domingo, 22 de abril de 2007

Kiderovologia: não diga nada! Ela te dirá tudo.

No final do ano passado, a Luiza - amiga incrivelmente presente nas ausências - me deu de presente uma agenda. Uma daquelas executivas, sóbrias, de capa marrom, com a intenção de fazer de mim uma pessoa mais organizada. Veio com a seguinte dedicatória: Para Prill, a pessoa mais 'maluca' que já conheci, mas a única que nunca traí. Menina, como sempre contundente. Que me perdoe a publicação.
A agenda acabou virando tudo, menos um lugar pra eu escrever meus compromissos futuros; mal anoto o telefone das pessoas lá, sou viciada em anotar as coisas em papéis que nunca mais vou encontrar, esses dias, virou caderno porque o meu sumiu (emprestei e não lembro pra quem). Enfim, ela se tornou, acima das outras funções, o papel ideal pra onde fogem os meus textos-trechos-randômicos, aqueles pedacinhos de história, de nada, que não tem começo, não estão no meio e mal terminam - assim, num de repente. Coloco alguns esperando que (gostem?) de absurdidades mento-literatológicas. Kinderovologia: não diga nada, ela te dirá tudo.

1.
Cinco situações diferentes o levaram até ali; mas nenhuma poderia se caracterizar numa boa história que valha a pena se contada.
Basta ao leitor saber que ele estava ali, em frente a praia, parado, sozinho, em pé, nu.

2.
A grávida sorriu quando ele apareceu de trás da divisória de gerente. Vestia-se à moda dos anos 70, uma blusa muito estampada, imensas formas geométricas vermelhas. Nos pés, sapatilha preta, lisa.
Aquele corte de cabelo tão novo... o que deixava confuso, furioso. O que dizer? Ela, sorrindo, prenha, feliz. Ele nauseado, sóbrio... invejoso.
- Você está...
- Eu sei!
Deveria dizer alguma coisa, uma piada... Mas desistiu e bateu as mãos num gesto patético.

3.
As canetas nunca tinham tampinhas. Nem as novas. Cito esse dado por me parecer intrigante, ainda que sob a aparência de inultilidade.

4.
...imagino, que pra lugar nenhum... vai rodar por mil lugares até cair por aí bêbado, chapado ou atropelado, tanto faz. Você dá voltas e chega onde não quer ficar, mas você também não tem pra onde ir, não tem lugar melhor, daí você se conforma porque poderia ser pior; você poderia ter ficado mais uma vez com aqueles caras do camarão. Tem quase certeza de que ficar com o pessoal dos discos de vinil é bem melhor, tem menos brigas, pelo menos. E você se sente só porque... já reparou como todo mundo aqui tá acompanhado?

5.
E em terras muito distantes, nasceram pessoas de terras muito distantes.

6.
Sabe a coisa mais esquisita? Foi acordar e perceber que tinha sonhado com tudo e que nada tinha acontecido. Daí eu virei pro lado e lá estava você dormindo como uma pedra gigante. Tinha acontecido afinal? Tinha.
Nem faria sentido eu tentar contar da coisa mais esquisita, porque isso foi um alívio, uma descrença no absurdo. Você deitado e, num incontrolável, me veio o gosto e o formato da sua boca, a temperatura e a textura da sua língua... (pra constar, acho essas descrições estranhas, não consigo fazê-las com naturalidade, qualquer leitor mais ou menos atento percebe isso). Enfim...eu não merecia... talvez a expressão nem seja "merecimento".. Viu?? É complicado... As coisas mais simples são as mais esquisitas da gente falar sobre.
Depois dormi e acordei novamente. Virei pro lado e, aí sim (!), você não estava. Senti um negócio; na verdade ele explodiu sem aviso em relâmpagos na altura do estômago - ou da bexiga? - e veio de baixo pra cima espalhando pelo esôfago até os ombros, passando rapidamente pela nuca. Não faço idéia do porque me senti assim, adrenalina. Achei que fosse vomitar ou ter um ataque epilético.
Nisso tudo eu já estava de pé, me vestindo, confusa mas, ao mesmo tempo - e esse pedaço vai parecer fora do lugar - tranquila porque o seu gosto na minha cabeça era um fato juridicamente comprovável.
Você foi embora de repente e foi até engraçado porque foi típico. Estou tentando pôr tudo isso num parágrafo...
6.1
Acordou e foi quase engraçado perceber que apavorantemente e tipicamente, ele tinha ido embora como se nem mesmo tivesse estado. Mas tinha... e não tinha só estado.

--
TÍTULO A kinderovologia é uma criação de Michel Melamed in Regurgitofagia (Objetiva, 2005).
IMAGEM Bom...um Kinder Ovo vocês sabem o que é, não? Indústrias Ferrero - Itália.

3 comentários:

Juliana Bispo disse...

Poxa, que bom que você gostou do meu blog, brigada =)
Mas tá meio abandonado, tadinho...

Sobre Kinderovologia: UMA DAS COISAS QUE MAIS ME FEZ RIR NUMA PEÇA!
ahahahahhahahahahahha
Nossa, deu vontade de assistir de novo!

beijos!

Juliana Bispo disse...

ahahaha que isso, brigada de novo :)
mas meus textos já foram melhores...gosto mais das épocas antigas do meu blog! ehehehe
bjos

Boas maneiras [como você nunca viu, ouviu ou leu] disse...

Ai, eu li o livro e não lembro dessa parte...

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