sexta-feira, 5 de março de 2010

Preservada a infância

I'm about to drop
My head's a mess
The only salvation is
I'll never see you again

Fazia alguns anos, pensara em se desfazer da boneca. Sentada e de vestido, mas não aconteceu de ter realmente coragem, nem impulso, por isso ficou ali olhando parada com olhos vítreos iguais aos dela agora porque, saciada, nada mais permanecia para ser visto.

Aconteceu que morava ali cerca de dois anos e cinco meses, preservava do mesmo modo a poltrona marrom que integrava de modo inseparável a mesma infância em que passava na casa do avô assistindo à violentos churrascos em domingos chuvosos. Como o pai bebia aos gritos e a queimara com um espeto, assumiu o casamento aos nove e dele não pôde mais quitar como a mãe: companheira e amiga, eterna confidente 1958-1997. Seu visitante, o homem, deitou do seu lado e entrava nela muitas vezes enquanto ela lambia a própria boca. O apartamento era fechado e basicamente úmido, escondido. Sobre a boneca, vestia-se de verde e compunha bem o esquema de cor de árvore, sua alameda. Os visitantes que já recebera... Foi generosa com a lembrança porque a lembrança dos outros sempre lhe ocorria na hora como reunião dos aprendizados anteriores, livro dos prazeres e dos esgotos; ao que ela respeitava. Seu visitante gozara, ela gozara for sure, ele dormia um sono e um suspiro morno. Elas se olharam e, embora possamos todos aqui imaginar nos segredos que as bonecas partilham, elas nada partilham fora do olhar cuidadosamente projetado, replicado pela valorosa indústria de olhos de brinquedo. Nunca houvera testemunha afora ela.

O apartamento é agradável e a geladera cheia. O visitante era doce. É uma babaquice achar que se deve realmente reunir coragem e se desfazer da boneca, do marrom, da missa dominical e dos homens que eram todos maus e que ela fazia questão de escolhê-los assim, evidenciando sua teoria cosmológica. Embora agora não, delícia, assopro na orelha, porra nas coxas, folhas prum chá. Um chá, na cozinha que é singela, mas bem aparelhada, a faria dormir.

3 comentários:

A Garoupa Que Sorri disse...

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Sr. Eulálio disse...

Adorei passear por aqui. Um passeio muito rico, há de se dizer. Ainda me dói o pescoço e as bochechas, de tanto olhar tanta coisa em tantos lados (inclusive os de dentro e os de fora) e sorrir...

beijo.
Eu lálio. Tu lálias?

Joao disse...

Maravilhoso trabalho, fantástico, mágico...

enchanté
John

jppires@ymail.com

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