quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Cisne negro

Você termina o exercício esticada feito uma gata, uma gata parada. Te mostro uma toalha e você se aproxima suada, pelada. A gente sai por aí, a gente já saiu muito por aí. Você me convida pra ouvir música, seus pais sempre por perto. Na casa de amigos, transamos sobre a bandeira do Fluminense você me mandou embora, e eu nem gozara. Aos 16 anos você era aquela que dava, aos 20 frequentava mesinhas de centro, mesa branca, dizia que aquilo era o Brasil, que as carreirinhas te deixavam ligada. Você nunca foi do baseado.

Conheci Altácia na volta do trabalho. Nossa Senhora de Copacabana, sentido Centro, inferno, inferno. O som reverbera pelos prédios, aquele engarrafamento e um calor, porra. Altácia apegada comigo pedindo ajuda e eu ali metendo, metendo, ela chamava e eu alí com deus, e ela aceitara Jesus há mais de um ano e meio e chamava eu e deus e chamava Jesus. Mas não te esqueço com roupa de ginástica, roupa de dança. Era louca, hoje os teus filhos sabem, você era perigosa e babaca pra caralho, nem AnnaKariênina cê tinha entendido, burra, absolutamente burra. Aos 24 começara a carreira de copista, roubava trechos, abria mão das aspas, roubava na caraça, publicara livros na capa dura, meu deus, você era escrota e burra, hoje percebo. Eu desejava uma chuva de xoxotas na minha vida, que houvesse uma porcentagem mínima, que 15% fosse só da sua caindo em cima de mim e eu no meio da rua de boca aberta, você vinha caindo esticada, chegaria ao asfalto de pé, apenas 15%. Altácia disse que eu devia te esquecer. Meu advogado não pensa o mesmo, eu te perdoo, você tem problemas. Tua filha parece contigo pra caralho, Altácia disse que não devíamos deixá-la assim porque você não sabe cuidar. Altácia é uma santa, sério, Altácia filtra o que o pastor diz e só aproveita as virtudes cabalmente necessárias. Sua filha me lembra você, mas não vou dar em cima, não tenho nada com isso, nutro o maior dos carinhos pela menina, o outro eu quero que se foda que tem pai, a pobrezinha não, Altácia vai aos cultos na Universal do Leblon, acha mais mão. A gente nesse sala dois quartos, cara, eu acho que tá bom, pra quem eu sou, pro quanto tu já me sacaneou de roubar o que eu escrevo, minhas matérias, meu suor e meus coitos recheados de juventude trotskista. Pra quem é tá bom. Botafogo é um lugar agradável no fim das contas.
Escuta, você precisa voltar, tem o banco, tem que pagar. Você aparece com roupa de ginástica, você colocava o pé na nuca, de mulher assim nunca se pede o divórcio, me perguntou
- O que é que foi?
Eu não dou mole pra mulher que se faz de gostosa. Eu sempre deixei o cigarro pendurado no lábio inferior querendo que você me dissesse, você não fuma e aí eu acendia e diria
- .. comecei agora...
Escuta, ó, volta que Altácia e tua filha já são mãe e filha verdadeiramente. Não sei como pode. Hoje somos uma família. O pai do Felipinho aparece aqui às vezes e a gente sai, toma uns chopps, porra, as crianças adoram, por mim engravidava logo Altácia, a gente tem tudo a ver, imagino muito ela como mãe. Ela ri. Eu quero logo ter uns crioulinhos, mas meu, sabe. Porra, nunca dei em cima da sua filha. O maior afeto, o maior. Ela entrou outro dia no meu quarto e eu ali de pinto duro, convidei-a a se retirar e ela ali com os bicos do peito armados contra mim. Essa juventude está toda muito sexualizada. Uma chuva de xoxotas, ela disse que queria um número mínimo, 0,5% das xoxotas seriam dela em sua honra, prometeu cair de pé, eu disse que ela devia ser mais amiga da Altácia, aí ela chorou. Tua cara, mas a gente conserta, o pastor é contra essa lei que proíbe palmadas, se depender de quem depender, vai levar porrada.
Ó, volta. Tá foda, cara, você perdeu uma vida aqui.

6 comentários:

Luiz Fernando Santos disse...

Prezada Priscilla

Fiquei chocado com seu conto.
Meu machismo empedernido me havia convencido, há tempos, de que uma mulher não consegue assumir a ótica masculina. Me fudi!

Questões de gênero a parte, me impressionou de fato o procedimento de uma narrativa instável, que funde em um mesmo plano, presente, passado, a voz de um narrador em primeira pessoa dando espaço para a interlocução interna de outro personagem em suas aspirações, desejos, delírios.

Delírio, é exatamente isso que funda a narrativa do teu conto, aquele frenesi que antecede o coito e se estende em uma tensão quase insuportável até o gozo.

Há também essa outra ausente, que sequer nome tem e consegue se insinuar, subverter, perturbar, se construindo pela ausência e no contraste com outros personagens...

Gostei mesmo.
Abraços
Luiz Fernando Santos

Pedro Vianna disse...

Realmente inquietante! Gostei... e já estou seguindo. Visite o meu blog. Lá poderás conferir meus poemas, contos e críticas literárias.

www.palavraprecipicio.blogspot.com

Diougnes disse...

Mil palmas, um grande texto. Fantástico, aquilo que eu jamais escreveria - mas adoraria ver escrito.
Abraços

Eduardo Wöetter disse...

Prabéns, Prill! Amo seus textos
Bjssss!

D. disse...

Pri,
Sempre achei que uma pessoa só pode escrever tão bem sobre alguma coisa quando ela realmente o sente. Não é a primeira vez que vejo vc ser tomada por um personagem tão arrebatador e não deixar falhas. Confesso, isso sempre me assustou em vc.

Anônimo disse...

tá bebendo na hilda hilst que eu sei, chuva de xoxota.

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