terça-feira, 8 de julho de 2008

Dissewiskey: terminações etílicas dirigindo

Cheguei ainda pouco no tanque a tempo de ver o meu pai, a quem decidi agora que tem só o nome, com uma garrafa de Coca-Cola, com cachaça.

6.
Eu queria tudo diferente... às vezes eu acho que esse cheiro não vai sair de mim e do cabelo. Isso me espanta em você, e acendeu um cigarro, foi pra junto da janela exatamente quando passou um Maverik vermelho escrito vendo raridade. Te espanta porque não precisou comer os ovos empanados do boteco, o moço me dava até um refresco de graça, junto com ovo... ovo cozido empanado, ovo à milanesa e um refresco bem ralo de maracujá. Só queria tirar o cheiro de peão de obra. Não sinto, nunca senti, não gosto de você assim. Riu de novo. Ri... ri que eu te prefiro, ri até com os dentes, Clarisse. Ficou d'um sussurro que se estendeu fresquinho pela sala e puxou uma mecha de cabelo dela com outros dedos da mesma mão de cigarro; prefiro você Clarisse à Macabéa.


cervejas depois...

o que me cansa é essa guilhotina velha me dizendo que eu tenho que escrever sóbria. ela veio de onde? desculpa, amor, mas gosto é de escrever bêbada, você sabe. a bebida não é mais que a direção de mim sobre o corpo; etilicamente eu ganho cruzada as curvas, os vales, os rios. eu me bebo, me açude. a polícia me para sobre mim quando eu vou passando rente do bico dos seios, me pára. minha escrita tem desse dissewiskey, falo lá bem alto nos porcentos, pelos graus. é o sexto hoje. as meninas vão passando, os meninos grandes de bicicleta, desculpa, amor, eu reparar. ainda te prefiro, sempre sempre. te quero mais depois da segunda cerveja, aí meu sexo é quem mais te deseja, independente de mim, nem faz força pra me convencer. eu deixo o catolicismo pra trás. a bebida de mim, as letras, as linhas colocadas no lugar errado, fingindo que eu ainda sei que tenho (estado) escrevendo. eu não sei.

sobre as folhas
pensava esses dias sobre a comida. lembrei da história que eu contava esses dias - faz uns meses, cê lembra? - da mulher que tinha comido ovo à milanesa. eu lembro que eu chegava no bar e via aquele ovo rosa e achava ele bonito à beça. não sei porque não pedia o ovo rosa... na verdade, é que eu achava que o ovo vestido com gema de ovo, depois frito, era outra coisa, um salgado. a primeira vez queu mordi fiquei só pensando na gordura. lembrei do dia que o pai que agora só tem o seu chamar pelo nome, colocou em cima do arroz óleo de soja porque a gente não tinha azeite. vomitei no corredor do colégio. deve ser por isso, e outros, que tenho obsessão agora por comida. comida pra mim é presente. já trabalhei por comida. meu paladar gosta é de colocar a língua pra fora e provar as coisas, as pedras, as pessoas, as bocas das pessoas e as comidas que as pessoas comeram. gosto de beijo salgado. depois eu descobri que era ovo, não salgado com massa, com frango dentro. depois descobri que não tinha dinheiro pra pagar o salgado que tinha massa e frango dentro, só dava pra pagar o ovo, não lembro se o refresco era de graça. voltei pra escola, fiquei sentada no pátio esperando a hora da aula. não sei o que era queu fazia, queu pensava, que o estômago pensava (mais... mais... por favor, mais...: não pode). é uma amnésia grande como eu olho pro pátio e as folhas e as [...] que davam na árvore, a faxineira.
não lembro o que eu lembrava. acho que isso era eu ir embora, de mim, digo. ia. eu nunca mais voltava. aí fico me catando, estou aqui tentando me catar nas letrinhas.


Um comentário:

Lerdo em Surtar disse...

Você... que me assustou...! Meu soluço não me tinha feito lembrar da Coca-Cola, mas do suco bem ralo de maracujá - desse eu lembrava.
........
Dos momentos na hora do lanche, da infância olhando as pedras que eu atirava no riacho... e nada era de graça. Encontrar-me comigo mesmo (conforme você já disse de si antes), ver a pedra que havia atirado no riacho ondular a água... e a água por vezes se parecia com a aguardente que o meu irmão já cachacente, aos 12 anos, havia provado. Disso não me embriago em lembrar quando a escutar o farfalhar das folhas no pátio da antiga escola, mas dos muitos dissabores que o meu estômago parecia pensar quando com fome via as meninas que iam passando... dessa imaturidade me embriaga lembrar, sim, que me levava a querer adivinhar o que viria depois da segunda cerveja.
.........
Felizmente, naquela idade, eu me limitava aos encantos de versos que lia. Coisas com que eu outra vez já sabia adivinhar nas letras e nas linhas colocadas no lugar errado: o meu coração nada católico.

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