sexta-feira, 13 de abril de 2007

A viúva

Acreditando estar tudo acertado, voltou para o canto da capela , segurou entre os dedos da mão direita o cordão de continhas e apoiou o cotovelo do mesmo braço na mão do outro. A mãe dele chorava sem muito ânimo, apoiada com alguma conhecida que ela desconhecia e a meia dúzia de pessoas simplesmente olhava para o caixão de forma fixa, tão imóveis quanto os jogadores de uma mesa de totó.

Olhei com discrição para um ladrilho azul e ajeitei a gola da blusa, pensei que talvez devesse ter ido vestida menos formal ou devesse saber que as pessoas ali achariam ser ofensa que um dos presentes vestisse branco; passei os dedos pela franja, coloquei para o lado e novamente fiquei segurando o cordão de contas pra fugir de olhar o relógio e descobrir novamente que cinco minutos estavam demorando meia hora pra passar. Os chamaria de provincianos quando fosse oportuno.
Ele morreu às duas e trinta da manhã, mais ou menos, de uma doença causada por bactérias que eu jamais ouvira falar, logicamente nem ele porque nunca sentira nada antes da última semana em que ficou internado. A mãe me surpreendeu, eu achei que não ia haver velório nenhum, está morto está morto, eu sempre a ouvira falando, não tem porque ficar todo mundo em volta do defunto. Em seguida dizia que, quando morresse, não queria ninguém com vela ou água benta em cima dela porque morto não via, ouvia nem sentia nenhuma daquelas demonstrações rituais - inúteis. Já tinha até imaginado que o filho poderia ir antes, dizia que não ia fazer nada, e sacudia as mãos como se estivesse rodeada de moscas. De qualquer forma - e não conseguimos explicar o fenômeno - encomendara um velório de emergência, de caixão franciscano, numa capela igualmente despida. Comparecemos eu, o estagiário da galeria - que se encontrava mais uma vez lá fora aguardachuvado, fumando seu animal favorito, Camel -, a mãe, como eu já disse, e mais um pequeno punhado de velhos que nem eu nem o morto jamais havíamos visto (me parecia). Ele não tinha muitos amigos, é verdade, e ninguém mandara nem uma coroa de flores. O corpo havia sido liberado exatamente ás oito e quarenta e sete da manhã, o enterro seria o quanto antes fosse possível do almoço.
Era de se imaginar o espanto dos poucos presentes quando a mulher entrou fechando e sacudindo ruidosamente um guarda chuvas verde - imenso - e segurando a criança pelo ombro. Olhei para a mãe dele, ela se limitou a estufar o peito como que indignada; aquela chegada repentina atrapalhava tudo, sou obrigada a admitir que pensei o mesmo.
Acho que levou uma meia hora até que ela se aproximasse do caixão... depois foi como se não pudéssemos mais tirá-la de lá. Ela segurou a cabeça dele, passou as mãos pelo corpo derrubando todas as flores, puxava o ar pela boca sem fazer qualquer som. Dei um passo pra frente achando que ela fosse desmaiar, mas isso não aconteceu. Na verdade, para nosso espanto final (era possível), para o espanto dos que já estavam suficientemente espantandos, ela soltou um grito e caiu; caiu no chão se derramando como se fosse um saco de compras, estatelada, arrancando os véus da ornamentação que ela enrolava nos pulsos, no pescoço, fora de si, naturalmente, como a verdadeira viúva, a que esteve tantos anos ao lado dele, sem nunca estar de fato ao lado. Era normal, até saudável para nós presentes, que ela figurasse tão visceral ali bem na nossa frente, no que seria um velório e sepultamento dos mais esquecíveis.
A criança permanecia à porta, constrangida, dava pra ver. Eu passei o dedo indicador no cordão de contas, nervosa demais pra pensar. O estagiário se esforçava pra levantar a mulher de lá, mas parecia impossível. Ela o afastou aos chutes e fez um gestos com as mãos para que o filho fosse também até ali ao chão, então se levantou, segurou a criança tapando-lhe os ouvidos sem querer e repetia então sem parar que aquele era seu pai; seu pai, o seu pai! A mãe nada dizia, eu tampouco, fiquei na minha. O marido sabia que a mulher estava alí do outro lado da cidade? Devia estar no quarto, sentado a beira de cama, em chinelos.
Em algum momento, por uns segundos poucos, fui solidária àquela mulher... eu mesma já havia sido tão apaixonada quanto ela por aquele homem, ali, morto cedo pra não provocar mais os sentimentos que provocava e aos quais era sempre tão alheio – embora educado. Eu não tinha tanta devoção quanto a que puxava as pregas do próprio vestido de loja de departamentos... eu não era e nunca fui capaz daquilo.
Dei dois passos para trás e me sentei num banco de concreto forrado de almofada e borracha que rodeava toda a capela. Sentada, respirei fundo e me impressionei de descobrir que amava na medida dos indiferentes... olhei para o relógio só pra confirmar que ia almoçar mais tarde do que ontem. Compraria analgésicos assim que chegase em casa.

4 comentários:

Deco disse...

O titulo do texto tah errado !!!
acho que deveria ser: "Viúvas"
sabe... me identifiquei com sua personagem prncipal. até com a velhinha em alguns aspectos !!!
acho que isso não eh muito bom aos olhos da sociedade mas fazer o que neh ?? cada pessoa tem sua maneira de expressar seus sentimentos !!!
Gostei do texto !!! soh senti falta daquelas ironias que vc faz maravilhosamente bem !! tchau !!

Feliz disse...

Desculpe deco, mas as ironias estão aí. Dessa vez é uma dessas ironias da própria vida, cotidiana, que se repete sempre de forma sutil, mas totalmente perceptível. Ou será que é a prisss que torna as descrições qse palpáveis?
Eu poderia estar nesse velório, sorrir de ciúme, sentir um ódio silencioso daquela que conseguiu sua herança na prole.
O título me parece correto, uma é a esposa, que já não amava e já não era amada. A outra é a amante, que jamais é reconhecida viúva, por mais que ame, sofra e tenha sua família... essa vai ser sempre "a outra".

adoro isso! hahaha! várias interpretações sobre o texto!
estou com vergonha de publicar e parecer idiota, mas a qualidade do texto vale o risco!

beijos, gostosíssima gostosa!

Priscilla Santos disse...

Belle, ... não tenho palavras suficientes pra agradecer o seu comentário. Mulher, me sinto até culpada de você ler as minhas coisas, culpada, denunciada...sei lá..impugnada!
Não me escreva mais, faça esse favor. É falta de educação olhar bem lá dentro do texto, descobrir minhas vísceras.. é feio, muito feio. não me escreva mais. Obsequie-me.

Feliz disse...

humpf! não escrevo mais!

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