver.

um beijo

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